O pagode é um gênero musical brasileiro que se origina do samba. “A constituição de ambos é parecida, porém, o pagode possui ritmo mais acelerado e a marcação não é realizada pela percussão”, apresenta o professor de geografia e doutor em educação Eduardo Oliveira Miranda.

“O gênero musical é compreendido como uma reinvenção de um estilo africano, sendo fruto da diáspora africana e uma produção negra afro-brasileira”, complementa.

No contexto educacional, o pagode contribui para a educação das relações étnico-raciais, alinhado à Lei nº 10.639/03, que tornou obrigatório o ensino de cultura afro-brasileira. Nas aulas de geografia, pode ajudar alunos a compreenderem o espaço urbano e suas dinâmicas.

“O pagode baiano se transformou ao longo do tempo, passando de música de duplo sentido e focada no corpo de mulheres, na década de 1990, para abordar a identidade do povo negro e problemas sociais”, pontua o pesquisador.

“A geografia trabalha com conceitos que discutem o espaço geográfico e há composições do pagode que se referem a territórios e suas realidades culturais”, reafirma.

Sequência didática

Miranda e a professora Hellen Silva desenvolveram o projeto “Musicando o meu mundo” com o nono ano do ensino fundamental de uma escola pública em Feira de Santana (BA). A escolha pelo pagode se deu pelo interesse dos alunos, que escutavam o gênero musical no seu dia a dia.

O trabalho começou com a discussão sobre problemas urbanos vividos pelos estudantes. Em seguida, eles selecionaram músicas que dialogavam com essas questões, escolhendo o pagode “Firme e forte”, do grupo Psirico.

“A atividade era discutir urbanização nas aulas de geografia, e ela foi realizada justamente em um período em que a cidade enfrentava enchentes. Essa canção do Psirico, em específico, abordava como a enchente desarticula a vida de quem atinge porque invade as casas e prejudica mobília e eletrodomésticos”, afirma o professor.

A letra foi analisada de forma crítica, permitindo que os alunos relacionassem os elementos da canção com suas próprias experiências com os alagamentos em seus bairros.

“O conteúdo foi significativo pois acompanhou o aluno para além da sala de aula. Discutir urbanização através de uma música que já fazia parte do estudante é uma forma de ele de compreender o conteúdo de sala de aula junto à sua realidade específica”, pontua.

Para o professor, uma conquista do projeto foi combater o pensamento de senso comum de que viver a enchente era uma “escolha” de quem decide morar em bairros que alagam.

“Como se essas pessoas escolhessem naturalmente estar naquele lugar e anualmente passar por esse tipo de desafio. Então, esse foi um dos pontos positivos: tirar a responsabilidade das pessoas e chamar a atenção para a negligência do Estado, que não olha para esses bairros periféricos da devida forma”, lembra Miranda.

Produção de painel

A atividade foi aprofundada com a produção de um painel, no qual os estudantes reuniram imagens de seus territórios para representar os problemas discutidos.

A partir disso, refletiram sobre políticas públicas, cidadania e possíveis soluções para os desafios urbanos.

“A produção do painel de imagens se deu de acordo com a realidade de cada estudante, ou seja, nós colocamos como responsabilidade deles que fizessem fotografias do seu território, bairro e rua, ou que buscassem na internet imagens similares que representassem a sua territorialidade”, descreve o professor.

Entre as dificuldades, Miranda aponta que a musicalidade produzida por pessoas negras frequentemente é associada a um lugar de inferioridade intelectual. “Ela é direcionada para um lugar de rebaixamento”, finaliza.

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Crédito da imagem: FG Trade – Getty Images

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