O cinema pode ajudar a trabalhar Grécia Antiga e mitologia grega nas aulas de história –   conteúdos previstos para o sexto ano do ensino fundamental e no primeiro ano do ensino médio. “No sexto ano, o tema está presente nas seguintes unidades temáticas: a invenção do mundo clássico e o contraponto com outras sociedades, lógicas de organização política e trabalho e formas de organização social e cultural”, explica o doutor em História e professor substituto da Universidade Federal de Alfenas (Unifal) Abner Alexandre Nogueira.

Abordar a Grécia Antiga de forma contextualizada é importante para a formação cultural dos alunos, como lembra o professor de História Antiga da Universidade de Pernambuco (UPE-Campus Mata Norte) José Maria Gomes de Souza Neto.

“Desde o século XIX, predominava a ideia da Grécia como origem da nossa civilização, ligada a uma visão colonial de mundo, na qual a Europa ocupava o centro da história. Hoje, isso é questionado e não buscamos uma única origem, mas reconhecemos que nossas referências são múltiplas”, aponta Neto.

Estudar a Grécia ajuda os alunos a perceber que existem diferentes formas de organização humana. “Questões sociais, políticas, culturais e de gênero que discutimos hoje já apareciam, de maneiras distintas, naquele contexto. Ao analisar, por exemplo, a democracia ateniense, podemos compreender por que ela recebe o mesmo nome da democracia atual, embora funcione de forma muito diferente”, lembra Neto.

“Esse estudo mostra que somos resultado de processos históricos e que nossas instituições foram construídas ao longo do tempo”, afirma Neto.

“A própria ciência moderna sofre influências da historiografia antiga. Diversas alegorias da mitologia grega são utilizadas por pensadores modernos como síndrome de Édipo, de Electra e o narcisismo, por Freud. Quando historicizadas, revelam muito sobre a cultura e o pensamento grego antigo”, destaca Nogueira.

Interdisciplinaridade

Além da democracia, outros conteúdos podem ser trabalhados a partir da Grécia Antiga e da mitologia grega. “É possível comparar a mitologia grega com africanas e a cristã, identificando aproximações e diferenças. Isso ajuda a perceber a presença da Antiguidade em elementos da cultura contemporânea”, lembra.

“A mitologia grega ajuda a demonstrar como as culturas são múltiplas e as religiosidades também, em prol de uma compreensão que vise o respeito das diferenças culturais e religiosas”, recomenda Nogueira.

Outra abordagem possível é o papel das mulheres nessa sociedade, sendo interessante comparar a posição feminina em Atenas e em Esparta, como exemplos extremos da grande complexidade dos povos gregos.

Já no campo da interdisciplinaridade, o tema pode ser associado aos teoremas matemáticos que levam os nomes de gregos como Pitágoras, Tales, Euclides e Arquimedes. “Mas é importante compreender conhecimentos matemáticos antigos como iniciados pela ciência egípcia e desenvolvidas pelos gregos, lembrando que algumas dessas operações não foram inventadas pelos gregos, mas divulgadas por eles, tal como o Teorema de Pitágoras, já utilizado séculos antes pelos egípcios”, adverte Nogueira

“Na língua portuguesa, diversas palavras têm origem grega, assim como prefixos (anti, arqui, auto, cata), radicais e sufixos (bio, fobia, fone, geo, hidro)”, reforça Nogueira.

Cinema em aula

Nogueira lembra que o objetivo não deve ser assistir ao filme apenas para apontar erros históricos, mas compreender por que determinadas escolhas foram feitas pelos realizadores.

“Mais importante que diferenciar fatos de elementos fantasiosos é perguntar qual o motivo ou a razão de os produtores construírem tal imagem, evento, narrativa. Entender o filme como uma construção discursiva permite ao aluno levar esse aparato crítico para outros filmes históricos que venha a assistir”, aponta.

Neto recomenda, por exemplo, comparar animações soviéticas sobre Hércules (indicadas abaixo) e a versão produzida pela Disney para mostrar como cada cultura se apropria do mito de forma distinta.

“Na versão da Disney, por exemplo, Hércules é apresentado como filho de um casal estável, enquanto, nos mitos gregos, Zeus tinha diversas relações amorosas com mulheres e homens. Essa mudança não é um simples erro, mas uma adaptação feita para outro contexto cultural”, descreve Neto.

“Ao comparar o mito original com versões produzidas em diferentes épocas, os alunos não aprendem apenas sobre a Grécia Antiga, mas também sobre como o passado é reinterpretado por diferentes sociedades. É o que chamamos de usos do passado”, pontua.

Para Neto, o mito deve ser compreendido também como documento histórico. “Não descreve acontecimentos reais, mas revela valores, crenças, medos e formas de compreender o mundo em determinada sociedade”, esclarece.

“A abordagem dependerá dos objetivos da aula. Um professor pode utilizar uma personagem feminina presente em um mito para discutir o papel das mulheres na sociedade grega, por exemplo”.

Já quando o foco são acontecimentos históricos, Neto lembra que há menos produções cinematográficas sobre a Grécia do que sobre Roma. “O cinema tradicionalmente associou Roma a temas como guerras, conquistas e figuras políticas, enquanto a Grécia aparece mais frequentemente vinculada à mitologia, à filosofia e às artes”, compara.

“Por isso, encontrar filmes sobre temas como a democracia ateniense costuma ser mais difícil”.

Entre os cuidados, Nogueira lembra de evitar a ênfase da Grécia como “berço da civilização”. “Houve extrema influência das culturas antigas precedentes, principalmente pelo contato com os egípcios, uma cultura africana, e dos fenícios, uma cultura da Ásia”, adverte.

A seguir, conheça 12 filmes e animações que ajudam o professor a ensinar sobre Grécia Antiga e Mitologia nas aulas de história da educação básica!

Curtas de animação soviética (1969-1974)

O Laboratório de Estudos Clássicos da Universidade Federal Fluminense (LEC-UFF) disponibiliza cinco animações soviéticas curtas, com legendas em português, que abordam os mitos de Prometeu, Perseu, Argonautas, Teseu e Hércules. “Permitem analisar releituras dos mitos sob a ótica socialista”, aponta Neto. Classificação: Livre.

Hércules (1997)

“A versão da Disney é interessante para discutir adaptações contemporâneas dos mitos gregos”, recomenda Neto. Classificação: Livre.

Fúria de Titãs (1981)

Aborda o mito de Perseu, o filho mortal de Zeus, que luta para salvar a vida da princesa Andrômeda do monstro marinho Kraken. Classificação: 14 anos.

Alexandre (2004)

O filme acompanha a trajetória de Alexandre, o Grande, desde sua juventude até a conquista de grande parte do mundo conhecido, e é narrado por seu general Ptolomeu décadas após sua morte. A obra explora suas campanhas militares, sua ambição de unificar povos sob uma civilização helênica e o legado político e cultural que deixou para a história. “Pode ser utilizado em trechos selecionados, especialmente no ensino médio”, recomenda Neto. Classificação indicativa: 14 anos.

Odisseia (minissérie, 1997)

Quando a Guerra de Troia chega ao fim, o herói Odisseu faz uma viagem de volta para casa na qual enfrenta criaturas mitológicas. Classificação indicativa: 14 anos.

Nina, a Heroína dos Sete Mares (2022)

Uma ratinha, um gato e uma gaivota unem forças para salvar a cidade grega de Yolcos da ira de Poseidon. A aventura apresenta elementos da mitologia grega em uma narrativa voltada ao público infantil. Classificação: Livre.

Jasão e os Argonautas (1963)

Acompanha o lendário Jasão, que, unindo-se a um grupo formado pelos melhores guerreiros da Grécia, parte em busca do mágico Velocino de Ouro. Classificação: 12 anos.

Troia (2004)

Em Troia, o rapto de Helena por Páris desencadeia a lendária Guerra de Troia entre gregos e troianos. Em meio ao conflito, heróis como Aquiles e Heitor protagonizam batalhas decisivas que marcaram a tradição épica da Antiguidade. Classificação indicativa: 14 anos.

Veja mais:

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Entenda 8 problemáticas sobre o Egito Antigo nos livros didáticos

Grécia Antiga e sua influência no mundo atual

7 livros para apresentar a mitologia grega aos alunos

Crédito da imagem: Walter Bibikow – Getty Images

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