Dia 19 de março de 2020 meu bebê, o caçula, completou dois meses de vida. Estávamos em casa, apenas eu e ele, há dois meses. No dia 20 de março todas as escolas da minha cidade fecharam. Ok! Seriam 15 dias, já abre. Não foi bem assim… De repente, estava eu em casa com o bebê e uma menina ativa, de quase quatro anos, que frequentava a escola em período integral. Uso meu exemplo para falar sobre esse segmento, a educação infantil, que foi bem prejudicado com as portas das escolas fechadas e a imposição de aulas remotas.

Para os estudantes mais velhos, houve um período de tensão. Aos poucos, alguns adaptaram-se às atividades online, outros continuam desamparados por não conseguirem “levar a escola para casa”. A falta da escola, a adaptação em organizar seus próprios estudos pesam. Imagina para as crianças!

Como eu, muitas famílias com crianças pequenas se viram no meio de um caos. Como conciliar casa, home office, filhos e ser “professor”? A educação infantil é um segmento muito importante, é onde começa a formação da criança: escolar, social, humana. As atividades, as interações, nem sempre conseguem ser conduzidas pelos pais, afinal, não é possível colocá-las na frente de uma tela e esperar que façam as atividades propostas. O homeschooling passou a vir à tona, bem ou mal, é isso que acontece com aulas em casa para crianças.

Também sou a gerente de tecnologia educacional do colégio em que minha filha estuda. E eu, em meio a tecnologias, vi “a casa cair”. Não conseguia atender à minha filha e nem a todos os professores que, mais do que nunca, precisavam de mim. Confesso que eu também quase desisti com a pressão. Mas…

Passei a conciliar um bebê, a filha maior, o isolamento de todos nós, a louça pra lavar, a cama pra arrumar, o trabalho, que precisou (a trancos e barrancos) ser retomado, e ser professora de criança. É claro que não deu certo! Sim, minha filha passou um mês inteiro com o celular na mão, irritada, frustrada dentro de um apartamento que não podia correr, ouvindo bebê chorar e a mãe dizer: “espera um pouquinho, já vou”. Quase viramos “inimigas”. Foi tenso!

A história viraria um livro se eu continuasse, mas, em resumo, após inúmeras tentativas de explicar para a professora da minha filha, aquela mesma professora que precisa de meu auxílio para fazer suas lives com a turma, que precisou ser “youtuber” da noite para o dia, que eu não iria fazer as atividades, que eu não iria participar das lives mesmo ela dando várias opções de horários, que eu seria apenas mãe – trabalho com educação há mais de 10 anos, sou estudante de pedagogia, mas não tenho aptidão para ser professora de criança –, ela aceitou e apoiou, ela me entendeu. Este momento precisa da empatia, da escola e da família.

Passaram-se 15, 20, 30 dias, 2 meses, 4 meses, 5 meses desde então. O fato é que, aos poucos, os responsáveis voltaram aos seus trabalhos, seja home office ou presencial, com as medidas de segurança, e em outro ponto, pais não têm as mesmas habilidades dos professores, menos ainda dos professores da educação infantil. Crianças precisam da técnica certa para aprender a escrever a letra, para identificar as cores, para montar, pintar e construir as propostas inerentes à educação infantil. Como fazer?

Temos pais sem habilidades e tensos, crianças proibidas de ir e vir, de se comunicar, de interagir, de ser criança; frustradas, nervosas, impacientes por estarem em casa. Mesmo diante de esforços de pais que tentam, elas não querem a “escola de casa”, como disse minha filha para mim outro dia.

E eu… Voltei ao trabalho presencial, criei uma rotina que mescla aulas mais livres e brincadeiras (muitas brincadeiras ao ar livre, que geram aprendizados significativos), com alguns momentos (bem poucos mesmo) de sentar e assistir aos vídeos das “profes” e fazer uma ou outra atividade que a “mamãe” consegue. E o bebê? A avó materna mudou para minha cidade para ajudar a cuidar dele, que está com sete meses agora e já se acostumou que adulto usa máscara!

Acompanho o esforço árduo de gestão, coordenação e equipe docente em encontrar maneiras de alcançar a criança, que não tem autonomia para conduzir seus estudos, e os pais, que não são professores. Vídeos gravados, músicas, apostilas [tentando ser] adaptadas à rotina de casa, envio de materiais para produção, encontros ao vivo. Existe um esforço conjunto em manter as crianças próximas da escola e dos colegas. Mas, verdade seja dita, é muito difícil, para os dois lados.

Do caos do dia 20 de março à aceitação, por cinco meses já passados no meio disso tudo, houve adaptação de alguns, mas outros buscam alternativas para continuar entretendo as crianças, não necessariamente nas aulas da escola.

E o que falo sobre isso tudo? Não se desesperem. Acho que as professoras querem me esganar todas as vezes que eu digo isso para elas quando uma live não dá certo, quando a internet cai, quando as crianças não participam, quando é difícil se adaptar à uma nova ferramenta, quando tudo parece que está dando errado. Calma, digo eu, calma. E faço um apelo a todos os pais: calma. Não foi escolha da escola esse novo formato, mas já que assim tem que ser, que façamos deste um momento de olhar para o mundo e entender que estratégias precisam ser alteradas, que nossas crianças têm habilidades que precisam ser desenvolvidas e acompanhadas. Olhem com carinho para o esforço das escolas, pois ninguém teve tempo de se preparar para isso.

Não dá para participar da live da escola, não participa. Não dá para fazer todas as atividades, não faz. Dá para fazer alguma coisa, faz. Escute a criança e veja os sinais dela. Promova momentos de aprendizado, como conseguir. Busque apoio da escola, quando precisar. Calma, a escola vai voltar, e o arco-íris aparecerá no fim disso tudo. Sejamos fortes e unidos, pois as crianças são nossas!

O Instituto Claro abre espaço para seus colunistas expressarem livremente suas opiniões. O conteúdo de seus artigos não necessariamente reflete o posicionamento do Instituto Claro sobre os assuntos tratados.

Autor Talita Moretto

Talita Moretto é especializada no uso de mídia e tecnologias aplicadas à educação. Atua na área desde 2008, dedicando-se, especialmente, à formação de professores. Idealizadora e diretora do Sala Aberta (salaaberta.com.br), é também coordenadora de Tecnologia Educacional no Colégio Sepam, em Ponta Grossa (PR). Contato: talitamoretto@salaaberta.com.br.

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