Leonardo Valle

Localizada no município de Duque de Caxias (RJ), a Vila Beira-Mar é uma comunidade composta por migrantes de outros estados que vivem em situação de vulnerabilidade social. A região sofreu durante muitos anos com a falta de energia elétrica nas vias públicas.

“Por causa do escuro, era inseguro andar pelo bairro. Havia muitos assaltos, principalmente no final da madrugada, quando os moradores se dirigiam para o ponto de ônibus, rumo ao trabalho. Além de dois estupros: o de uma criança e de uma adolescente”, lembra uma das líderes comunitárias, Zélia Maria Marques do Nascimento.

A moradora chegou a buscar a prefeitura do município para solicitar iluminação pública, pedido nunca atendido. “A associação de moradores também não sabia o que fazer”, conta.

Desde 2015, a Vila-Beira Mar conta com os postes de luzes elaborados com cano de PVC, placa solar e bateria (crédito: Ellen Soares)

 

A situação mudou quando, durante uma ação de construção de casas populares, Nascimento teve contato com voluntários da ONG Litro de Luz. A entidade, criada nas Filipinas em 2011, disponibiliza para comunidades sem energia elétrica postes de luzes elaborados com cano de PVC, placa solar e bateria. Vinte e cinco unidades foram instaladas na Vila-Beira Mar, que ligam automaticamente ao escurecer “As ruas foram iluminadas em 2015. Desde então, não tivemos mais casos de violência”, afirma.

Criatividade brasileira

Atualmente, a organização se encontra em 20 países. No Brasil, atua principalmente em comunidades ribeirinhas, quilombolas e sertanejas, além de algumas regiões urbanas. Apesar da origem internacional, a entidade surgiu por inspiração de um brasileiro. Durante o apagão de 2012, o mecânico de Uberaba (MG), Alfredo Moser, criou uma lâmpada elaborada com garrafa PET e água sanitária – a lâmpada de Moser.

“Produzimos o objeto. Contudo, percebemos que os moradores dessas regiões sem energia necessitavam de alternativas mais duradouras. Muitos até já sobreviviam com algumas ligações clandestinas, os ‘gatos'”, explica o vice-presidente da Litro de Luz, Rodrigo Eidy Uemura.

Foi no Brasil que a ONG desenvolveu um segundo experimento: o lampião solar. A ideia foi de um voluntário, o aposentado Nelson Yematsu. “Ele funciona da mesma maneira que o poste: a placa capta a radiação solar ao longo do dia e é ligada à noite. A diferença é que o lampião é ideal para ser utilizado dentro de casa e para locomoções, pois não é fixo”.

As instalações são financiadas por meio de parcerias com empresas privadas. Além disso, para funcionar, Uemura lembra que é necessário envolver a comunidade assistida em todo o processo. “Os próprios moradores são ensinados a montar os postes, a fazer sua manutenção e a zelar por eles, para que não sejam violados. Para conquistar essa autonomia, é fundamental a participação de todos”, destaca.

“O lampião solar é ideal para ser utilizado dentro de casa e para locomoções, enquanto o poste é fixo”, afirma Rodrigo Eidy Uemura (Crédito: Edu Pestana/Facebook Litro de Luz)

 

Na Vila Beira-Mar, Zélia Maria Marques do Nascimento foi uma das embaixadoras da comunidade que recebeu formação. “Quando precisamos, eles voltam para nos atender. Não foi uma ação pontual e esqueceram da gente. O canal continuou aberto”, garante.

Necessidade básica

“A luz é um direito do cidadão brasileiro, além de necessidade básica e também estar relacionada à segurança”, descreve Uemura. Porém essa ainda não é uma realidade no Brasil. Segundo um levantamento de 2017 da Agência Nacional de Energia Elétrica, um milhão de domicílios brasileiros ainda não contam com energia elétrica. De acordo com ele, quando as vias públicas são consideradas, a estimativa é que isso atinja seis milhões de pessoas.

De responsabilidade do estado, a universalização desse serviço contou com dois programas federais nas últimas duas décadas: o Luz no Campo (2000-2003) e, mais recentemente, o Luz para Todos (2003 até 2022).

“Há questões geográficas que impedem o fornecimento, como acontece em comunidades ribeirinhas e quilombolas. Mas também falta investimento pesado no setor, principalmente nas regiões urbanas”, denuncia o vice-presidente da ONG. “A matriz enérgica principal do Brasil ainda são as hidrelétricas. Investir em fontes renováveis, como as energias solar e eólica, ajudaria a reduzir custos para o consumidor final e a ampliar a oferta”, finaliza.

Veja mais:
Potencial do Brasil em energia solar é subaproveitado, aponta especialista

Crédito das imagens principais: Ellen Soares

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