Bastante popular entre jovens, a série de animação Dragon Ball Z pode ser utilizada para introduzir conceitos de física e química em sala de aula.
O protagonista da história é Goku, um guerreiro alienígena da raça dos saiyajins que foi criado na Terra e cresceu defendendo o planeta. Ao descobrir sua verdadeira origem, enfrenta inimigos alcançando novas formas de poder, como a de Super Saiyajin. Essas transformações são diferenciadas por números ou subtitulações.
“O voo, as transformações dos personagens e seus poderes são aspectos da obra que permitiram discussões em uma aula”, explica a pós-doutora em física e docente da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf) Letícia Maria de Oliveira.
˜Por meio de Dragon Ball podemos falar de energia e suas transformações, gravidade, força, leis de Newton, cinemática, dinâmica e até mesmo conceitos de física moderna como velocidade da luz, relatividade e mecânica quântica. O desenho pode ser explorado tanto nos anos finais do ensino fundamental quanto no ensino médio, sugere a professora, que é autora do artigo “A física e os super-heróis: uma forma divertida de falar de ciência”, com Kassiano Ademir Amorim Ferreira.
Física: Leis de Newton
A transformação dos personagens em Dragon Ball Z ajuda a explicar a relação entre força, massa e aceleração prevista na Segunda Lei de Newton.
Oliveira explica que, durante uma das sagas de Dragon Ball, o personagem Trunks desenvolve uma nova transformação para derrotar o vilão Cell. Ele aumenta seus músculos, dando uma ideia de que a massa do personagem também aumentou. “A obra, porém, não deixa claro como isso acontece, já que sabemos que a matéria não se cria do nada”, comenta a docente.
Após aumentar sua massa muscular, o personagem acredita estar mais ‘forte’, mas não consegue golpear o vilão, que explica como aquela expansão muscular sacrificou a agilidade dele.
“Pela Segunda Lei de Newton, a relação força, aceleração e massa pode ajudar a explicar como o vilão estava certo. Massa e aceleração são inversamente proporcionais, ou seja, é mais difícil acelerar uma massa maior. Do mesmo jeito que massa e força são diretamente proporcionais, assim como força e aceleração. Mas vale a pena lembrar que estamos considerando apenas a relação explicada pela Segunda Lei de Newton, ignorando outros aspectos.”, descreve a docente.
Ela explica que a estranheza causada pelo ganho espontâneo de massa também pode ser destacada com a turma. “Na vida real, para ganharmos massa muscular, temos que exercitar o músculo, mas precisamos de aminoácidos e outras substâncias bioquímicas para construir os músculos”, afirma.
“Podemos talvez pensar na relação de Einstein E=m.c 2 para entender a transformação de energia em massa. Ou podemos simplesmente assumir que a biologia alienígena dos Sayajins permite esse aumento dos músculos – por mais que Trunks seja um hibrido dos Sayajins com humanos”, descreve a docente.
Além da Segunda Lei de Newton, Oliveira destaca uma cena em que o personagem Gohan ensina Videl a voar para falar sobre gravidade, força, peso e como o controle do Ki, que é o que faz os personagens voarem na ficção, pode ser uma espécie de força antigravitacional.
Já para abordar as transformações de energia, ela lembra das cenas em que há a transformação em Super Sayajin, quando há mudança da cor de cabelo e da aura luminosa ao redor do personagem; e, em algumas versões, há até raios cortando a aura.
Química: modelos atômicos
Em sua monografia de conclusão do curso de Licenciatura em Química, Richard Matheus Nascimento dos Santos elaborou a cartilha “Química e Cultura Pop”, na qual estabelece um paralelo entre a evolução dos modelos atômicos e as transformações dos personagens de Dragon Ball Z. Segundo o autor, a comparação foi escolhida porque tanto os Saiyajins quanto os modelos atômicos passam por sucessivas evoluções ao longo da história.
Na primeira comparação, Goku, ainda criança, representa as primeiras concepções sobre o átomo formuladas pelos filósofos Leucipo e Demócrito. Assim como o personagem demonstra uma força extraordinária que parece vir de seu interior, os filósofos defendiam que toda a matéria era formada por partículas indivisíveis: os átomos.
O modelo de Dalton é associado ao Super Saiyajin por representar um avanço em relação às ideias anteriores. Da mesma forma que a transformação aumenta significativamente o poder dos Saiyajins, Dalton propõe o primeiro modelo científico do átomo, descrito como uma esfera maciça e indivisível.
Já o modelo de Thomson é comparado ao Super Saiyajin 2. Embora a aparência do personagem sofra poucas mudanças, seu poder cresce consideravelmente. De forma semelhante, Thomson mantém a ideia de um átomo esférico, mas introduz uma importante novidade: a existência de elétrons distribuídos em uma esfera de carga positiva.
O modelo de Rutherford corresponde ao Super Saiyajin 3. Assim como essa transformação apresenta mudanças visíveis e novos poderes, Rutherford reformula a estrutura do átomo ao propor a existência de um núcleo central e da eletrosfera.
Por fim, os modelos de Bohr e Sommerfeld são relacionados às transformações mais avançadas dos Saiyajins. Bohr propõe que os elétrons ocupam sete camadas eletrônicas, comparadas aos sete dragões enfrentados por Goku em sua forma de Super Saiyajin 4, em Dragon Ball GT.
Já Sommerfeld amplia esse modelo ao introduzir os subníveis de energia, estabelecendo uma analogia com a transformação em Super Saiyajin Deus, que depende da energia e da força compartilhadas por outros Saiyajins para ser alcançada.
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Crédito da imagem: Willie B. Thomas – Getty Images