Minha filha de quatro anos tem um celular. Este anúncio pode gerar profundas discussões acerca de crianças com telas, ou mais grave ainda: por que sua filha tem um celular? Parece um absurdo assim solto, por isso vou discorrer sobre esse assunto.

Ela nasceu em 2016. Utilizo as concepções sobre gerações para afirmar que, para mim, ela é uma nativa digital. Isto porque quando ela chegou a este mundo as interações tecnológicas já eram muito intensas, dentro e fora de casa. Ela presencia diariamente os pais trabalhando em computadores (aqui em casa temos cinco!), mexendo no celular (temos quatro!) e no tablet vez ou outra.

Na escola que estuda, o iPad faz parte da rotina das aulas (com planejamento e supervisão, afinal, sou a TE da escola dela). E se vai usar tecnologia, que seja em casa, com minha supervisão e diante de meus cuidados. Sempre pensei desta forma. Não proibir, mas ensinar.

Aos três anos ela já pegava o meu celular e aprendeu a interagir buscando seus vídeos favoritos. Pois, claro, o que ela curte mesmo são os vídeos do YouTube. Começou no YouTube Kids, hoje acessa os dois. Que absurdo, mais uma vez!

Vou esclarecer…

O celular era meu, para uso pessoal e profissional. Era complicado dividir com ela. Eu preciso dele para trabalhar, e ali estão os meus aplicativos, que não são para crianças. Então, diante da minha necessidade em ter um aparelho mais robusto, na troca de dispositivo ela “ganhou” o antigo.

Mas como você faz para controlar o acesso?

O celular da criança possui somente os apps instalados por mim. Não tem chip. O uso que ela faz dele é em casa, quando estou presente e acompanhando. Somado a isso, criei contas para supervisionar. Com isso, ela não consegue instalar nada, mesmo que clique por acidente em algum anúncio que vez ou outra aparece entre os vídeos, e também não tem acesso à loja de aplicativos e nem ao navegador de internet.

Foi ela quem escolheu o tema e a capinha personalizada, pois aqui em casa somos lúdicos. Adoro bichinhos, frufrus, capinhas divertidas, temas que caem neve e personalizam os ícones dos apps deixando tudo bonitinho. A experiência precisa ser agradável e divertida!

Criei para ela uma conta no Youtube e assinei os canais que ela assiste, pois permite maior controle sobres as indicações que o próprio YouTube oferece com base nas preferências. E sim, conheço todos eles! Assisto aos vídeos sozinha e junto com ela, sei os nomes das “celebridades” e quando ouço algo diferente já questiono: “o que você está assistindo?”. Não temos segredo e nem proibições, por isso a resposta dela é verdadeira: “este canal é novo, você ainda não conhece, vem assistir comigo”. E ela muda o vídeo quando eu não aprovo (com briga, às vezes. Normal).

Não precisei ensinar, ela já sabe se inscrever no canal, ativar o sininho das notificações e deixar o like. Discurso pronto que leva a todos a agirem assim. Por isso, você que está lendo e encontra-se nessa posição, oriente seus filhos, porque todos no YouTube vão levar a criança a fazer exatamente isso. Eles precisam de seguidores para rentabilizar o canal, é fato.

Nesse mundo, fiquei espantada com a imensa quantidade de vídeos voltados para conquistar o público infantil, e com a enorme quantidade de youtubers crianças, com vídeos que são mega produções. Feitos pelos pais, é claro. Com roteiro, cenas bem construídas, mostrando as casas gigantes com piscina e os milhares de brinquedos que as crianças têm (ganham para fazer publicidade, estou convencida disso, e aqui temos mais um ponto de atenção aos pais), até clipe musical (muitos, muitos, muitos), mas este será o tema do próximo artigo.

Pais, fiquem atentos à experiência digital de seus filhos e cuidado com o rastro digital deles. Não proíba, mas não abandone. Eles têm habilidades sim: sabem ligar e encontrar conteúdos mesmo sem saber escrever. Existe o “OK Google”, ou a Siri, e pasmem, eles aprendem rapidinho como usar.

Outro dia ela me perguntou: “como eu falo com o Google aqui no seu celular?” Falar com a Google? Hein? Como? Quanta ingenuidade a minha, nunca pensei nisso, mas a avó ensinou para ela, era mais fácil que digitar. Eis que ela pegou e falou: “vídeo de slime”. Kabum: choveu de sugestões.

Não negue que o mundo é digital. Não negue que a criança é digital. E não negue ajuda, porque as crianças ainda não sabem o que fazer nesse mundo, afinal, são crianças, não têm experiência como você.

Mas não é só isso…

Confesso que é trabalhoso. Precisa controlar o tempo de uso, a luminosidade da tela, a distância dos olhos, a posição para não prejudicar a coluna, cuidar com a tendinite por fazer tudo com o dedo indicador. Recomendo investir em um suporte que possa deixar o celular apoiado na altura dos olhos sem a criança precisar segurar com as mãos. Quanto ao lugar, aqui em casa ela assiste deitada no sofá ou na cama com almofadas altas apoiando o pescoço, pois é a melhor posição para adequar tudo isso.

Contudo, não é lindo assim o tempo todo, viu. Ela tira o suporte e quando percebo está toda curvada segurando o aparelho. Em outro momento, está deitada no chão com o celular “grudado” na cara. Pede para eu comprar brinquedos novos o dia todo e vou eu explicar pela milésima vez que “a banda não toca assim aqui em casa”.

Tem dias que quando me dou conta ela passou a manhã inteira no celular (tenho também um bebê para cuidar em meio a isso tudo, que já é super curioso com as telas que pai, mãe e irmã seguram e que se mexem). Em tempo de pandemia e sem escola, a tendência é que as crianças passem muito mais tempo que o apropriado diante de telas. Se você tem como evitar e consegue, evite! Se não, não arranque os cabelos, faz parte do processo.

Meus caros, não é fácil educar os filhos, nem mesmo educar para o digital. Mas, está incluído no pacote de responsabilidades: educar, ensinar, conduzir e proteger, dando oportunidades de aprendizado e de crescimento. Se somos digitais, vai ser difícil ser diferente com nossos filhos.

O Instituto Claro abre espaço para seus colunistas expressarem livremente suas opiniões. O conteúdo de seus artigos não necessariamente reflete o posicionamento do Instituto Claro sobre os assuntos tratados.

Autor Talita Moretto

Talita Moretto é especializada no uso de mídia e tecnologias aplicadas à educação. Atua na área desde 2008, dedicando-se, especialmente, à formação de professores. Idealizadora e diretora do Sala Aberta (salaaberta.com.br), é também coordenadora de Tecnologia Educacional no Colégio Sepam, em Ponta Grossa (PR). Contato: talitamoretto@salaaberta.com

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