Os estudantes podem passar horas assistindo filmes, séries e vídeos no YouTube. Contudo, apresentam cansaço em aulas expositivas. “A linguagem que utilizamos em sala não mostra um real significado. Então, por que não se apropriar dessas estratégias de contação de histórias usadas pelo cinema, seriados, games e publicidade para focar em uma aprendizagem significativa?”, questiona a docente e doutoranda da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Emilly Fidelix.

Em sua palestra “Storytelling como ferramenta para professores inovadores”, no Seminário Nacional de Tecnologias na Educação (Senated), evento online que aconteceu nesta quarta-feira (4/12), ela recomendou o uso de uma estrutura narrativa comum nos produtos de entretenimento e que pode ser usada na aprendizagem por contação de histórias: a jornada do herói.

“Os elementos presentes nesse formato ajudam a aproveitar o potencial da trama e a pensá-la em etapas”, explica.

Segundo a pesquisadora, a introdução da contação de histórias deve ser o professor fazendo perguntas sobre o tema a ser exposto aos alunos, para captar informações que poderão ser usadas nas etapas seguintes. “Por exemplo, se for sobre o ensino da Lua, questionar o que a turma já sabe sobre esse satélite. Isso ajuda a trazer turma para o universo”, conta.

O herói da história pode ser um personagem fictício, os estudantes, a família, entre outros. A primeira parte da sua trajetória é o “conflito” ou o problema enfrentado e sua missão. “Não precisa ser uma briga, mas uma dificuldade”, diz.

A segunda etapa é a “recusa do chamado”, quando o herói falha e pensa em desistir. A terceira é a “ajuda do mentor”, quando um professor, mago, gênio da lâmpada ou outro personagem o ajuda a ter uma ideia para solucionar o problema.

“Há a ‘superação’, quando a pessoa tem a ajuda de outros para passar de fase. Essa lógica está presente no games, que também contam uma história”, explica. “Na sequência, acontece a ‘grande vitória’, que é o desfecho que o público deseja saber. E, por fim, a ‘conclusão’, quando tudo se encaixa, acontece conforme o desejado e a trama passa a fazer sentido”, finaliza.

De acordo com a profissional, a principal característica do storytelling é ter momentos de subidas e descidas. “Isso proporciona um mix de sentimentos e emoções que ajudam a dar movimento e a prender a atenção do aluno”, complementa.

Storytelling na prática

É possível aplicar o storytelling usando vídeos, podcasts ou mesmo as redes sociais. Entretanto, Fidélix lembra que ferramentas “offline” também pode ser utilizadas em prol de um ensino inovador, como cartas, teatro e zines.

Em suas aulas de história, por exemplo, a professora utiliza cartas no ensino sobre a Segunda Guerra.  “Molho café nas sulfites e deixo secando, até elas adquirirem uma aparência antiga e amarrotada. Depois, crio cinco personagens que vivenciaram aquilo e escrevo as mensagens que eles teriam enviados a outras pessoas”, relata.

Entre os personagens, há um soldado que procura uma enfermeira que foi uma ex-namorada e um casal de judeus que foi separado durante o Holocausto.

“Divido os alunos em cinco grupos e eles recebem uma carta. Precisam, então, investigar pessoas similares, traçar perfis do personagem e o contexto em que este viveu, assim como criar histórias para eles”, relata.

“O estudante tem um dia de historiador, de detetive, e é possível trabalhar com eles conceitos de arquivo pessoal, nazismo, entre outros”, complementa.

A técnica, contudo, é possível de ser aplicada com qualquer disciplina e conteúdo. “Imagina o aluno recebendo uma carta do Baskhara, contextualizando a sua história, antes de estudar a fórmula? Ajuda a termos um ensino mais humanizado, significativo, a aproximar a criança ou jovem do conteúdo”, completa.

Outra dica é imprimir a página vazia de um perfil de Instagram e convidar os alunos a criarem “contas” de personagens históricos. “É uma atividade que vai melhor com adolescentes”, recomenda.

Veja mais:
7 links sobre o uso da contação de histórias em sala de aula
Contar histórias usando suportes digitais estimula a aprendizagem

Crédito da imagem: Zeferli – iStock

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