A história de Chloé Barroso, 37 anos, é similar à de muitas jogadoras trans no vôlei. A paixão pelo esporte iniciou bem antes da transição, na infância.

“Começou no vôlei da educação física e foi evoluindo para escolinha, jogar em um primeiro clube, em um time de base e instituições. Com a chegada de trabalho e estudos, passei a jogar em um time LGBTQIAPN+, com homens gays”, revela.

Após passar por terapia hormonal, ela buscou, pela primeira vez, uma equipe feminina amadora que a aceitasse. Nessa categoria, assim como na semiprofissional e na universitária, a jogadora trans precisa comprovar o bloqueio de testosterona por exames para ser estar apta a participar de campeonatos.

“Como eu vivia em uma bolha com outras pessoas LGBTQIAPN+, temia como seria a recepção, e no meu novo time só havia mulheres cisgêneras e heterossexuais. Eu era a minoria da minoria. Esperei discriminação, mas fui extremamente bem recebida, ainda que possa haver algum preconceito velado mínimo”, relata ela, que atua pelo time Volleyshow RTC e compete na LIVERJ.

Chloé Barroso, jogadora de vôlei (Foto: arquivo pessoal)

Ciclo de exclusão

Conseguir se manter no vôlei sendo atleta trans exige amor ao esporte para superar inúmeras barreiras.

Também jogadora do Volleyshow RTC, Ísis Luna, 30 anos, explica que não há atletas trans nas categorias de base – voltadas para jovens atletas com menos de 19 anos – porque o processo de terapia hormonal enfrenta uma disputa judicial.

O Supremo Tribunal Federal (STF) aguarda para analisar duas ações de constitucionalidade (ADI 7806 e ADPF 1221) da resolução 2427/2025 do Conselho Federal de Medicina (CRM), que proibiu a terapia hormonal para menores de 18 anos. Enquanto isso, a liberação é realizada em casos específicos via judicialização.

“Nos resta jogar em times masculinos de base, onde também há boicotes. Eu era afeminado e percebia que não ‘federavam’ (registro de atleta a uma federação estadual para competir) jogadores com o meu perfil, independentemente da performance em quadra. Essa foi minha primeira grande decepção com o esporte”, compartilha Isís Luna.

Sem experiências nas categorias de base, acessar as categorias de alta performance se torna mais difícil na idade adulta para as jogadoras trans. Assim, as competições amadoras são as que mais acolhem aquelas que desejam jogar vôlei.

Porém, há regras para competir. É preciso comprovar o tratamento de bloqueio por testosterona – exames não cobertos pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e, dependendo do campeonato, há limitações de quantas jogadoras trans podem estar em quadra. Ainda que, nessas competições, não costuma haver mais de uma dezena entre centenas de competidoras.

Ísis Luna, jogadora de vôlei (Foto: arquivo pessoal)

“Outro ponto é que, no amador, a gente paga a nossa inscrição, uniforme, mensalidade do clube, além dos gastos com hormônios e exames particulares periódicos. Ou seja, é um processo excludente, especialmente para quem não está no mercado de trabalho e tem poucas condições financeiras. Porém, muitas jogadoras trans resistem”, descreve Ísis Luna.

Suposta “vantagem” não é comprovada pela ciência

As barreiras para jogadoras trans atingirem o profissionalismo aumentaram em 2026.  A Confederação Brasileira de Voleibol (CBV) adotou as novas diretrizes do Comitê Olímpico Internacional (COI) e da Federação Internacional de Voleibol (FIVB) que excluem mulheres trans das categorias femininas. A antiga regra de monitoramento dos níveis de testosterona das atletas trans nas categorias de alta performance foi substituída por testes genéticos para a detecção do gene SRY, geralmente localizado no cromossomo Y responsável pelo desenvolvimento sexual masculino.

Para o coordenador do curso de Educação Física da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e pesquisador do tema Rafael Marques Garcia, a medida não se baseia em evidências científicas, mas políticas.

“A ideia de que há uma vantagem universal de uma jogadora trans sobre outra cis não está demonstrada, pois há variáveis que influenciam o desempenho e a performance esportiva. Se, por um lado, a influência dos hormônios androgênicos favorece o desenvolvimento de musculatura, massa óssea e altura, por outro, há impacto da hormonização sobre o desempenho físico, com perda de massa óssea e muscular, diminuição do VO₂ máximo e alterações nas células vermelhas do sangue, que influenciam o transporte de oxigênio. Sem contar efeitos colaterais e aspectos psicológicos do bloqueio da testosterona”, avalia Garcia.

“Não se pode concluir automaticamente que toda mulher trans terá vantagem competitiva sobre toda mulher cis em qualquer modalidade, ou que a hormonização elimina todas as diferenças. O ponto central é saber quais características persistem, a magnitude delas e se elas se traduzem em vantagem competitiva relevante naquela modalidade específica. É aí que a literatura ainda apresenta lacunas”, afirma o pesquisador.

“O problema da medida é que ter menos pessoas trans conseguindo competir no esporte de alto rendimento reforça essa lacuna cientifica já existente: se elas não chegam ao alto rendimento, não conseguimos produzir pesquisas suficientes com jogadoras”, lamenta.

Há poucos atletas trans no esporte de alta performance no geral. Particularmente no vôlei, em dez anos, o Brasil contou apenas com Tifanny Abreu, primeira mulher trans a atuar nesse nível no país, pelo Osasco.

Para Ísis Luna, achar que uma jogadora tem vantagem apenas por ser trans é um mito que cai no dia a dia da quadra. “Foi educativo para as mulheres cis do meu time me verem jogando, pois perceberam que sou apenas mais uma e que, inclusive, me canso com maior facilidade. É um pânico moral”.

A jogadora do Lendários e competidora na LIVERJ Patrícia Marcella, de 21 anos, iniciou no vôlei aos 13 anos, depois de conhecer a história de Tifanny. Ela também questiona a tese de vantagem técnica universal. “Eu não sou nem a mais forte do meu time. A minha característica é técnica, não força”, compartilha.

Patrícia Marcella, jogadora de vôlei (Foto: arquivo pessoal)

Chloé Barroso também vê alterações na sua performance após a terapia de bloqueio de testosterona. “Fico mais cansada. Não consigo jogar mais três sets direto”, exemplifica.

Influência da extrema direita

Garcia considera a adesão do teste genético um retrocesso.  “Historicamente, houve casos de mulheres com variações do desenvolvimento sexual que tiveram problemas com esses testes e acabaram expostas publicamente, submetidas a escrutínio e, em alguns casos, tratadas como se estivessem tentando fraudar as competições. A discussão deveria estar centrada na ampliação dos critérios à luz dos avanços das ciências do esporte”, enfatiza.

Ele explica que a mudança ocorre marcada pelo avanço de movimentos de extrema direita e ultraconservadores e por pautas antigênero em diferentes países. “A próxima edição dos Jogos Olímpicos será nos Estados Unidos, sob a presidência de Donald Trump, que já se declarou contrário à participação de pessoas trans em determinadas competições no país. Esse contexto pode ter contribuído como pano de fundo para decisões mais conservadoras”.

Impactos imediatos

A restrição à participação de mulheres trans em competições nacionais femininas, como a Superliga, traz consequências diretas, como explica Garcia.

“Primeiro, a única atleta trans em atuação no alto rendimento no Brasil, Tifanny Abreu, passou a ser impedida de jogar e perde a possibilidade de exercer seu trabalho. Isso levanta questões relacionadas à dignidade e aos direitos humanos”, pondera.

Mesmo com a restrição, o Osasco renovou o contrato com a atleta, que continua treinando com a equipe, e tenta reverter o impedimento na justiça.

“Há menos atletas que poderiam participar de pesquisas sobre o tema e uma tendência de marginalização, pois aumentam as dificuldades de elas participarem de competições. Para completar, corre-se o risco de a medida ser replicada nas categorias amadora, universitária e semiprofissionais”, ressalta.

“Converso diariamente sobre isso com outras atletas trans que estão no amador: ‘Será que vamos poder jogar no ano que vem?’. É uma incerteza, uma dor”, lamenta Patrícia Marcella.

A medida também trás incongruências: na teoria, mulheres trans que não atendam aos critérios estabelecidos para a categoria feminina teriam que participar das competições masculinas. “Mas, na prática, essa pessoa pode não conseguir apresentar desempenho suficiente para competir nesse nível, principalmente em razão dos procedimentos hormonais aos quais se submeteu. A responsabilidade pelo problema acaba sendo colocada sobre as pessoas trans, quando deveríamos discutir também a própria forma como o esporte é organizado”.

Cholé Barroso também questiona pessoas que defendem criar times e campeonatos apenas de pessoas trans. “O primeiro ponto é que não temos atletas suficiente para montar um time em uma mesma cidade, são poucas jogadoras e muitas às vezes jogam na mesma posição. Seria um time de exclusão.  Porém, é valido buscar espaços em que possamos vivenciar o amor pelo esporte independentemente de taxa de hormônio, de passabilidade (aparência de mulher cisgênero) etc.”.

“É uma medida que visa apenas excluir mais uma vez pessoas trans de espaços de convivência, saúde e socialização, quando há outros temas importantes no esporte feminino, como a falta de recursos na comparação com as mesmas categorias do masculino”, avalia Ísis Luna.

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Crédito da imagem: arquivo pessoal

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