Diferentes desafios marcam as vivências de indígenas LGBTQIAPN+ dentro e fora das aldeias. Em suas comunidades, buscam reconhecimento e respeito às suas identidades de gênero e orientações sexuais. Já nos movimentos sociais pela diversidade há dificuldades na compreensão das especificidades políticas e sociais dos povos originários.

Danilo Tupinikim, 26 anos, liderança do coletivo “Tybyra”, explica que as formas de entender gênero e sexualidade variam entre os povos indígenas.

“São mais de 300 povos no Brasil, com diferenças culturais, e essas relações foram impactadas pelos processos de colonização. Muitos deles entendiam a sexualidade como parte natural da vida, mas essas percepções foram modificadas ao longo do tempo, especialmente com a influência do Cristianismo”, afirma.

“Antes da colonização, muitos povos indígenas já tinham formas próprias de compreender o corpo, a identidade e as relações, de maneira mais fluida e menos rígida do que foi imposto depois. A espiritualidade também ensina sobre respeito, equilíbrio e diversidade. O problema é que muitas dessas compreensões foram apagadas ou silenciadas ao longo do tempo”, lamenta a fundadora do coletivo “Caboclas” Yakecan Potyguara, 28 anos.

Ela cita o caso de Tibira, indígena tupinambá executado por colonizadores franceses no século XVII, no Maranhão, considerado a primeira vítima documentada de perseguição por homossexualidade no Brasil.

“Hoje, parte da nossa luta também é resgatar essas memórias e reafirmar que a diversidade sempre existiu entre nós”, aponta Potyguara.

“Tibira nos lembra que o LGBTQIAPN+ indígena sempre existiu”, enfatiza Samantha Terena, 38 anos, mulher trans e liderança no povo Terena do Mato Grosso do Sul.

Visibilidade na estrutura do Estado

A fundação de uma coordenação LGBTQIAPN+ no Ministério dos Povos Indígenas é uma das conquistas apontadas pela população.

“Pela primeira vez, esse segmento tem um espaço institucional para falar, apresentar suas demandas e construir soluções de forma estruturada. Exemplos disso são os Seminários Regionais de Consulta realizados em 2025 e as agendas em parceria com o coletivo ‘Tybyra’ em 2026”, aponta o coordenador de Políticas para Indígenas LGBTQIA+ do Ministério dos Povos Indígenas, Niotxau Pataxó .

“Até pouco tempo, a gente não via um Estado reconhecendo pessoas indígenas LGBTQIAPN+ e, mais que isso, propondo, dentro de sua estrutura governamental, caminhos para construir políticas específicas para essa população”, destaca Tupinikim.

Pataxó cita também como avanço a programação sobre o tema dentro do Acampamento Terra Livre, maior mobilização anual de povos indígenas do Brasil, realizada em Brasília (DF).

“O Acampamento Terra Livre tem sido um termômetro disso: cresce a presença de indígenas LGBTQIA+, especialmente jovens, nas delegações. Muitos já se expressam como são, mesmo diante de riscos. Ainda assim, muitos são respeitados por seus povos e vêm ocupando espaços de diálogo e decisão dentro das juventudes indígenas”, afirma o coordenador.

“Tudo isso é uma forma de afirmar que pessoas indígenas LGBTQIAPN+ fazem parte dos povos e têm direito a políticas que respeitem suas vivências”, acrescenta Potyguara.

A seguir, três indígenas de diferentes povos compartilham suas vivências e desafios como pessoas LGBTQIAPN+ em suas comunidades.

“Nossa identidade não nos faz menos indígenas”

 

Yekacan Potyguara (Foto: Andre Guajarara/divulgação/acervo pessoal)

Yakecan Potyguara é originária da aldeia São José, em Crateús (CE), que possui menos de cem mil habitantes.

“Quando eu me assumi, não havia apoio ou referências dentro da comunidade. Pessoas LGBTQIAPN+ existiam, mas não se falava sobre isso. Era um tema silenciado; muitos diziam que isso não existia no movimento indígena ou que não poderia ser pauta. Eu mesma fui excluída de espaços ao tentar trazer essa discussão. Hoje, muita coisa mudou”, analisa.

Potyguara relata que participou de coletivos LGBTQIAPN+, mas sentia que não existia espaço para falar da vivência indígena dentro desses movimentos.

“Comecei a trazer essa discussão para dentro da minha aldeia. Convidei outros parentes indígenas para se somarem e criamos o coletivo ‘Caboclas’, em 2020. Hoje, seguimos atuando e promovendo o diálogo em outras aldeias do Ceará.”

Ela conta que a aceitação da sua família foi construída. “Minha mãe relata já saber que eu era uma mulher lésbica. Hoje, eu vejo minha família como uma grande referência de acolhimento. Sou filha do pajé Cícero Potyguara e de Dona Eliane Potyguara, e esse apoio foi importante pessoalmente e dentro do movimento indígena.”

Ela também enxerga uma diferença geracional no debate sobre diversidade nas comunidades indígenas. “Há mais silêncio e dificuldade de compreensão por parte dos mais velhos, por influências da religião e do preconceito. Os jovens estão mais dispostos a dialogar e a se posicionar.”

“Eu gostaria que entendessem que nós existimos, que não somos uma ‘invenção recente’ e que nossa identidade não nos faz menos indígenas. Ser indígena e LGBTQIAPN+ não é uma contradição, mas parte da nossa existência. É sobre existir, resistir e viver com dignidade dentro dos nossos territórios, sem abrir mão de quem somos”, ressalta.

“Também é importante entender que nossas vivências têm especificidades, que não é a mesma realidade das pessoas LGBTQIAPN+ não indígenas”, finaliza.

“Discriminação ocorreu na aldeia, não da família”

Danilo Tupinikim (Foto: divulgação/acervo pessoal)

Danilo Tupinikim é indígena do povo Tupinikim, do Espírito Santo, e formado em ciências políticas.

“Vivenciei preconceito, violência verbal e piadas na minha aldeia, mas não da minha família, que sempre acolheu e entendeu a diversidade. Muitas vezes, eu me privei de participar de atos culturais por conta desses preconceitos que aconteciam de forma verbalizada no cotidiano e nas nossas atividades”, revela.

Ao ir estudar em Brasília (DF), Tupinikim teve contato com a discussão sobre gênero, sexualidade e com outros movimentos sociais.

“Muitas lideranças indígenas apoiam pessoas LGBTQIAPN+ por não fazer diferença entre as pessoas da sua comunidade, mas há lideranças com discurso extremista, violento”.

Para ele, muitas das mudanças foram puxadas por jovens e pela criação de coletivos de diversidade sexual e de mulheres dentro do próprio movimento indígena.

“Ao reivindicar nosso reconhecimento, as lideranças passam a olhar para nós. Como somos um movimento indígena unificado, é preciso dialogar com todos esses recortes que estão em seu interior”.

“Preconceitos são velados”

Samantha Terena (Foto: divulgação/acervo pessoal)

Samantha Terena é uma liderança trans do povo Terena, do Mato Grosso do Sul, onde luta pela demarcação do território Taunay/Ipegue.

“Minha trajetória começou a partir dos 16 anos de idade, quando eu dei vazão à minha natureza, sem saber o que era ser uma pessoa trans ou travesti. A relação com meus pais foi a pior possível nesse começo. A rejeição ocorreu em casa e na comunidade. Muitos povos sofrem com a influência das igrejas evangélicas, que nos enxergam como demônios”, relata.

“Hoje, a minha família me entende e respeita minha vivência, trajetória e luta. A minha comunidade também me aceita”, conta.

Para ela, outro desafio é a não aceitação de pessoas LGBTQIAPN+ por lideranças de muitos povos.

“Apesar de não ser um tema novo, ainda há quem questione a existência de indígenas LGBTQIAPN+. Não sofremos tanta violência física no meu povo, mas enfrentamos preconceitos velados. Pais e mães dizem que não podemos ser quem somos, que mulher deve casar com homem e vice-versa. São violências que afetam nossa saúde mental”, conclui.

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