De que forma e em que proporção as escolas brasileiras têm utilizado as tecnologias digitais em sala de aula? Para responder essas e outras questões, aconteceu, nesta terça-feira (3/12), em São Paulo (SP), o Seminário APEI50 – Avaliação das Práticas Educacionais Inovadoras (Ano I – Um Panorama das Escolas Brasileiras), que apresentou os resultados gerais do primeiro ano de avaliações feitas em 317 escolas, públicas e privadas, e respondidas por 5.411 educadores.

O recurso, que traz 50 questões relacionadas ao uso de práticas inovadoras nas escolas, também foi aplicado nas escolas participantes do programa Educonex@o, dos municípios que aderiram em 2019 a esse programa. O Educonex@o é uma iniciativa do Instituto Claro que capacita coordenadores pedagógicos e municipais para o uso de novas tecnologias em sala de aula.

O resultado do questionário é uma análise baseada em 50 indicadores, que se dividem em três pilares:

  • Usabilidade – analisa o uso eficaz das tecnologias digitais em estratégias pedagógicas;
  • Resultados educacionais – medem o potencial das tecnologias digitais para fomentar o desenvolvimento de competências fundamentais para cidadãos do século XXI;
  • Competências docentes – refletem a capacidade dos professores e demais membros do corpo docente de se atualizarem e inovarem na educação.

“A análise mostra que o ensino precisa ser centrado no estudante. Precisa abordar as competências socioemocionais, com foco nas competências cognitivas básicas e no preparo do aluno para estudar durante toda a vida”, comenta a organizadora do APEI50 e diretora do Instituto Crescer, Luciana Allan.

Durante o seminário, Allan apresentou informações que foram compiladas por um comitê de avaliação dos resultados que contou com a participação de 19 integrantes, entre acadêmicos e especialistas em educação.

Os cinco indicadores que apresentaram melhores resultados gerais na avaliação foram: autonomia dos alunos para o uso da internet; uso de recursos digitais pelos professores para personalizar a prática pedagógica; uso de objetos digitais para explicar conceitos complexos; autonomia dos alunos no uso de dispositivos digitais, como celulares; e trabalho de metodologia de pesquisa na web.

Já os cinco maiores desafios são: promover comunidades virtuais com alunos de outras escolas, cidades ou países; envolver alunos em projetos STEAM (Ciências, Tecnologia, Engenharia, Arte e Matemática); usar portifólios digitais para gestão do processo de aprendizagem; desenvolver a produção de textos digitais para sites e blogs; e colaborar para que alunos criem jogos digitais.


Pilar usabilidade

No que diz respeito à usabilidade, a análise mostra que, no geral, os alunos utilizam a internet em diversos momentos do processo de ensino e de aprendizagem, para pesquisa, interação, comunicação, colaboração e publicação de conteúdo.

Porém, ainda segundo os dados, apenas 5% dos professores da rede pública que participaram da avaliação envolvem os alunos em projetos STEAM, em que eles têm a oportunidade de construir objetos com materiais físicos e digitais. Na rede privada, esse número sobe para 11,6%, o que, de acordo com o relatório, ainda está longe do ideal. Para Allan, por meio dos resultados, percebe-se que a inovação ainda é um assunto que está sendo tratado de forma básica nas instituições de ensino no país.


Pilar resultados educacionais

A segunda parte, relacionada aos resultados educacionais trouxe dados sobre as competências digitais e socioemocionais dos alunos.

Entre as competências digitais, ou seja, o quanto os professores acreditam que os estudantes estão desenvolvendo determinadas competências a partir de práticas apoiadas nas novas tecnologias, o melhor indicador aponta que os alunos fazem pesquisas eficazes na internet. Por outro lado, não trabalham com softwares de produtividade, como Word, Excel e Power Point.

“Se eu coloco tecnologia na escola, e o professor continua sendo protagonista, o panorama não muda. É importante lembrar das tecnologias ativas. Enquanto o professor estiver no centro do ensino, o processo não vai mudar”, enfatizou a diretora de conteúdo do evento Bett Educar Brasil, Maria Alice Carraturi.

Já os dados sobre as competências socioemocionais mostram que os alunos querem participar de projetos propostos pelos professores, são engajados e demonstram empatia. “Os estudantes precisam se envolver na escola, no conhecimento e no aprendizado. Não há política que resista se você não envolver os alunos naquilo que faz”, reforçou o coordenador do Núcleo de Educomunicação da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo, Carlos Lima.  Por outro lado, os resultados destacam que os estudantes não dominam um segundo idioma e têm dificuldades de administrar o tempo.


Pilar competências docentes

Entre os resultados positivos relacionados aos professores, os números mostram que os docentes, em um nível intermediário, são capazes de personalizar o ensino, conseguem extrair dados de sistemas online para avaliarem resultados de aprendizagem e desenvolver atitudes empreendedoras nos alunos.

Porém, aspectos como ser um professor autor, orientar para uma navegação segura e evitar cyberbullying e estimular a participação em comunidades virtuais, práticas importantes na atuação do professor, estão em um patamar baixo e precisam ser revertidos.

“O professor precisa ser reconhecido e, muitas vezes, esse reconhecimento se dá pelo simples fato de ele ser ouvido. Eles são fundamentais no processo de aprendizado, mas é necessário colocar o incentivo no local certo, para que o desenvolvimento aconteça”, lembra o Secretário Executivo para a Primeira Infância de Recife, Rogério Morais.

“Tenho muita esperança porque cada um, dentro do seu papel, tem uma função importante dentro dessa discussão. Pensar a educação de forma mais contundente é algo novo. Não é possível parar e formar um novo professor. Temos que lutar dentro do que é possível e com os recursos que estão disponíveis”, finalizou a idealizadora do APEI50.

A avaliação completa está disponível online. Para conferir, acesse o Relatório Preliminar da Avaliação de Práticas Educacionais Inovadoras APEI50.

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