A autolesão é o comportamento intencional de causar danos ao próprio corpo, como cortes, queimaduras, arranhões ou socos em si mesmo, sem a intenção de tirar a própria vida. Embora ainda cercada de preconceitos, ela é um sinal de sofrimento emocional e pode ocorrer entre crianças e adolescentes de qualquer perfil, independentemente do gênero, condição socioeconômica ou desempenho escolar.

Segundo a doutora em Educação e pós-doutora em Psicologia Milena Aragão, a autolesão pode estar relacionada a três principais motivos. O primeiro é a regulação emocional, quando o comportamento é utilizado como forma de aliviar emoções intensas, como raiva, tristeza, vazio e, principalmente, culpa, além do medo de perder o afeto das pessoas ou de ser rejeitado.

“O segundo é a sinalização social, já que muitos adolescentes têm dificuldade para expressar em palavras o sofrimento que vivenciam e acabam utilizando o próprio corpo para comunicar que não estão bem, muitas vezes deixando os ferimentos em locais visíveis como um pedido de ajuda”, explica.

Por fim, há a aprendizagem social, em que a influência de outros jovens que praticam autolesão pode contribuir para a reprodução desse comportamento.

“Independentemente dessa influência, a autolesão sempre revela um sofrimento profundo. A intencionalidade é um fator importante para identificar esse comportamento”, afirma a psicóloga.

Piercings e tatuagens, por outro lado, não são considerados autolesão. “São expressões sociais de identidade”, acrescenta.

Aragão integra o Projeto MAR (Manejar, Aprender e Reavaliar), iniciativa da Universidade Federal de Sergipe (UFS) que capacita professores do ensino médio da rede estadual para lidar com quatro demandas relacionadas à saúde mental de adolescentes: depressão, ansiedade, comportamento suicida e autolesão. O projeto também oferece materiais gratuitos online para educadores e estudantes sobre esses quatro temas.

O que observar?

A escola ocupa um lugar privilegiado para identificar casos de autolesão. “Às vezes, o jovem se corta no banheiro. Quem está presente, vê ou escuta é a equipe da limpeza”, afirma.

Entre os sinais que merecem atenção estão cortes, queimaduras ou hematomas recorrentes; uso constante de roupas de manga comprida, mesmo em dias quentes; isolamento; queda no rendimento escolar; mudanças bruscas de comportamento; e tristeza persistente.

A psicóloga também alerta para verbalizações como: “Eu sou um peso”, “Ninguém gosta de mim” ou “Eu não faço nada certo”.

Entre os fatores de risco estão histórico de violência doméstica, violência física ou psicológica, negligência e abuso sexual.

Como abordar o estudante?

Ao perceber um possível caso de autolesão, o primeiro passo é conversar com o estudante em um ambiente reservado, sem expô-lo diante da turma.

“O acolhimento passa por não minimizar o sofrimento, nem rotular, criticar ou dizer que ele tem tudo na vida ou que está fazendo isso para chamar atenção. Esse tipo de postura constrói afastamento, não uma ponte.”

Segundo a especialista, escutar é mais importante do que oferecer respostas imediatas.

“Escutar não é orientar. Muitas vezes, é só isso que eles querem: falar.”

Ela sugere iniciar a conversa com frases como: “Estou preocupado com você”, “Estou aqui para te ouvir”, “Imagino como deve ser difícil lidar com o que você está passando” ou “Muita gente acha que a adolescência é uma fase fácil, mas sei que ela pode ser um grande desafio.”

Também é importante respeitar o tempo do estudante. Caso ele se expresse melhor pela escrita, a conversa pode acontecer por texto.

Aragão lembra que os professores não precisam ser terapeutas para ajudar. O papel da escola é acolher, escutar e realizar o encaminhamento ao profissional adequado.

“Escute atentamente, olhando nos olhos, acenando com a cabeça e demonstrando que você está presente. Ao final, diga: ‘Obrigado por confiar em mim. Imagino que não tenha sido fácil falar sobre tudo isso’.”

A especialista também recomenda convidar o aluno a encontrar estratégias mais seguras e eficazes para enfrentar suas dificuldades emocionais.

“Você pode dizer: ‘Entendo que se machucar pode parecer a única forma de lidar com o estresse, a tristeza ou a culpa. Mas existem outros caminhos, e eu estou aqui para ajudá-lo. Vamos pensar juntos em outras formas de enfrentar tudo isso?’.”

Por fim, Aragão destaca que ajudar o adolescente a identificar os gatilhos da autolesão envolve incentivá-lo a reconhecer e nomear emoções como raiva, tristeza, culpa, angústia ou vazio.

“Também é preciso compreender o que desencadeou esses sentimentos — pensamentos, situações familiares ou falas de outras pessoas — para que o jovem consiga mapear o que está vivenciando e desenvolver formas mais saudáveis de lidar com o sofrimento.”

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Crédito da imagem: FG Trade – Getty Images

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