Um catálogo digital de todas as canções já produzidas no Brasil, se ainda não existe, é algo que faz falta. Como a música popular, na sua extraordinária variedade, tem sido um repositório de preocupações, sentimentos e desejos dos brasileiros, a consulta a esse material, com bons mecanismos de busca, poderia ser instigante, capaz de fomentar reflexões. Ao lado do tratamento privilegiado de temas amorosos, diversas questões são abordadas pelos compositores: o trabalho, a política, o esporte e, também, a educação.
Sobre essa última temática, há dois acontecimentos curiosos que a relacionam a uma de nossas mais significativas manifestações culturais populares, o Carnaval. Isso ocorre, num fato relativamente conhecido, a respeito da própria nomenclatura adotada, em 1928, pelos sambistas que criaram a primeira “Escola de Samba”. Esse termo decorre de uma espécie de autoelogio, pois, como narra o compositor Ismael Silva (nesse vídeo
aqui), por se reunirem ao lado de uma Escola Normal, no Rio de Janeiro, os sambistas reivindicaram ser também “professores”, professores de samba. Pouco importa que Noel Rosa tenha escrito, na famosa música Feitio de Oração (1932), que “ninguém aprende samba no colégio”, o termo Escola de Samba pegou.
O segundo fato inusitado, mas menos conhecido, é que aquele que é considerado o primeiro “samba enredo” carnavalesco teve tema escolar, na composição Teste ao Samba, de Paulo da Portela, de 1939. Como descreve o site da Escola de Samba Portela (
aqui):
pela primeira vez, uma escola de samba trazia fantasias totalmente enquadradas no enredo. Paulo representava um professor, e o restante da escola, vestido de alunos, chamava atenção não só pela uniformidade, mas por ter usado na confecção das fantasias materiais como cetim e lamê, que devido ao alto preço impediram alguns portelenses de desfilar esse ano.
Em frente à comissão julgadora, Paulo distribuía diploma a cada um de seus “alunos”. O público foi ao delírio com a novidade. […]
A alegoria principal era um gigantesco quadro-negro com as inscrições: “Prestigiar e amparar o samba, música típica e original do Brasil, e incentivar o povo brasileiro” […].
Voltando à relação mais geral entre a música popular brasileira e a educação, na falta do catálogo mencionado ou de uma pesquisa mais sistemática, para entender ou pelo menos conhecer um pouco mais sobre a relação entre nossa música popular e a educação, o podcast do Instituto Moreira Salles “Que saudade das professorinhas!” (
aqui), divulgado no ano passado, é interessante.
Nesse programa, predominam músicas (como a já citada Teste ao Samba, em interpretação da Velha Guarda da Portela) com um tocante tom de nostalgia pelos tempos escolares, bem como o elogio das (são principalmente mulheres) professoras, capazes de seduzir e inspirar admiração. Isso ocorre, tanto na seresta Professora (1949), de Jorge Faraj e Benedito Lacerda, que fala na “operária divina que no subúrbio ensina”, quanto na canção Neide Cantolina (1991), na qual Caetano Veloso homenageia sua antiga “superelegante” professora de Português.
Nem tudo, porém, é memória e docilidade, na última música do programa, Anjos da Guarda (1995), de Leci Brandão, a sambista e atualmente deputado estadual faz, ao lado de um elogio geral à classe dos professores, “protetores… das crianças do meu país”, a observação de que gostaria de poder ter “um discurso mais feliz”. Afinal, como ela explicou em várias ocasiões (como nessa reportagem,
aqui), a composição surgiu após ter visto uma reportagem em que um professor que se manifestava por melhores salários era agredido por um policial.
Talvez predominem hoje músicas abordando a educação com esse tom de protesto. O que, devido à realidade conhecidas por todos, não seria surpreendente.
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