Era 2010 quando o pedreiro Ed Mauro Aparecido Morbidelli ganhou um terreno de sua mãe para construir sua casa própria. Morador da cidade de Extrema (MG), ele se deparou, neste mesmo período, com a imagem de uma casa de garrafa PET e descobriu que havia várias construções do tipo em diferentes locais do mundo. “Queria que minha casa fosse sustentável e decidi estudar e colocar a mesma ideia em prática, substituindo o tijolo pela PET”, relembra. Dois anos e 11 mil garrafas depois, o sonho se tornou realidade.

“Entre os benefícios, está a sensação térmica: o interior é mais fresco no verão e mais quente no inverno, quando comparado ao de uma residência apenas de alvenaria”, revela Morbidelli, que já mora na casa há oito anos. Outro ponto importante para ele foi a economia de 60% no processo. Em 2012, quando terminou a obra, ele havia gasto apenas R$12 mil na construção.

Casa de garrafa PET
Casa de garrafa PET feita por Ed Mauro Aparecido Morbidelli (crédito: acervo pessoal)

Para conseguir as garrafas, o pedreiro e seu pai visitavam os bairros da cidade antes da coleta seletiva passar, sempre em busca de garrafas de dois e três litros. “Abríamos os sacos para pegar as sacolas e depois fechávamos com cuidado, para não deixar lixo nas ruas”, explica. “Aos poucos, os próprios vizinhos souberam e começaram a guardar as garrafas para a gente”.

“Casa de Botellas”

Nigéria, Uruguai e Argentina são alguns dos países do mundo que têm casas construídas com garrafas PET. Uma das experiências pioneiras, contudo, ocorreu na Bolívia, quando a artesã e advogada Ingrid Vaca Diez desenvolveu um projeto para usar esse material na construção de casas para comunidades carentes. A iniciativa Casas de Botellas (“Casas de garrafas”, em espanhol), inaugurou a primeira residência em 2000: com 170m² e 36 mil garrafas.

O projeto de Diez está hoje em diferentes países da América Latina, incluindo México e Panamá. Nele, as garrafas são preenchidas com sedimentos e fixadas na horizontal, com cal e cimento. A construção lembra a de Morbidelli, que preencheu suas garrafas com areia e utilizou barro para assentar. “Contudo, é importante escolher barro de um local que não prejudique o meio ambiente. Terra de brejo, por exemplo, tem mais resistência que a terra vermelha, mas pode provocar impacto ambiental no ecossistema”, adverte o pedreiro.

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Detalhe da casa de garrafa PET de Ed Mauro Morbidelli (crédito: acervo pessoal)

Já entre os pontos fracos deste modelo, ele lembra que, diferente das construções com tijolos e cimento, o assentamento da parede de PET é bastante demorado. “Ela não tem a mesma facilidade. É preciso paciência para que seja assentada aos poucos”, orienta. Em termos de manutenção, ele afirma não notar diferença de outras casas assentadas com barro. “Esse material esfarela com o passar dos anos, exige retoque periódico”, compartilha o pedreiro que, para fixar o barro, resina a casa por dentro.

Modelo brasileiro

No mesmo ano de 2010, em uma parte diferente do Brasil, outro eco-construtor começou a vislumbrar as garrafas PET como substitutas de tijolos e lajotas. O projetista do Rio Grande do Norte Antônio Duarte Gomes teve a ideia ao tentar quebrar o objeto cheio de água com um tijolo. “O tijolo se partiu e a garrafa pet permaneceu inteira. Ou seja, estava diante de um material com uma ótima resistência e que, por conta do alto consumo e da poluição dos mares, podia ser encontrado com facilidade”, revela.

Quase onze anos depois, ele já construiu 40 casas por todo o Brasil e um prédio de quatro andares em Petrolina (PE) usando as PETs. “A construção exigiu 60 mil garrafas”, lembra. O modelo desenvolvido por ele, contudo, é diferente das casas de Diez e Morbidelli. As garrafas são assentadas vazias, isto é, sem preenchimento e na vertical. “Utilizo massa com aditivos e impermeabilizantes. O modelo boliviano é mais artesanal”, compara o projetista.

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Construção de casa de garrafa PET de Antônio Duarte Gomes (crédito: acervo pessoal)

Além disso, ele passou a usar o plástico de lixo eletrônico  – como carcaças de computadores e impressoras – triturado e incorporado ao acabamento das paredes. “O resultado é esteticamente bonito. Fica brilhante”, descreve. No decorrer de suas experiências, ele submeteu uma pequena parede de tijolos e outra de garrafas de plástico a uma mesa vibratória. “A primeira rachou e a segunda, não”, garante.

Construção profissional

Para Gomes, sustentabilidade e economia são, igualmente, os grandes trunfos do seu projeto. “A gente não pensa na quantidade de madeira queimada para fazer os blocos de tijolo e de cerâmica. Há desmatamento”, exemplifica. Já as garrafas são compradas por unidade em cooperativas de catadores de lixo. “São usadas 27 garrafas por m² construído”, explica.

Seu projeto o levou a conhecer ambientalistas e empresários famosos de várias partes do mundo. Agora, ele sonha em criar um curso online para compartilhar com as pessoas a sua técnica. “A desigualdade social faz ainda com que muitos não tenham casa própria no Brasil, e o aluguel é um dinheiro desperdiçado”, acredita. “Infelizmente, o poder público não tem interesse em adotar esse material sustentável na construção civil. Tanto que os editais de casas populares sempre exigem que os blocos sejam de tijolo”, lamenta.

Para quem deseja se inspirar nas iniciativas brasileiras, os dois construtores lembram sobre a necessidade de orientação profissional, incluindo arquiteto, engenheiro e construtor experiente. “Não se deve construir uma casa às cegas”, adverte Gomes. “Ter apoio e orientação nunca é demais”, conclui Morbidelli.

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Alterada em 12/02/2021, às 16h47

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