A psicologia ambiental é uma área da psicologia que estuda a relação recíproca entre pessoa e ambiente. Ela busca compreender como os ambientes físicos, sociais, culturais e naturais influenciam nossos comportamentos, emoções, saúde mental e qualidade de vida, ao mesmo tempo em que analisa como nossas ações transformam esses locais.
“Seja uma praia, uma praça, uma cidade, um bairro ou até o meu quarto decorado, o ambiente impacta meu comportamento, assim como minhas ações impactam o ambiente. E meus comportamentos de cuidado, proteção, exploração ou depredação também transformam esses espaços. Ou seja, é uma relação bidirecional: eu impacto o ambiente e ele impacta em mim”, diz a docente do Curso de Psicologia da Unilasalle (Canoas) e pesquisadora de psicologia ambiental Camila Bolzan de Campos.
“Embora muitas pessoas associem a psicologia ambiental apenas às questões ecológicas, ela investiga de forma ampla como construímos vínculos com os lugares onde vivemos e como esses lugares influenciam nosso bem-estar, nosso senso de pertencimento e nossa qualidade de vida”, descreve a professora da Faculdade de Psicologia da Universidade Federal do Amazonas Adria de Lima Sousa.
Por essas características, a psicologia ambiental é uma área interdisciplinar que dialoga com arquitetura, urbanismo, geografia, educação, saúde pública e ciências ambientais.
“Crise não é só climática, mas humana”
Sousa lembra que os problemas ambientais não são meramente ambientais, mas humanos também. “Portanto, a crise não é só ecológica, mas também é uma questão psicológica, social e de relações humanas”, contrapõe.
Segundo ela, a psicologia ambiental contribui para compreender como as mudanças climáticas afetam nossos comportamentos, emoções, vínculos com os territórios e nossa capacidade de imaginar o futuro.
“Na Amazônia, por exemplo, quando os rios secam, não estamos falando apenas da perda de água. Povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos e outras comunidades tradicionais deixam de encontrar alimento suficiente, perdem sua principal forma de deslocamento e passam a viver situações de isolamento. Quando o direito de permanecer no território e de circular livremente é comprometido, a crise climática torna-se também uma crise de direitos, de pertencimento, de saúde mental e da possibilidade de imaginar um futuro. Todos sofrem”.
Emoções influenciam
As mudanças climáticas produzem efeitos que vão muito além das perdas materiais.
“Trabalhadores expostos ao calor extremo relatam cansaço, irritabilidade e tristeza. Pessoas que perderam suas terras descrevem sentimentos de desgosto e desesperança. A degradação ambiental rompe vínculos afetivos, simbólicos e culturais com o território”, aponta Sousa.
“Ou seja, as mudanças climáticas não afetam apenas o ambiente físico, mas também a forma como as pessoas compreendem a si mesmas, suas comunidades e seu lugar no mundo.”
De acordo com as psicólogas, as emoções desempenham um papel central na forma como respondemos à crise climática. A exposição a eventos extremos, como enchentes, secas, ondas de calor e incêndios florestais, pode favorecer, por exemplo, o desenvolvimento de transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) e de ansiedade.
“Receber um aviso de enchente da defesa civil pode levar a taquicardia, sudorese, insônia. O impacto é o mesmo tanto em quem já vivenciou a situação como em quem nunca foi impactado, mas tem conhecimento sobre os riscos”, descreve Campos.
O que gera boas práticas?
Campos explica ainda que a sensação de proximidade ou distanciamento da natureza também pode influenciar as práticas de cuidados ambientais.
“A tendência é que pessoas que têm maior proximidade com a natureza e a percebem como parte de suas vidas sejam mais cuidadosas com o meio ambiente. Tem a ver com filiação: se me sinto parte desse ecossistema, dessa natureza, entendo que também sou impactado por ela”, assinala Campos.
“Também existe o conceito de distância psicológica. Aquilo que percebo como distante de mim parece não me atingir e, por isso, não me mobilizo”, complementa.
“Conhecimento é importante, mas sozinho não transforma comportamentos. Nossas escolhas são influenciadas por hábitos, fatores econômicos, infraestrutura disponível, cultura, relações sociais e até pela sensação de impotência diante da dimensão da crise”, lembra Sousa.
“Quando se trata da crise climática, fica ainda num campo muito mais abstrato, pois as pessoas ainda tendem a ver o ambiente como algo de fora, externo e não na sua dimensão relacional. Tudo que acontece em qualquer lugar do mundo pode gerar impactos em outras pessoas que estão em diferentes lugares do mundo”, conta.
“Mas também não podemos responsabilizar apenas os indivíduos por problemas que são estruturais. A mudança de comportamento precisa ser acompanhada por políticas públicas, planejamento urbano, oportunidades de participação social e condições concretas para que escolhas sustentáveis sejam possíveis”, diz.
Souza lembra ainda que a comunidade é central na busca por soluções, já que grande parte dos nossos comportamentos é construída nas relações sociais.
“Comunidades fortalecidas favorecem cooperação, solidariedade, troca de conhecimentos e construção de soluções coletivas para problemas comuns. Na Amazônia, povos indígenas, quilombolas e outras comunidades tradicionais demonstram, há gerações, formas de convivência com a natureza baseadas no respeito, na reciprocidade e no equilíbrio”, analisa.
“Para completar, fortalecer o vínculo das pessoas com seus territórios favorece tanto a saúde mental quanto o engajamento em ações de cuidado ambiental”, finaliza Souza.
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Crédito da imagem: bymuratdeniz – Getty Images