Muito populares no passado, jornais estudantis são publicações produzidas por alunos que reúnem textos literários, opiniões, notícias da escola, crônicas, poemas, desenhos e debates sobre temas políticos e culturais.
Nem sempre valorizados como documentos, esses periódicos preservam registros do cotidiano escolar, das preocupações dos estudantes e das formas de sociabilidade dentro da escola, além de opiniões sobre o momento histórico vivido – motivo pelo qual pesquisadores passaram a estudá-los.
“Eles permitem acessar dimensões da vida escolar que dificilmente aparecem em outras fontes. Eles registram práticas, valores, rotinas, linguagens e experiências dos estudantes”, resume a doutora em História e docente da Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc) Cristiani Bereta da Silva.
“Os documentos oficiais tendem a normatizar, prescrever e registrar o funcionamento institucional. Já os jornais escolares, mesmo sob mediação ou controle docente, trazem marcas do cotidiano vivido: vozes estudantis, apropriações, tensões e até desvios em relação ao que era esperado. São fontes raras, frágeis e, muitas vezes, únicas. Preservá-los significa manter o acesso a experiências escolares que não deixaram outros registros”, acrescenta.
Registro de momentos históricos
Silva coordena a pesquisa “Jornais escolares como culturas de memória: vestígios de presentes passados entre práticas culturais e políticas”, desenvolvida desde 2019 na Udesc.
Ela identificou 1.386 jornais produzidos no interior das escolas primárias e secundárias catarinenses, entre 1895 e 1975. “Podem ser manuscritos, datilografados ou impressos e reúnem textos, notícias, desenhos, exercícios escolares e registros do cotidiano”, descreve.
Entre eles estão “A Criança Brasileira” (1942–1960), do Grupo Escolar Lauro Müller (Florianópolis); “Anjo da Guarda” (1942–1948), do Grupo Escolar Arquidiocesano Padre José Anchieta (Florianópolis); “Pétalas Infantil”, do Colégio Coração de Jesus (Florianópolis); e “O Girafinha”, da Escola Estadual Nossa Senhora de Salete (Maravilha). Todos os jornais podem ser encontrados no Arquivo Público do Estado de Santa Catarina (Apesc), sendo que “A Criança Brasileira” e “O Estudante Orleanense” estão também na Hemeroteca Digital Catarinense. A docente ainda disponibilizou um catálogo preliminar da sua pesquisa para consulta.
“As análises mais originais, contudo, são aquelas que tomam conjuntos de jornais produzidos em um mesmo período, com o objetivo de compreender como as escolas catarinenses vivenciaram determinados processos históricos, como a Segunda Guerra Mundial e a nacionalização por ocasião do Centenário de Blumenau”, compartilha.
Transformações político-sociais podem ser observadas em suas páginas.
“Especialmente no período do Estado Novo, os jornais refletem o projeto de nacionalização, com forte ênfase na língua portuguesa, nos símbolos nacionais e na construção de uma identidade brasileira. Também permitem observar mudanças nas práticas pedagógicas, transformações nas concepções de infância e juventude e reconfigurações do papel da escola na sociedade”, lista.
Ferramenta de expressão, mas também de formação
Segundo a pesquisadora, os jornais estudantis analisados também trazem informações sobre festas cívicas e outras comemorações realizadas nos pátios das escolas e nas praças das cidades; rotinas escolares diversas, como práticas de leitura e escrita, sabatinas e circulação de livros; sociabilidades entre estudantes; relações com a comunidade local; e a circulação de notícias locais, nacionais e, por vezes, internacionais.
“São particularmente instigantes os textos em que estudantes descrevem suas comunidades: o número de casas, os rios, as plantações. Também relatam dificuldades de deslocamento, como o estado das estradas, o isolamento provocado por enchentes ou problemas decorrentes de secas, chuvas e geadas. Ou seja, os jornais permitem acessar não apenas o funcionamento da escola, mas sua inserção em um contexto social mais amplo”, destaca.
No campo da formação, Silva conta que os jornais mostram projetos articulados, sobretudo, a valores como civismo e nacionalismo (especialmente nas décadas de 1930 e 1940), disciplina e moral, trabalho e progresso, além do domínio da língua nacional. “Funcionavam, assim, como dispositivos de formação, não apenas de expressão”, lembra.
Usando o material em sala de aula
Para Silva, os jornais estudantis de décadas e séculos passados podem ser utilizados como fontes históricas junto aos alunos para trabalhar leitura e interpretação de documentos, discutir cultura escolar e memória e analisar linguagem, valores e representações do passado.
“Além disso, podem ser mobilizados como fontes para a história da própria escola e da comunidade, especialmente nos casos em que essas instituições ainda existem e produziram jornais no passado”, finaliza.
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Crédito da imagem: reprodução/arte IA