Para pessoas com deficiência (PCD), sair em grupo para locais de lazer pode mudar a experiência com a cidade e é uma forma de exercer o direito à cultura e à convivência.
“Ao ocupar esses espaços coletivamente, você deixa de ser sempre a única pessoa com deficiência naquele ambiente, o que geralmente é comum; passa a encontrar pares, construir vínculos e compartilhar experiências”, descreve a fundadora e presidente da ONG Vale PCD, Priscila Siqueira.
“Também é uma forma de ampliar o imaginário sobre onde pessoas com deficiência podem e devem estar. A gente também quer ir a festas, bares, shows, cinemas, praças, restaurantes e ter uma vida ‘comum’”, compartilha.
Por esse motivo, diversas ONGS e coletivos de PCDs passaram a promover encontros por suas cidades. O Vale PCD realiza atividades coletivas em Recife (PE) desde 2022. Durante a Copa do Mundo de futebol masculino, foi a vez do Coletivo Dissidências Def, que criou o projeto Rolezinho Def em São Paulo (SP).
“O objetivo é levar pessoas com deficiência para espaços aos quais elas nunca pertenceram”, conta a organizadora do Rolezinho DF, Cintia Rodrigues. “Eu mesmo nunca havia visto a Copa fora da minha casa até então”, relata o participante Thierry Marcondes.
Segundo ele, outro objetivo do projeto é mapear a acessibilidade e a possibilidade de diversão reais em locais de lazer.
“Por exemplo, é possível ter autonomia, conseguir comprar coisas, ir ao banheiro e chegar ao espaço com segurança?”, aponta Marcondes.
Desafios
A experiência de encontrar um lugar para pessoas com diferentes deficiências se encontrarem durante os jogos da Copa foi difícil, como relata Rodrigues.
“Buscava espaços que, primeiramente, já se consideravam acessíveis. Porém, rodei sete quilômetros a pé procurando bares em que pessoas cadeirantes pudessem entrar e seguir até o banheiro. E não achava nenhum”, lamenta.
Além disso, ela também se deparou com barreiras atitudinais. “Perguntavam se nós éramos especiais, como se não tivéssemos capacidade intelectual ou cognitiva de estar dentro de um bar tomando cerveja, como qualquer outra pessoa”, relembra.
A seguir, os membros do Vale PCD e do Dissidências Def compartilham suas experiências sobre como organizar uma saída de lazer coletiva, que podem ser replicadas em outras cidades. Confira!
1) Encontre pessoas da sua região
“O primeiro passo é formar um grupo, e as redes sociais podem ajudar nesse momento de criar vínculos”, sugere Siqueira.
2) Comece pelas pessoas, não pelo lugar
Vale ouvir essa rede para entender onde as pessoas gostariam de ir, como café, parque, bar e cinema. Se todos participam das decisões desde o início, é mais fácil o encontro funcionar”, aponta Siqueira.
3) Permita-se conhecer novos lugares
Rodrigues conta que a primeira barreira pode ser imposta pelas próprias PCDs, acostumadas a frequentar lugares que já sabem ser acessíveis, como o shopping. “Mostramos que elas podem estar em outros locais, e que estaremos com ela”.
4) Pense todas as etapas
Da saída de casa até um bar, pessoas com deficiência demandam mais tempo e visibilidade de preparação e organização, como descreve Rodrigues. “É preciso reservar um carro e também verificar todas as necessidades mínimas para que aquele espaço possa ser, de fato, divertido. Porque se é para ir a um local e não conseguir se divertir, é melhor não ir”, opina Rodrigues.
5) Liste o que é necessário averiguar no espaço
Transporte, localização, banheiro, circulação, preço, possibilidade de descanso, proteção contra chuva ou sol e o próprio tipo de atividade precisam entrar na escolha do espaço, conforme orienta Siqueira. “É importante averiguar se as pessoas conseguem chegar, permanecer e ir embora com segurança e alguma autonomia. Lembrando que um espaço pode parecer ótimo para uma pessoa e ser completamente inviável para outra”, ressalta Siqueira. “Também vale observar a segurança e o atendimento. Às vezes, a estrutura existe, mas ninguém sabe como ela funciona ou como orientar uma pessoa com deficiência”, complementa.
6) Busque reviews sobre o espaço
Segundo Siqueira, vale conversar com pessoas que já frequentaram aquele lugar, procurar registros, entrar em contato com o estabelecimento e, quando possível, visitar o espaço antes do encontro.
“Quanto mais informação existe antecipadamente, melhor. Mesmo que nem todas as barreiras desapareçam, permite prever algumas delas e pensar adaptações antes que virem um problema. A previsibilidade diminui a ansiedade de sair para um lugar novo”, complementa.
7) Quanto maior a diversidade de pessoas, melhor
Marcondes lembra da necessidade de ter um grupo de pessoas com diferentes deficiências ao buscar acessibilidade. “Nós tínhamos pessoas surdas, com baixa visão, cadeirantes…”, descreve ele. “Precisamos de uma variedade de pessoas no grupo para entender de fato todas as necessidades do espaço. Nunca conseguimos um espaço que fosse totalmente acessível”, afirma Rodrigues.
8) Nem todo lugar que se diz acessível o é
“Foi muito difícil lidar com quantos bares e locais não são acessíveis; às vezes, pela forma como as mesas estavam dispostas, impedindo a passagem de uma cadeira para chegar ao banheiro ou entrar no bar”, compartilha Rodrigues. “E, quando finalmente você encontra um bar acessível, marca tudo e descobre que o metrô da estação escolhida não o é”, adiciona.
Para Siqueira, um atendimento verdadeiramente inclusivo reconhece a pessoa com deficiência como uma pessoa adulta e capaz de dizer do que precisa. “Isso significa falar diretamente com ela, perguntar antes de ajudar, respeitar quando a ajuda é recusada e não presumir necessidades a partir da deficiência”, aponta.
Também passa por uma equipe que conhece a própria estrutura do espaço e consegue informar. “Um bom atendimento não precisa saber tudo sobre todas as deficiências, mas estar disponível para ouvir, adaptar e buscar uma solução sem transformar cada necessidade em um problema”, complementa.
9) Se possível, convide pessoas com a mesma deficiência
No último rolezinho, Rodrigues conta que convidou um grupo com várias pessoas surdas ou que falavam libras para que elas pudessem se comunicar entre si. “Essa foi uma das perguntas que recebi de uma pessoa surda: haverá outros ou será só eu? Porque, se eu ficar lá sem conseguir me comunicar, é melhor não ir”, lembra Rodrigues.
10) Conforto é traduzido em acessibilidade
“Lazer também é a possibilidade de sair de um estado constante de atenção e sobrevivência. Uma pessoa com deficiência não deveria ir para uma festa, um show ou um encontro para passar horas cobrando acesso, explicando necessidades ou resolvendo problemas. Isso gera uma fadiga grande”, assinala Siqueira.
“Se o espaço já está minimamente preparado e as principais questões foram pensadas com antecedência, existe o alívio de aproveitar o que está acontecendo em vez de ficar o tempo inteiro pensando se vai conseguir usar o banheiro ou qual será o próximo problema”, adiciona.
11) Ao final do encontro, registre a experiência
“Primeiro, vale registrar as boas memórias. Depois, o que funcionou, o que não funcionou e o que poderia ser diferente em uma próxima vez”, lista Siqueira.
“Fotos e vídeos têm função de memória afetiva e de ajudar outras pessoas com deficiência a visualizar aquele espaço e entender se aquele rolê pode funcionar para elas”, aponta Siqueira. “Se aquele grupo crescer ou quiser organizar encontros maiores no futuro, esses registros também ajudam a contar essa trajetória, mostrar que existe uma comunidade interessada e até apresentar o projeto para possíveis parceiros ou patrocinadores”, completa.
12) Compartilhe as impressões do grupo com o estabelecimento
Siqueira recomenda, sempre que possível, dar um retorno para o local onde o rolezinho aconteceu. “O que funcionou? O que poderia melhorar? Como foi o atendimento? Quais os imprevistos? Não só para apontar problemas, mas para contribuir para que uma próxima experiência seja melhor, tanto para o nosso grupo quanto para outras pessoas com deficiência que forem até lá depois”.
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Crédito da imagem: studiostockart – Getty Images