Projetos de gravação de audiolivro com a turma tem alto potencial pedagógico, inclusive incentivar a leitura, promover conhecimentos sobre pontuação e também ajudar na inclusão de alunos com deficiência, uma vez que as opções de títulos de livros em braile ainda são limitadas. 

Esta última foi a intenção do projeto “Além do olhar: produção de audiolivros para deficientes visuais”, realizado pelo professor de história Almy Medeiros, na Escola Municipal Edite Porto Mendonça de Barros, em Canhotinho (PE). 

O docente trabalhava com o livro “As Viagens de Marco Polo” em suas aulas quando surgiu a ideia de criarem um audiolivro e disponibilizá-lo a um colega cego da escola. 

“Havia a intenção de despertar nos demais alunos um sentimento de empatia com esse estudante. Porque, por mais que alguns áudios do livro pudessem ser encontrados na internet, eles não percebiam que muitas vezes o colega ficava isolado nas atividades da classe”, relembra Medeiros.

“Além disso, havia o objetivo de trabalhar o conteúdo de grandes navegações da disciplina de história de modo mais atrativo”, completa. 

Situação similar foi vivida pela Escola Municipal Prof.ª Maria Aparecida Soares Amêndola, em Itanhaém (SP), que possuía desde 2016 o  projeto “Gostar de Ler — Escritores em Ação”, voltado para formação de leitores, com interpretação e produção textual.

Os estudantes escreviam suas próprias histórias e as ilustravam durante o primeiro semestre. Efetuavam a encadernação e as transformavam em livro no seguinte. Porém, queríamos incluir os alunos com deficiência visual  e o audiolivro ajudou a superar essa dificuldade”, relembra a assessora de orientação educacional, Alessandra Cavalcante.

“O processo de um projeto de audiolivro é basicamente: escolher o texto, dividir os papeis entre as vozes dos alunos, gravar os capítulos, analisar o que foi gravado, regravar o que for preciso e, só então, editar, masterizar e publicar”, resume a técnica, operadora e pós-produtora de áudio para broadcasting, Laís Ravache Preuss.

A seguir, Medeiros e Preuss compartilham suas dicas para professores de outras redes realizarem projetos de gravação de audiolivros com seus alunos. “O ideal é focar no processo, que será de muitas aprendizagens aos alunos, não no resultado”, adianta o professor. Confira! 

Gravação de audiolivro com histórias dos alunos na Escola Municipal Prof.ª Maria Aparecida Soares Amêndola, em Itanhaém (SP) (crédito: Acervo Prefeitura de Itanhaém/Divulgação Assessoria de Imprensa).

1 . Colete a autorização de uso de imagem e voz dos alunos com os responsáveis 

Algumas redes já pedem essa autorização para os pais no momento da matrícula. Se não for o caso, Preuss explica que, como o audiolivro não terá fim comercial, o documento pode ser simples: deve conter o nome completo e CPF do responsável autorizando o uso da voz e imagem do menor (com nome completo e idade) e a especificação do projeto. 

2. Escolha obras que estão em domínio público

Por questão de direitos autorais, podem ser gravados textos criados pelos próprios alunos ou obras que já estão em domínio público, ou seja, de autores cuja data de falecimento já ultrapassou o período de setenta anos. As obras podem ser consultadas no portal do Governo Federal. 

“O ponto negativo é que muitas dessas obras tem linguagem pouco atrativa para jovens. A dica é usar adaptações delas ou livros de contos e de poesias, que são mais curtos. Isso porque o processo de leitura em voz alta e dramatizada difere e tomará mais tempo dos alunos nas gravações”, recomenda a produtora audiovisual. 

“É fundamental que o texto escolhido seja interessante, caso contrário, os alunos tendem a não comprar a ideia”, alerta Medeiros.

3. Apresente exemplos de audiolivros aos alunos 

“Isso os ajudará a entender como é a adaptação de livro impresso para áudio e facilitará as gravações”, acrescenta o professor.

4 . Liste as adaptações necessárias

“Se o livro escolhido possuir tabelas ou imagens, será necessário um jeito diferente de descrevê-las em áudio. Nesse momento, vale investigar as pronúncias corretas dos nomes que aparecem no texto também”, recomenda Preuss.

5. Teatro para uma melhor leitura dramatizada

O audiolivro exige que os alunos entendam os personagens e façam uma leitura dramatizada para que a história não fique monótona para os ouvintes. Preuss recomenda teatro e jogos teatrais para ajudar os alunos a se soltarem.

6. Atenção às pontuações 

Medeiros recomenda incluir a professora de língua portuguesa no projeto para auxiliar a classe no uso da vírgula e outras pontuações, fazendo com que as frases sejam ditas com as intenções corretas. 

7. Onde gravar?

O ambiente precisa ser silencioso e ter uma acústica que não provoque ecos ou reverberações. “Esses são difíceis de amenizar em aplicativos gratuitos de edição”, enfatiza a produtora. Para uma boa acústica, faça testes. “Às vezes, o som fica ruim quando a gravação está próxima do vidro da janela, porém, uma simples cortina já resolve o problema”, compartilha.  

8. Como gravar?

Pode-se usar o próprio gravador do celular e, depois, editar e equalizar os sons em programas gratuitos como o Audacity e o Reaper. Caso seja gravado direto no computador, Preuss indica usar microfones do tipo gamer, que possuem entrada USB. 

9. Opte por arquivos menores

Por questão de acessibilidade, divida o livro em áudios curtos, de até 15 minutos. “Isso ajuda o ouvinte a não se perder e, caso continue a audição outro dia, a encontrar o trecho desejado sem gastar tempo procurando”, afirma Preuss.

10. Faça cabeçalhos

No início do livro e de cada capítulo, o ideal é fazer um cabeçalho com créditos. O começo pode conter o nome da escola, do livro e do autor, assim como uma introdução. “Por exemplo, o nome dos personagens com seus respectivos narradores. Isso ajuda o ouvinte a reconhecer a voz da personagem”, sugere Medeiros. 

No início de cada capítulo, cite o nome de cada um deles. Já o final do livro pode conter os créditos dos alunos que deram as vozes para os personagens e daqueles que trabalharam na produção. 

11. Escolha a ambientação sonora

A turma pode usar no projeto músicas que não tenham direitos autorais ou sonoplastia, que são sons de ambientes como chuva, mar, grilos, entre outros. “Separe com os alunos a ambientação sonora desejada para incluí-la na edição”, orienta Medeiros.

12. Onde editar? 

Preuss indica o uso dos softwares como Audacity e o Reaper, que possuem plug-ins de equalização e compreensão de áudio. Ao final, o professor pode ouvir todos para fazer ajustes de continuidade, como deixá-los no mesmo volume. “Isso torna o audiolivro mais agradável ao ouvinte”, diz a produtora.

13. Exportar o arquivo

O arquivo é normalmente exportado em formato mp3. “Uma qualidade excelente é 320 kbps, mas 128kbps é aceitável e, por ser menor, cabe em pendrives e na internet com maior facilidade”, ensina a produto. 

14. Disponibilizando no YouTube

É possível disponibilizar o arquivo da turma no YouTube, onde muitas pessoas buscam audiolivros. Nesse caso, há duas alternativas: a primeira é converter o áudio em formato mp3 ou wav para mp4 usando um conversor de arquivo, como o VLC Media Player. “Ele cria um vídeo de tela preta com o áudio rolando”, explica Preuss. 

A segunda é, ao invés de converter, colocar o arquivo de áudio diretamente em um programa simples de edição de vídeo, junto a foto da capa da obra ou mesmo um texto passando na tela. “Os programas para editar vídeo costumam oferecer uma opção de ‘exportar para YouTube’”, finaliza a produtora. 

Veja mais:

10 dicas para usar a produção de podcasts como recurso educativo

Escola usa radionovela para estimular a leitura

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