É no período de zero aos três anos que a criança descobre que tem consciência e passa a utilizá-la para explorar e apreender a realidade. “Nessa fase, as crianças precisam interagir no mundo e com o mundo. Portanto, é fundamental que se possibilite a exploração lúdica de objetos, contos de fadas, música, poesia, elementos que as façam fantasiar e imaginar”, afirma a pedagoga e professora da Universidade Estadual da Paraíba (Uepb), Lenilda Cordeiro de Macêdo.

Do ponto de vista legal, desde a publicação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, em 1996, as creches deixaram de estar vinculadas ao bem-estar social para fazerem parte do sistema educacional. Entretanto, as mudanças legais não significaram mudanças na prática. “Muitos estudos têm apontado a prevalência de ações de cuidado sem a devida mediação pedagógica. Em muitos municípios brasileiros, não se destinam professoras para atuar com as crianças de zero a três anos”, lembra a também professora da Ufpb, Ana Luisa Nogueira de Amorim.

Nos últimos anos, tem ganhado força a ideia de um currículo para essa faixa etária, que organize os conhecimentos e as experiências a serem vivenciadas. “Mas entendo que não existe um currículo único. Cada instituição de educação infantil precisa organizar sua proposta curricular de acordo com os interesses, especificidades e necessidades da comunidade escolar”, defende Ana Luisa.
Na educação infantil, o currículo não deve se resumir a conteúdos a serem ensinados em aulas, mas em conhecimentos a serem vivenciados com as crianças através de experiências de aprendizagem. “Porque na creche se educa muito mais pelo que se faz do que pelo que se fala”, explica a professora.
O currículo nessa fase também não deve ser preparatório para as etapas seguintes nem significar uma antecipação da escolarização. “Ele deve ter como eixos a interação entre as crianças e o brincar”, diferencia Lenilda. Além disso, a rotina da creche deve ser flexível e com atividades múltiplas. “Enquanto uma criança dorme outras podem estar acordadas com o professor, ouvindo histórias ou brincando”, pontua a pedagoga Denise Nalini.
Importância das artes
Para Denise, o currículo de zero a três anos deve contemplar uma concepção de que o cuidar e o educar não estão cindidos e que a criança aprende com seus sentimentos e emoções. “Somente com essa explicitação podemos avançar para práticas mais interessantes para as crianças, que ultrapassem atividades que não as auxiliam a compreender o mundo em que vivem, como colar algodão nas orelhas do coelho. A fantasia contempla dimensões muito maiores do que encher pastas de atividades”, assinala.
As artes podem inspirar os professores na busca do que trazer para as crianças. “Por exemplo, ao perceber que as crianças estavam interessadas na luz e na sombra, uma professora foi em busca de artistas que inspirassem ações. Assim, as crianças puderam brincar com as sombras no sol, usar o retroprojetor para fazer sombras com o próprio corpo e com objetos, usar lanternas e espelhos”, conta. “Contudo, é preciso pensar em artes no plural, pois temos dança, performances, música e dança também”, acrescenta.

Veja também:
Como as crianças estão sendo educadas quando o assunto é alimentação?
Livro digital infantil traz linguagens dos tempos de hoje 
Livro infantil resgata culinária dos contos de fada

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