A palavra “minimalismo” costuma ser associada a estilos de vida, decoração e consumo. Na história da arte, porém, o “minimal art” foi um movimento surgido nos Estados Unidos, na década de 1960, em reação ao expressionismo abstrato.
“Artistas minimalistas passaram a explorar formas geométricas simples, repetição e materiais industriais, buscando deslocar a atenção da expressividade do artista para a experiência do espectador diante da obra”, descreve a professora da rede municipal de Campinas e doutoranda em educação Giovana Spoladore Amaral.
Entre seus principais artistas estão Donald Judd, Sol LeWitt, Robert Morris, Anne Truitt, Beverly Pepper e, no Brasil, Cássio Michalany.
“O minimalismo reduziu a obra aos seus elementos essenciais, com predominância de formas geométricas, poucos elementos e ausência de excessos decorativos”, destaca o professor de artes Alex Romero.
O movimento pode ser trabalhado nos anos finais do ensino fundamental e no ensino médio, especialmente ao abordar arte contemporânea e suas diferentes linguagens.
“Nos anos finais do ensino fundamental, o minimalismo pode ser abordado como parte da história da arte contemporânea, permitindo compreender em que contexto histórico esse movimento surgiu e como respondeu a tendências artísticas que o antecederam”, recomenda Amaral.
Já no ensino médio, o minimalismo pode ser inserido no estudo da arte contemporânea, relacionando-o com transformações culturais, industriais e filosóficas da segunda metade do século XX, além de discutir as críticas que recebeu e os movimentos que surgiram posteriormente. “Ele permite compreender que a história da arte é marcada por continuidades, rupturas e diferentes maneiras de conceber a produção artística”, acrescenta.
O que ensinar?
Segundo Romero, conhecer esse movimento amplia a compreensão da arte contemporânea e desenvolve a percepção visual dos estudantes. “Mostra que a expressividade artística também pode surgir da simplicidade e da organização dos elementos”, destaca.
Amaral lembra que trazer o movimento para a classe ainda contribui para uma leitura crítica das imagens e objetos que fazem parte do cotidiano. “Permite que o aluno reconheça como determinados princípios estéticos circulam também no design, na arquitetura e na cultura visual contemporânea”.
“As proposta ainda convidam os estudantes a questionar por que um cubo aparentemente simples pode ser reconhecido como obra de arte quando inserido em determinado contexto expositivo, ampliando a compreensão sobre os processos de legitimação da arte contemporânea”, opina a professora.
Romero explica que, a partir dessa corrente artística, é possível trabalhar composição, equilíbrio visual, formas geométricas, relações entre espaço e volume e síntese visual. “A ideia de que ‘menos pode ser mais’ na produção artística, como por exemplo, na arquitetura moderna”, complementa o professor.
Possibilita, ainda, discutir a relação entre arte e indústria após a segunda metade do século XX. “Muitos artistas recorreram à repetição, à seriação e à fabricação industrial, como nas estruturas modulares de Donald Judd, questionando a ideia de que a expressividade manual seria o principal atributo da obra de arte”, situa Amaral.
Na hora de propor atividades, a professora considera importante oferecer experiências investigativas.
“Os estudantes podem construir estruturas modulares com formas geométricas simples, explorando repetição, escala e organização espacial; criar instalações ou murais em diferentes ambientes da escola, observando como o espaço modifica a percepção da obra; fotografar exemplos de formas minimalistas presentes na arquitetura, no mobiliário urbano e no design; e, por fim, discutir por que um objeto aparentemente simples pode ser reconhecido como obra de arte quando inserido em um contexto expositivo”, lista.
A seguir, confira cinco atividades para ensinar minimalismo nas aulas de artes no ensino fundamental II e no ensino médio.
1) Crie um mural minimalista na escola
A proposta de Amaral envolve a criação de murais a partir do estudo da obra de artistas como Sol LeWitt. “A simplicidade das formas permite que a atenção se volte para a composição, a ocupação do espaço e, principalmente para o trabalho coletivo. Além disso, o mural transforma a própria escola em espaço de experimentação artística, fazendo com que os alunos percebam como pequenas intervenções podem modificar a maneira como vivenciamos um ambiente”.
2) Transforme uma obra barroca em minimalista
Nessa proposta de Romero, os alunos devem preservar apenas os elementos essenciais da obra barroca. Para a atividade, ele indica, antes, a comparação entre a obra minimalista “Untitled (Stack)”, de Donald Judd, e a barroca “O Êxtase de Santa Teresa”, de Gian Lorenzo Bernini.
“Os alunos podem observar a simplicidade versus a riqueza de detalhes, as formas geométricas versus as orgânicas, a neutralidade emocional contra forte expressão e movimento”, recomenda.
3) Releitura de paisagens
O professor pode propor que os estudantes observem uma mesma paisagem, como a vista de uma janela ou uma pintura realista, e a reproduzam segundo os princípios do minimalismo. “A atividade estimula a identificação dos elementos essenciais da imagem, substituindo detalhes por formas geométricas simples e uma paleta reduzida de cores”, sugere Romero.
“Na avaliação, podem ser considerados aspectos como a capacidade de síntese visual, o uso de formas geométricas, a redução consciente das cores, o equilíbrio da composição e a coerência entre a paisagem original e sua versão minimalista”, adiciona.
4) Redesenhe logotipos conhecidos de forma minimalista
“Essa atividade permite compreender, de forma prática, como reduzir uma imagem aos seus elementos essenciais, preservando sua identidade visual e aplicando princípios de síntese, equilíbrio e simplicidade”, sugere Romero.
Para essa atividade, Amaral recomenda diferenciar com os alunos arte e design gráfico. “Vale destacar que, embora compartilhem algumas características formais, design e ‘minimal art’ constituem objetos de estudo distintos”, enfatiza.
5) Crie capas de livros minimalistas
Outra possibilidade indicada por Romero é a produção de capas de livros inspiradas em obras lidas no contexto escolar, como “O Pequeno Príncipe” (Antoine de Saint-Exupéry), “Memórias Póstumas de Brás Cubas” (Machado de Assis), “Capitães da Areia” (Jorge Amado), “Vidas Secas” (Graciliano Ramos), “Grande Sertão: Veredas” (Guimarães Rosa) e “Olhos d’Água” (Conceição Evaristo). “A proposta favorece a interpretação da obra literária, já que os estudantes precisam representar sua essência utilizando poucos elementos visuais”, afirma o professor. Ao final, os trabalhos podem ser apresentados em formato de seminário, permitindo que os alunos expliquem as escolhas de símbolos, formas e cores empregadas para construir uma representação minimalista.
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Crédito da imagem: shuoshu – Getty Images