Tem circulado pelo Facebook uma lista de perguntas como nome, idade, gostos e preferências, medos e desejos dos filhos pequenos. Os pais respondem a 20 itens e os partilham em seus próprios perfis. Parece que a ideia é fortalecer os laços entre pais e filhos propondo aos adultos um questionário que mede o conhecimento e demonstra interesse pela vida das crianças. A prática é tratada como uma brincadeira, algo divertido, amoroso e ingênuo e virou moda na internet . Mas por trás dessas despretensiosas respostas encontramos um universo cultural complexo e até perigoso.

As redes sociais online têm revolucionado a nossa sociabilidade e os processos de produção de informações e conhecimento. Elas nos distraem, nos divertem, promovem o debate e o diálogo, mas também são instrumentos de divulgação de práticas de ódio, plataformas do ciberbullying e de uma ampla gama de crimes e conflitos. A indefinição dos limites entre a vida privada e a pública se acentuou; aos poucos, na passagem do Orkut para o Facebook, o Instagram e o Snapchat fomos caminhando no sentido da ampliação da exposição das nossas vidas. Muitos, especialmente os mais jovens (mas não apenas eles), sentem extremo prazer e necessidade de publicar os detalhes da sua vida cotidiana: festas, refeições, viagens, amores, falecimento de pessoas queridas, enfermidades, arrumação da casa, travessuras de animais domésticos e crianças. 
 
Também fornecemos gratuitamente uma série de informações pessoais que serão utilizadas pelas redes sociais online de forma pouco esclarecida; o que sabemos é que nossas práticas de consumo, nossos gostos e as buscas que fazemos na internet compõem o perfil de consumidor que será vendido a preço de ouro a outras empresas que tentarão nos abordar de várias maneiras. Nossas vidas de internautas estão mapeadas; todas as informações são arquivadas e cruzadas e são úteis de alguma maneira, agora ou no futuro. Esses dados pessoais são também utilizados por governos e sistemas de inteligência que monitoram nossas conversas online, as compras com cartões de crédito e os conteúdos que produzimos ou valorizamos.
 
Definitivamente, aquela velha ideia de privacidade já não existe mais, seja porque oferecemos informações voluntariamente, seja porque somos espionados em nome da segurança nacional. Estamos, enfim, mais próximos do controle e vigilância imaginados por George Orwell no livro “1984”, com a nossas ações e ideias monitoradas.
 
Soma-se a isso nosso despreparo para lidarmos com essa situação. A pesquisa Kids Online Brasil 2014 – realizada com duas mil crianças e adolescentes, entre nove e 17 anos – apresenta dados estarrecedores sobre os riscos a que estão submetidas as crianças e os adolescentes. Mais da metade dos participantes mantêm seus perfis nas redes sociais no modo “público”; a maioria não sabe como bloquear as mensagens de outras pessoas nem como mudar as configurações de privacidade em seus perfis. Cerca de um terço deles afirma ter tido contato com mensagens de ódio e praticamente a metade dos pais não acompanha as atividades dos filhos na internet e também não sabe configurar a privacidade nas redes sociais online. Com isso, as vidas dessas crianças e família ficam expostas ao ambiente quase sem lei da internet.
 
Mas o aspecto ainda mais preocupante é o desrespeito à privacidade das crianças. Apesar de pequenos e muitas vezes incapazes de distinguir entre o bem o mal, o certo e o errado, precisam ser tratados como sujeitos. Cada um pode expor a si mesmo como desejar, mas a vida do outro deve ser preservada pelo menos até que ele tenha discernimento para saber como pretende utilizar as redes sociais digitais. As crianças e os adolescentes precisam ser respeitados na condição de sujeitos com suas individualidades e direitos.
 
É necessário desenvolvermos o uso crítico da internet para que possamos tirar proveito da sua potencialidade para o futuro da humanidade. Precisamos conversar com nossas crianças e adolescentes sobre esses usos, sobre a busca insana por popularidade que atravessa de forma dramática suas vidas, sobre os limites entre a vida pública e a privada, o respeito para consigo e os outros e, principalmente, sobre a importância dos relacionamentos presenciais, da conversa e dos afetos privados e sinceros. 
 
A educação digital ainda engatinha, mas cada um tem o dever de refletir sobre a ética que estamos construindo com e na internet e sobre o mundo que vamos deixar para os nossos filhos.
 
*Rita Alves é doutora em Antropologia pela PUC-SP, professora do Programa de Ciências Sociais na mesma instituição e integra a rede internacional de pesquisadores do GT "Juventud y Prácticas Políticas en América Latina", do Consejo Latinoamericano de Ciencias Sociales (Clacso)
 
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