A filosofia ficou de fora do currículo da educação básica durante 37 anos, de 1971 a 2008. A exclusão se deu por decisão do regime militar, que substituiu as disciplinas de filosofia e sociologia pela de educação moral e cívica. De volta à grade do ensino médio, a disciplina passou a enfrentar novos desafios. “O primeiro é o de conduzir o aluno aos textos filosóficos. Isso tem que ser trabalhado de forma rápida por um professor, que geralmente tem uma aula por semana. A leitura necessitaria de mais tempo para ser melhor aproveitada”, assinala o filósofo e professor Ricardo Alves Barreira Lourenço. “O segundo é superar a ideia, tão pobre, de que a filosofia é uma matéria menor frente às matérias ‘de verdade’”, complementa.

Veja também:
Planos de aula de filosofia
Introdução à filosofia
Juventude e seu valor social

A filosofia, na prática, tornou-se um espaço privilegiado no qual os jovens podem exercitar o pensamento. “Os alunos devem passar por um processo de colocar em teste suas convicções, de argumentar e dar razões de forma eficiente, forte e consciente, e isso pode ser feito de formas interessantes”, defende Lourenço.

Interesse crescente
Segundo o filósofo e professor da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Filipe Ceppas, o nível de envolvimento dos alunos com a disciplina é alto. “Quase nunca vejo uma turma de ensino médio ficar indiferente aos paradoxos de Zenão, à caverna de Platão, à tese do imperativo categórico ou aos aforismas de Oswald de Andrade”, relata.
Os professores, contudo, esforçam-se para deixar as aulas ainda mais interessantes. “No âmbito da filosofia, toda ação pedagógica que tenha algum humor, uma dose de engenhosidade e algum vínculo com questões mais imediatamente conectadas à vida dos estudantes desperta interesse”, garante.
Para Lourenço, filmes, músicas e notícias podem ser objetos do olhar filosófico em sala de aula. Os alunos também podem ser convidados a realizar ensaios filosóficos sobre questões de difícil complexidade. “Sempre trabalho com questões como ‘toda a beleza é subjetiva?’ Ou ‘a moral é sempre relativa?’. Os alunos buscam referências, pesquisam autores para tentar dar força aos seus próprios argumentos”, descreve.
Outra opção de trabalho são os debates, nos quais a classe é dividida em ‘a favor’ e ‘contra’. O professor, por sua vez, deve conhecer os argumentos que foram desenvolvidos por filósofos. “Caso contrário, a aula se transforma em um mero bate papo de ‘eu acho isso ou aquilo’ que contribui pouco”, lembra Lourenço.
Herança da ditadura
Um levantamento do Todos Pela Educação, de 2014, mostrou que no ensino médio, a filosofia é a segunda disciplina com mais professores sem licenciatura na área (78,8%). Para Lourenço, uma das razões para essa porcentagem tão alta foi justamente a exclusão da disciplina do ensino básico durante quase quatro décadas.
“Sem mercado de trabalho a licenciatura se tornou artigo desnecessário”, explica. “Veja que um professor de filosofia acaba tendo uma aula por semana, somente no ensino médio. Um professor de matemática tem ao menos quatro vezes mais e desde o início do fundamental II. Assim, a profissão não apresenta tantos atrativos comparativamente”, acrescenta. A situação, contudo, pode mudar com o passar do tempo. “O Enem cada vez mais insere nas suas provas questões de filosofia. Isso pode ser um sinal”, opina.

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