A instalação de minas para extração de minérios provoca problemas ambientais nos municípios escolhidos. “O que era uma montanha se transforma em cratera, trazendo impactos grandes nos ecossistemas”, ilustra o professor do grupo de política, economia, mineração, ambiente e sociedade da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) Bruno Milanez. Ecossistemas inteiros podem deixar de existir.

Esse foi o caso da savana metalófila, vegetação similar à caatinga que cresce sobre regiões ricas em ferro. “Ela foi destruída pela mineração no Pará. Com isso, fauna e flora não mais serão estudadas”, relata a diretora no Movimento pela Soberania da Mineração (MAM), Sabrina Lima. Outro aspecto é a relação de minérios como ferro e bauxita com a hidrologia da região. A última, por exemplo, funciona como uma esponja e impede que lençóis freáticos sequem.

“Quando se cava para buscar minério, alcançam-se os lençóis freáticos. É necessário bombear água para fora da mina para continuar a mineração, aumentando a água da superfície”, explica Milanez.“Ao ir embora do município, a mineradora pode deixar nascentes secas e falta de água”, acrescenta.

Leia também: Sem mudança, novos crimes ambientais como Brumadinho ocorrerão, alertam especialistas

Professor do Instituto de Energia e Ambiente da Universidade de São Paulo (USP), Pedro Roberto Jacobi destaca impactos também na qualidade do ar :“A mineração de calcário, granito e recursos minerais similares gera partículas e poeiras, trazendo transtornos aos moradores”.

Barragens abandonadas

Outro problema são as barragens com rejeitos das substâncias químicas usadas na exploração dos minérios, deixadas aos municípios após o fechamento das minas. “Em levantamentos de 2016, 75% das minas consideradas fechadas, no estado de Minas Gerais, estavam abandonadas ou sem sistema de gestão ambiental. Elas estavam com terra exposta, sofrendo erosão e com barragem sem monitoramento para evitar acidentes como os de Brumadinho e Mariana”, lamenta o pesquisador.

“Mesmo quando há plano de recuperação da área explorada, algo raro, é difícil dar um novo uso econômico à terra”, informa Jacobi. Lima ainda aponta risco de desabamento em cidades como Congonhas, na qual a barragem está localizada a poucos metros de bairros.“Em caso de acidente, moradores teriam pouco tempo para fugir. Temos relatos de pessoas que andam com todos os documentos diariamente com medo do rompimento da barragem. É estressante”, pontua. “Além disso, mesmo pequenos transbordamentos nas barragens podem provocar contaminações de solo e rios”, completa Milanez.

Debate excludente

A população apenas participa do processo de licenciamento ambiental para a possível instalação da mina. Em audiência pública, que deve ser amplamente divulgada, a mineradora apresenta o projeto e seus impactos, cabendo à população escolher.“São processos maquiados, comunicados em locais pequenos e com presença de pessoas vinculadas à empresa. Quando moradores aparecem, sofrem preconceito”, diz Lima.

“São raros os casos de enfretamento. Normalmente, a exploração de minérios é vendida aos habitantes como salvação do município”, aponta a especialista. Milanez conta que, no processo de licenciamento ambiental, a empresa deve oferecer alternativas de locais a serem minerados. “Mas, para justificar a mineração onde querem, apresentam outras opções impossíveis”, denuncia.

Contra o modelo de mineração intenso, moradores, pesquisadores e movimentos sociais têm se reunido em iniciativas como o MAM e o Comitê Nacional em Defesa dos Territórios frente à Mineração. “Em Minas, há ainda mobilizações para salvar a Serra da Moeda e a Serra do Cural da mineração”, acrescenta Milanez.

Mineração sensata

Para Milanez, discutir o atual modelo de mineração não é ser contra a prática. “A sociedade depende dos minérios para inúmeros produtos e serviços”, contextualiza. “Mas existem custos ambientais e sociais inerentes à atividade. Se sei que degradei ecossistemas, a ideia deveria ser minerar o mínimo para gerar menores impactos”.

Áreas sensíveis e que não deveriam ser mineradas precisaram ser definidas com maior critério. Caso de aquíferos e assentamentos de agricultores que produzem alimentos. “Deveria haver mais tributos e seu direcionamento para incentivar a diversidade econômica do município, assim como proteção ambiental e melhora da qualidade de vida dos moradores. O processo encareceria, mas estimularia um extrativismo sensato e não mais vinculado ao ritmo do mercado”, resume Milanez.

Para os pesquisadores, os próprios minérios da região poderiam ser aproveitados de forma mais sustentável. Lima cita a rochagem: “Trata-se de um processo que utiliza minérios da localidade na sua agricultura”. Jacobi indica a necessidade de cobrar maior responsabilidade das corporações. “Nas quedas das barragens, eles postergam as indenizações”, assinala.“Se há o risco de desabamento de barragem, as atividades da mina deveriam ser paradas e as comunidades remanejadas. Hoje, o lucro é privilegiado sobre a vida de pessoas”, conclui Lima.

Veja mais:

Corte de recursos, de técnicos e da participação social caracterizam atual política ambiental, diz pesquisadora

Talvez Você Também Goste

Economia azul: atividades sustentáveis no oceano podem beneficiar comunidades

Pesca artesanal, geração de energia e turismo são exemplos bem-sucedidos

Chegada de mineradoras não melhora qualidade de vida de municípios, apontam pesquisadores

Cidades se tornam dependentes de mercado instável e enfrentam aumento da população e da violência

Mulheres são maioria das vítimas de assédio moral e sexual em ambiente de trabalho

‘Quanto maior competição e menor cooperação, mais assédio’, aponta auditora Luciana Veloso

Receba NossasNovidades

Receba NossasNovidades

Assine gratuitamente a nossa newsletter e receba todas as novidades sobre os projetos e ações do Instituto Claro.