Classificar histórias ligadas à espiritualidade dos diversos povos originários como “folclore” ou “lendas” passou a ser amplamente questionado por pessoas indígenas.

O primeiro motivo é que tais saberes integram tanto a religiosidade quanto a identidade de diferentes povos, como explica o comunicador Jp Îasanã Tupinambá.

“Elas são tão importantes quanto a Bíblia para os cristãos ou os Itans para religiões de matriz africana”, descreve.

“No caso do meu povo (Tupinambá de Olivença), muito do que a sociedade branca chama de ‘folclore’ é ensinado pelos mais velhos como seres encantados que vivem junto aos nossos ancestrais. Espíritos da natureza que habitam águas e matas, protegendo, orientando e cuidando do que para nós é sagrado: a terra”.

“São também espíritos de nossos ancestrais que, ao passar pelo desencarne, ‘encantam-se’ e voltam para a mata como seres de luz. Por isso, Kuru’pir (Curupira), M’boi Tata (Boitata), Yasi Yaterê (Saci) são figuras importantes para a nossa cosmovisão sagrada”, acrescenta.

“A floresta e os não humanos integram as sociedades indígenas. Os territórios ancestrais foram criados pelos primeiros antepassados que não desapareceram: transformaram-se em plantas, animais e em tudo o que existe no mundo da floresta. Essas transformações são conhecidas pelos indígenas, que se relacionam com elas”, resume a doutora em Letras e escritora de origem Macuxi Trudruá Dorrico.

O homem branco e a deslegitimação de outras crenças

O questionamento do termo “folclore” usado para saberes indígenas também se dá pelo fato de essas histórias terem sido classificadas assim pelo homem branco e colonizador com o interesse de deslegitimar outras crenças frente ao cristianismo, como explica Tupinambá.

“O que se chama ‘folclore’ é o olhar da sociedade branca sobre nossas manifestações culturais e sagradas. A necessidade de apagar tradições espirituais de povos indígenas e sobrepor crenças cristãs é a origem da folclorização no Brasil, ainda que o termo tenha sido cunhado depois, no século XIX” , destaca o comunicador.

“A folclorização é quando o colonizador, ao ter contato com uma população autônoma, funcional e desenvolvida, porém diferente do considerado ‘habitual’ ou ‘civilizado’, enxerga tudo dela inferior, incluindo o seu sagrado. Assim, a folclorização surge a partir da intolerância e da violência”, acrescenta.

“Enquanto os povos originários foram diminuídos a ‘primitivos e selvagens’, seus saberes foram demonizados e realocados ao lugar da ‘crença popular’, por não serem considerados como instituição religiosa e por confrontarem o cristianismo”, enfatiza Dorrico.

“Chamaram de ‘folclore’ e ‘lenda’ as fés indígenas porque as sociedades foram colonizadas. Um exemplo dessa relação de poder: quando a mitologia cristã é questionada, muitos se enfurecem”, acrescenta a escritora.

Ao final, o processo de folclorização é extremamente negativo. “Ao reduzir algo que é fundamental para a identidade cultural de um povo – sua espiritualidade – a histórias fantasiosas, isso também sugere que estes povos, identidades, tradições e – acima de tudo – vidas, também não devem ser levadas a sério”

Uso do termo “folclore” no Brasil

Historiadora, mestra em Educação e integrante do Grupo de Estudos e Pesquisas em Arqueologia, Etnologia e História Indígena da Universidade Federal de Uberlândia (INCIS/UFU), Tássita de Assis Moreira explica que o termo “folclore” foi usado pela primeira vez em 1846 pelo escritor britânico William John Tons. Em tradução direta, folklore significa “cultura popular.

“Ele é originado na Europa, em um contexto completamente diferente do brasileiro, e foi importado. Aqui, serviu como uma forma de colocar todas as outras espiritualidades, existências e qualquer outro tipo de crença dentro de uma coisa só”.

No contexto brasileiro, Dorrico também aponta que o que é chamado de “folclore” e “lenda” foram apropriações dos conhecimentos e intelectualidade indígenas.

“São áreas de estudos acadêmicos, literários ou mitográficos que historicamente pegaram referências indígenas, como boto, curupira, iara, entre muitos outros, para subverter e moldá-las à mensagem da nação que acreditava no progresso e na civilização sem floresta”.

O processo de catalogar saberes indígenas como “lendas” contou ainda com a criação da Comissão Brasileira de Folclore (1947), e, posteriormente, das comissões estaduais; do 1º Congresso Brasileiro de Folclore (1951) e do Dia do Folclore (1965).

“Um período em que direitos indígenas não existiam, que os povos indígenas não tinham cidadania brasileira, o que dirá voz para proteger suas propriedades intelectuais”, lembra.

Para completar, Dorrico lembra que a sociedade branca passou a retratar os encantados como seres malignos.

“No Abecedário de Personagens do Folclore Brasileiro, a descrição de Januária Cristina Alves julga o curupira como um demônio pertencente ao mal. Diferente da descrição do autor maraguá Yaguarê Yamã, que o retrata como protetor dos animais de caça, nem bom, nem mal para humanos: apenas se protege e protege seu território”.

Como substituir “folclore” e “lendas”?

Tupinambá lembra que substituí-los por “sagrado indígena” e “encantados” são possibilidades, com ressalvas. “Encantados não é uma regra espiritual que se estende por todos os povos, já que existem mais de 305 etnias indígenas. Tal pluralidade cultural exige atenção”, adverte.

“Ao tratar de conhecimentos e espiritualidades indígenas, é sempre bom consultar o povo ao qual se referem”, complementa Dorrico.

No caso do termo “encantados”, outro cuidado é que ele também é usado em situações de sincretismo religioso, como a umbanda. “Entende-se que existe nessas religiões o respeito aos ancestrais indígenas nativos dessa terra, mas é preciso entender que essas não são tradições essencialmente indígenas. A forma de cultuar espíritos ancestrais nas religiões de axé e nas tradições indígenas se diferem”, aponta Tupinambá.

Já no campo da educação, Moreira sugere aos professores usar o termo “histórias indígenas” e substituir autores brancos tradicionalmente vinculados ao “folclore”, como Monteiro Lobato, por escritores indígenas que abordaram o tema. “Caso de Olívio Jekupé, Daniel Munduruku, entre outros”, finaliza.

Veja mais:

Preconceito ainda é principal desafio de juventude indígena que vive na cidade

Mulheres indígenas debatem participação política e se existe um feminismo indígena

Demarcação de terras indígenas a partir da perspectiva do índio é prevista na Constituição

Mídia Índia: projeto de indígenas utiliza redes sociais para dar voz a diferentes povos

Garimpos ilegais em terras indígenas deixam rastro de contaminação por mercúrio e malária

Crédito da imagem: FG Trade – Getty Images

Talvez Você Também Goste

Veja 6 filmes que ajudam a desmistificar a Síndrome de Down

Produções mostram potencialidades e protagonismo de quem vive com a trissomia do cromossomo 21

Pioneiras, doutoras trans e travestis compartilham suas trajetórias 

Pesquisadoras relatam episódios de transfobia, invalidação intelectual e sobrecarga de performance

Teatro foi importante para o fim da escravidão no Brasil, aponta pesquisador

Peças encenadas entre 1850 e 1888 expuseram violências e mobilizaram plateias em todo o país

Receba NossasNovidades

Captcha obrigatório
Seu e-mail foi cadastrado com sucesso!

Receba NossasNovidades

Assine gratuitamente a nossa newsletter e receba todas as novidades sobre os projetos e ações do Instituto Claro.