Os conceitos de Paulo Freire podem ajudar o professor a selecionar os conteúdos curriculares para a educação básica. Segundo o professor da faculdade de educação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Juarez Melgaço Valadares, o olhar freiriano valoriza a cultura do aluno e da comunidade no processo de aprendizagem.

“Uma crítica comum que ouvimos dos alunos é que os conteúdos que a escola ensina não se aplicam na vida. Alguns dos conceitos freirianos, quando levados para a escola, geram mobilização sobre como envolver a comunidade e, assim, promover uma aprendizagem significativa”, pondera o docente, que é um dos organizadores do II Congresso Internacional Paulo Freire: o Legado Global. O evento acontece em Belo Horizonte de 28 de abril a 1º de maio de 2018.

A seguir, confira uma entrevista com Valadares sobre os desafios em traçar um diálogo entre a cultura escolar e a cultura da comunidade local.

Juarez Valadares acredita que pensamentos de Paulo Freire ajuda a entender a importância da cultura do estudante para a aprendizagem (crédito: divulgação)

Como o pensamento de Paulo Freire pode dialogar com o currículo escolar?

Juarez Melgaço Valadares: Uma crítica comum que ouvimos dos alunos no dia a dia é que os temas que a escola ensina não se aplicam na vida. Ou seja, diversos conteúdos curriculares não dialogam com a realidade local. O pensamento do Paulo Freire contribui nesse sentido. Ajuda a entender o valor da cultura do aluno e da comunidade para o ensino e para a aprendizagem. Alguns dos seus conceitos, quando levados para a escola, geram mobilização sobre como envolver os moradores da região e, assim, promover uma aprendizagem significativa.

Como o professor pode fazer para se apropriar de situações significativas no processo de ensino?

Valadares: Penso que não existe um único método, propriamente, que resolva tudo. Mas o professor pode repensar sua postura frente à comunidade. Assim, diria que o primeiro passo é olhar e problematizar a região da escola. Quais problemas ela tem? Por exemplo, há bairros onde há uma enorme quantidade de lixo, que de tão naturalizado ninguém percebe mais que estão ali ou se preocupa com aquilo. Dessa forma, é importante levar os alunos para conhecer os problemas da localidade. Em Belo Horizonte, por exemplo, vemos praças coladas a escolas que não são exploradas como um lugar de aprendizagem.

Quando o professor identifica uma situação local que pode ser explorada, o que deve ser feito na sequência?

Valadares: O segundo passo é como organizar o conhecimento curricular a partir daquele problema identificado, daquela situação significativa. Como construir argumentos que, a partir do currículo, dêem conta de explicar tal situação. Em linhas gerais, a maioria dos bairros apresentam problemas de saneamento básico, lixo e saúde, que são temas que podem ser contemplados por qualquer texto de parâmetros curriculares.

Quais os desafios em traçar um diálogo entre escola e conhecimentos da comunidade?

Valadares: O primeiro deles é a jornada de trabalho sobrecarregada do professor, que, por vezes, atua em diversas escolas e não tem tempo para conhecer suas comunidades. O outro é que essa abordagem depende de uma organização escolar, ou seja, nem sempre dá para o professor ter iniciativa individual para promover esse tipo de ação. Por fim, há um dilema entre conteúdo e tempo. Na escola, o conceito de velocidade mudou. Virou passar mais conteúdo, em menos tempo.

Como mudar esse pensamento?

Valadares: Há outro dilema. As situações significativas favorecem o aluno em termos de qualidade de aprendizagem, não de quantidade. Para aprofundar determinados conteúdos curriculares a partir da realidade local, será preciso priorizá-los em detrimento de outros. Mas vale destacar que o mesmo acontece também no modelo tradicional. Por exemplo, nem tudo o que é proposto no livro didático consegue ser dado pelo professor. E quando é dado na íntegra, será que o aluno realmente conseguiu aprender todo aquele montante de informação? Quanto houve de compreensão real? O problema, então, é que a escola prioriza o conteúdo no lugar da aprendizagem. Penso, por exemplo, que o pensamento do Paulo Freire não nega haver uma Base Comum Curricular Nacional (BNCC), contudo, relembra que os agentes reais do processo escolar serão sempre o professor que ensina e o aluno que aprende, não o conteúdo.

Veja mais:
Pensadores na Educação: Paulo Freire e a educação para mudar o mundo

 

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