No dia 29 de setembro de 1908, o Brasil perdia o escritor Machado de Assis. O autor, contudo, deixava como legado uma obra com críticas sociais sutis, humor e uma escrita coloquial revolucionária. “Ele usava uma estrutura de frase minimalista, com sujeito, verbo e predicado. Exceto quando desejava criar algum efeito diferente. Por isso, pode ser lido com tranquilidade por alunos do ensino médio” indica o professor titular de literatura comparada na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), João Cezar de Castro Rocha. “A estrutura que utiliza é a mesma que os próprios estudantes fazem uso no seu dia a dia”, complementa.

Como você definiria Machado de Assis?

João Cezar de Castro Rocha: Como o maior autor da literatura brasileira e, de forma mais ambiciosa, como um dos grandes leitores e autores da literatura ocidental. Machado de Assis viveu até os 69, uma vida longa para os padrões do século 19. Seu primeiro poema foi publicado quando ele tinha 15 anos, e ele escreveu até perto de sua morte. Assim, dedicou cinco décadas da sua vida a escrever, ler e se aperfeiçoar. Ou seja, não se deixou levar apenas pelo seu talento, trabalhando com disciplina, rigor e controlando adversidades. Uma lição que ainda não aprendemos.

Especialista na escrita machadiana, João Cezar de Castro Rocha é autor do livro “Machado de Assis: por uma poética da emulação”

 

Como o fato dele ter sido um homem negro marcou sua vida e obra?

Rocha: Machado de Assis nasceu no Morro do Livramento, que era um morro geograficamente falando, não uma favela ou comunidade como são citados nos dias de hoje. Na Chácara do Livramento onde sua mãe era uma das agregadas da dona, uma senhora de posses. Ali, teve uma vida tranquila até os seis, sete anos, quando sua progenitora falece e o pai vai morar em São Cristovão. A partir daí, ele sofre adversidades sociais, por ser pobre e preto.

E analisando sua iconografia, ele era realmente negro, embora haja uma tentativa de embranquecimento da sua figura. Foi trabalhar aos 14 anos como tipógrafo na livraria do jornalista Francisco de Paula Brito, negro como ele e que deu oportunidade a muitos jovens. Depois disso, torna-se um funcionário público exemplar. Conseguiu estabilidade econômica e prestígio social, investindo em uma rede de contatos bastante refinada. Era tido como um sujeito bem comportado e aproveitou essa estabilidade para ser revolucionário em seu projeto literário. Na sua escrita, o tema das desigualdades sociais aparece de forma sutil.

Quais suas características como escritor?

Rocha: Machado foi, antes de tudo, um grande leitor da literatura: dos clássicos passando pelo o que era escrito no Brasil. Conhecia os autores que eram seus contemporâneos e aqueles que lhe precederam. Gostava de Goethe e José de Alencar. Conhecia Joaquim Manuel de Macedo, de quem não gostava. Esse é um aspecto importante da sua personalidade: ser um intelectual que compreendia a cultura do seu tempo a fundo. Em termos de estilo, podemos dizer que foi um autor coloquial. Usava uma estrutura de frase minimalista, com sujeito, verbo e predicado. Exceto quando desejava criar algum efeito diferente. Por isso, pode ser lido com tranquilidade por alunos do ensino médio. A estrutura que utiliza é a mesma que os próprios estudantes fazem uso no seu dia a dia.

Por que é importante para os jovens lerem Machado de Assis?

Rocha: O adolescente de hoje lê e escreve diariamente mais do que o do século passado, pensando nas interações pelos aplicativos de texto. Onde, inclusive, mostram-se detentores de grande criatividade linguística. Contudo, ele não é adaptado à leitura literária, que exige concentração e uma outra relação com o tempo. Assim, ler Machado é ter contato com um novo mundo.

Quais os principais temas de sua obra?

Rocha: A música é um tema frequente, sendo o próprio Machado membro do Clube Beethoven, que ouvia e discutia o compositor. Cito ainda o ciúme e o adultério, em um interesse mais psicológico do que detetivesco. Uma pessoa que não sabe se é traída é tida como ciumenta. Somente quando descobre, torna-se traída. Machado tinha interesse em pensar como alguém que nunca saberá a verdade se comportaria. Por fim, tratava de forma sutil as desigualdades sociais.

Em relação à escravidão, ele tem um conto pouco conhecido e muito bonito chamado “Maria”, sobre uma jovem escrava que se apaixona pelo filho do seu senhor. Como o amor é impossível, ela se mata. Em “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, o personagem principal é criado junto com um menino escravo chamado Prudêncio, a quem trata como brinquedo. Quando mais velho, Brás Cubas está caminhando pelo centro quando avista um homem negro batendo em outro. Era Prudêncio, agora liberto, açoitando seu escravo. Assim, denuncia como somos capazes de reproduzir as desigualdades ao invés de combatê-las. Ao invés de lutar pela libertação dos escravos, Prudêncio luta para ter um escravo. Um tema ainda contemporâneo.

O que os professores devem se atentar ao ensinar Machado de Assis?

Rocha: Tentar mostrar ao jovem que seus livros são clássicos não no sentido fossilizado e envelhecido da palavra, mas porque foram relevantes não apenas no período em que escritos. Para os adolescentes de 15 a 17 anos, sugiro a leitura das crônicas e contos do Machado. Na novela alienista, por exemplo, encontramos humor. De uma forma simples, o autor mostra que o médico alienista, que pretende internar quem considera louco na cidade, já estava há muito tempo demente também.

Veja mais:
Machado de Assis em hipertexto: portal reúne todos os romances e contos do escritor

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