Briga entre vizinhos, auxílio emergencial ou a troca de um eletrodoméstico defeituoso. Esses são alguns exemplos de como o direito está presente no dia a dia. Por desconhecimento, no entanto, muitos brasileiros não conseguem ter acesso à justiça. Segundo o advogado Ricardo Reis, um dos motivos para isso são os termos técnicos e complexos da área jurídica. É por isso que ele e outros profissionais usam as redes sociais para tentar desmistificar essa linguagem.

“Os termos existem em qualquer área do conhecimento, mas, no caso do direito, nem todos precisariam ser usados. O advogado que cita frases em latim pode afastar a pessoa que o procurou com um problema”, analisa. Desde 2017, ele se dedica a traduzir o “juridiquês” para uma linguagem popular via seu canal no YouTube.

Ricardo Reis
Ricardo Reis explica o juridiquês em seu canal (crédito: reprodução/ YouTube)

Confira também: Advogados negros se unem para combater racismo no judiciário

“Percebi que havia lendas urbanas e desconhecimento de situações básicas do direito, seja nos campos do consumidor, família, trabalhista, entre outros”, afirma ele, que conta hoje com 530 mil seguidores. Para se fazer entender, Reis aposta em uma linguagem coloquial. “Sacrifico palavras técnicas para substituí-las por termos próximos à realidade cotidiana”, destaca.Outra tática é a contação de histórias (storytelling). A partir da dúvida de um seguidor, o advogado cria um personagem fictício e descreve suas dúvidas, locais que procurou para resolver sua questão, entre outros. “A narrativa ajuda a materializar um conceito, até então, abstrato”, justifica.

No canal, vídeos sobre endividamento e direito do idoso têm bastante acessos. “Pessoas com dívidas estão em todas as classes sociais. Já o segundo tema ainda é carente de fontes de informação. Em ambos, recebo inúmeras mensagens de agradecimento”, comemora.

Leia mais: Cartilha traduz Estatuto do Idoso para linguagem simples

Confiar na democracia

Outro pioneiro na tentativa de explicar o direito para pessoas comuns é o advogado Pedro Saliba, idealizador do canal ‘Posso Processar?’. A ideia surgiu em 2016, inspirada em um programa de rádio de sua mãe, também advogada, com o mesmo objetivo. Atualmente, o canal conta com aproximadamente 330 mil inscritos.
“O que me incentivou foi acreditar no papel social da advocacia. Ajudar as pessoas a terem uma relação de confiança com as instituições e a democracia”, ressalta.

Pedro Saliba
Pedro Saliba do canal ‘Posso Processar?’ (crédito: reprodução/ YouTube)

Para ele, conhecimento mínimo das leis também é importante para a convivência. “Muitos conflitos no trabalho, na família, no comércio ou na vizinhança podem ser resolvidos se as pessoas tiverem a orientação do certo e do errado. Além disso, há casos em que não é necessária a presença de um advogado, como nas causas com indenização de até 20 salários mínimos no Juizado Especial Civil. Qualquer pessoa pode se representar”, explica.

“Quando tenho conhecimento e sei que não é uma questão ‘de opinião’, fica mais fácil eu convencer a pessoa que está bloqueando meu direto. Se eu sei que a geladeira nova é um item essencial que deve ser trocado imediatamente quando quebrada, não vou aceitar que a loja demore 30 dias para isso”, exemplifica.

Sem burocracia

Em seus vídeos, Saliba ensina pontos básico do direito. “Como se portar e quais documentos levar em uma audiência, como conseguir uma defesa gratuita, o que é e qual o objetivo de um recurso, etc.”, elenca. Os temas mais procurados, contudo, são aqueles que ocorrem em um momento específico da política nacional. “Situações como o auxílio emergencial, reforma previdenciária, trabalhista, como retirar o FGTS, direitos trabalhistas na pandemia foram bastante procurados quando lançados”, explica.

“Vejo que o estado publica um decreto, mas não ensina como o cidadão vai acessar o benefício ao qual tem direito. Faço um passo a passo para esse seguidor não perder tempo com burocracia”, aponta. Para Saliba, o mais importante é não subestimar a capacidade de entendimento das pessoas. “Mesmo que pareçam difíceis à primeira vista, muitas coisas podem ser compreendidas”, acredita.

Veja mais:

“Escrita simples em documentos oficiais facilita acesso a direitos”, diz pesquisadora Heloísa Fischer

Talvez Você Também Goste

Solidariedade e visibilidade melhoram inclusão de LGBTI+ em favelas e periferias

‘Ver travestis entregando cestas básicas de dia é divisor de águas’, diz idealizadora de coletivo

Advogado gratuito: como acessar apoio jurídico sem custo?

Defensorias, sindicatos e universidades com cursos de direito oferecem serviços à comunidade

O que é racismo ambiental?

‘Desigualdades socioambientais não são vivenciadas por todos de forma igual’, explica pesquisador

Receba NossasNovidades

Receba NossasNovidades

Assine gratuitamente a nossa newsletter e receba todas as novidades sobre os projetos e ações do Instituto Claro.