Diversos grupos sociais fazem uso desse tipo de expressão para se comunicar. “Ela faz parte da fala e varia conforme o contexto de seu falante – o que envolve muita coisa, principalmente o meio social”, esclarece o mestrando em estudos linguísticos pela Universidade Federal do Sergipe (UFS), Daniel da Rocha Silva.

Contudo, no caso dos jovens, o fenômeno das gírias é ainda mais intenso e significativo. “Representa diferenciação do mundo adulto e identificação com o universo jovem. Também é uma forma de ele proteger seu universo, uma vez que apenas o seu grupo entenderá o que é dito”, descreve o doutor em linguística aplicada pela Universidade Estadual do Ceará (UECE), Francisco Iací do Nascimento. “Ela também indica a criatividade dos jovens em relação à linguagem e dá pistas significativas para entender seus anseios, suas angústias e suas visões de mundo”, acrescenta.

Não é novidade, porém, que as gírias são estigmatizadas na sociedade em geral, incluindo o ambiente escolar. “Ensinamos o nível culto formal da língua, e a gíria está atrelada a usos informais. Contudo, ela pode ser trabalhada nas aulas de português para exemplificar a variação linguística do idioma e garantir um ensino mais contextualizado. O estudante compreende que a língua é um organismo vivo e está intrinsecamente ligada ao nosso cotidiano”, defende Nascimento.

Entre os benefícios, estão: aproximar-se do universo do jovem, tornar as aulas mais significativas e despertar o interesse para os conteúdos da disciplina. “Pode-se discutir a realidade dos alunos sem menosprezar e desqualificar seus modos de dizer e de se relacionar com o mundo”, lista.

Adequação da fala

Um dos benefícios de trazer a gíria para a sala de aula é fazer o estudante compreender os conceitos de linguagem formal e informal. “Faz-se esse jogo de adaptação linguística conforme o contexto de fala. Ou seja: o local de onde estou falando espera que tipo de fala, de linguagem?”, descreve Silva.

“A língua varia, e o aluno precisa adequar seu uso a cada situação comunicativa, seja ela forma ou informal. Não só em relação ao vocabulário, mas também em relação ao gênero textual”, aponta Nascimento. “Por exemplo: ao enviar um e-mail para uma empresa, usa-se não apenas o vocabulário formal, mas também a estrutura composicional de um e-mail, já que é uma situação comunicativa que exige formalidade”, complementa. “A meu ver, essa é uma das missões do ensino da língua na escola”, defende.

Para a Silva, o uso das gírias também é uma oportunidade para professores e alunos repensarem o preconceito linguístico. “Sobre linguagem formal e informal, uma não é melhor que a outra. Em ambas, há uma comunicação entre os seus falantes. É esperado saber diferenciar seus contextos de uso e adequá-las a cada um deles”, analisa. “Além disso, quem não teve a oportunidade de estudar será, infelizmente, marcado pela sua fala, e isso não é legal, pois recai em um preconceito linguístico. Ninguém pode culpar as pessoas pela sua forma de falar”, alerta.

Verbetes e teatro

Nascimento recomenda, como atividade, formular um dicionário de gírias com os alunos. O professor pode trabalhar vocabulário, buscando sinônimos para as expressões que os alunos utilizam, além de morfologia, função e estrutura das palavras. “Para a composição do dicionário, a primeira coisa a se fazer é conhecer a estrutura de um verbete e o funcionamento da linguagem dicionarística. Isso dá a oportunidade de o aluno entender como usar esse instrumento em seus estudos”, orienta.

Depois disso, a sugestão é que se realize uma pesquisa sobre as gírias e seus usos. Nessa etapa, o professor pode organizar equipes e pedir que cada uma delas pesquise sobre os termos usados por um grupo específico – por exemplo, de academia, das redes sociais, de LGBTI+, do futebol, entre outros. “Com os dados da pesquisa, o professor junto com os alunos pode dar início a escrita dos verbetes”, orienta.

O teatro e a interpretação também são recursos para reflexão sobre contextos linguísticos. “Essa prática ajuda o aluno a utilizar a linguagem adequada para cada situação e a entender que não podemos diminuir ninguém por conta da linguagem”, diz Silva.

Além disso, pode-se trabalhar com pesquisa, de modo que os jovens busquem a relação entre as gírias e as palavras originais. “Por exemplo: qual a relação da fruta abacaxi com algo que é ruim de se lidar?”, exemplifica Silva. Por último, é possível trabalhar conteúdos gramaticais. ’Estou com larica’, quer dizer ‘estou com fome’. Nesse enunciado, é possível estudar desde sujeito oculto até objeto direto”, complementa.

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