Leonardo Valle

Júlio Antônio ainda era criança quando foi colocado na escolinha de futebol de campo pelo pai, Sidnei Pereira. Aos 14 anos, viu um anúncio na televisão sobre um teste para integrar uma das equipes de futsal do Santos e passou. Seu bom desempenho no time chamou a atenção do técnico da seleção, que o convocou.

Sua história poderia ser a mesma de tantos garotos, não fosse por um detalhe: Júlio tem síndrome de Down. Hoje, aos 16 anos, é contratado pelo time de futsal Down do Corinthians, treina três vezes por semana e já possui um título mundial, conquistado em 2019, na cidade de Ribeirão Preto (SP). O torneio integra o Trisome Games, os Jogos Olímpicos para atletas com a síndrome.

Júlio em campo, no mundial de 2019 (crédito: arquivo pessoal)

 

“Comecei a gostar de futebol quando vi meu pai jogando. Meu sonho é ser profissional e campeão de novo”, adianta.

“No Mundial, que ocorreu no Brasil, a quadra estava entupida de gente. Pensei que o Júlio se intimidaria, mas ele jogou muito”, derrete-se o pai.

Foi nesse mesmo torneio que Rafael Cavalcante Sleiman, de 22 anos, foi eleito o melhor goleiro do mundo de futsal Down. “Fiquei muito feliz e emocionado. No dia, todos queriam falar comigo e tirar foto”, relembra.

A história da seleção brasileira de futsal Down é recente. O sonho começou com Cleiton Monteiro, ex- jogador de futebol de campo com passagem por grandes clubes no Brasil e no exterior.

Ao se aposentar, em 2005, ele foi convidado para ser diretor social da Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae) da cidade de Osasco (SP). Lá, começou a desenvolver com os assistidos um trabalho por meio desse esporte.

“Havia alunos com 40, 45 anos, que nunca haviam pisado em uma quadra até então”, conta.

“Para a pessoa com síndrome de Down, o futebol ajuda bastante na saúde e na qualidade de vida. Além disso, estimula o intelecto e a disciplina, por meio das táticas de jogo”, revela o profissional.

“Na seleção, aprendi as regras do futebol e que às vezes ganhamos, às vezes perdemos”, aponta Sleiman.

Monteiro ajudou o Corinthians a montar o primeiro time down de um grande clube no Brasil, em 2007. A iniciativa serviu de inspiração para o Santos, Ituano e Comercial.

Em 2011, Monteiro foi, então, chamado pela Confederação Brasileira de Desportos para Deficientes Intelectuais (CBDI) para compor a seleção. “Os atletas com Down mostram que, mais do que jogar bola, conseguem entregar um desempenho de alto rendimento”, ressalta.

Comemoração do título da seleção brasileira Down, em 2019 (crédito: Arquivo/CBDI)

 

Bola na rede

Em 31 de março de 2020, a equipe brasileira chegará à Turquia para disputar o novo campeonato mundial. Em campo, o jogador mais novo tem 16 anos e, o mais velho, 47. “Mas a média é de 27 a 33 anos”, calcula o técnico.

Já o campeonato nacional está previsto para dezembro, na cidade de Itu (SP). “Esperamos realizar a mesma campanha do ano passado, onde ficamos invictos e conquistamos o primeiro título mundial”, garante Monteiro.

Apesar do bom desempenho, a estabilidade da seleção brasileira Down está longe de ser um jogo ganho. A equipe luta para se manter financeiramente e, esse ano, mesmo sendo a campeã do mundo, quase ficou de fora do torneio internacional.

Os custos para levar jogadores e comissão técnica para outro país são de aproximadamente R$ 250 mil reais, e o time precisou pedir um tempo extra para a organização do evento para arrecadar o dinheiro.

“Fizemos uma vaquinha e conseguimos uma parte do montante. Em fevereiro, a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) entrou conosco e completou o restante”, aponta o técnico.

“Esperamos um dia crescer igual ao futebol feminino. Resultados e potencial nós temos, falta apenas acreditarem em nós”, decreta.

Para Sleiman, a continuidade da seleção seria a oportunidade de levar boas mensagens para outros jovens com síndrome de Down. “Que eles acreditem que nós podemos fazer de tudo e que o esporte é um dos caminhos”, afirma.

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Crédito das imagens principais: Arquivo/CBDI

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