Aprender é pertencer ao mundo. Não se pode falar em educação sem considerar a importância da integração do estudante ao mundo que o cerca. A escola, em suas fundamentais metas de humanização e socialização do indivíduo, não pode se abster de participar do cotidiano do estudante.
Os atentados ocorridos em 11 de setembro de 2001 serão, neste ano, muito relembrados pelos mais diversos meios de comunicação pela única razão de terem ocorrido há uma década. O estudante de todas as classes sociais possivelmente se deparará com o tema em programas televisivos, notícias em jornais e revistas, painéis de debate, páginas na internet e até mesmo em discussões nas redes sociais. A escola não pode deixar de se fazer presente, explorando o tema, pois estaria deixando de lado uma grande oportunidade de influenciar positivamente a vida do educando.
Outrossim, a peculiaridade de haver diversas versões acerca dos fatos e suas interpretações permite trabalhar com o aluno o conceito de história e conhecimento como produto humano, decorrente de conjuntos interpretativos. O estudante, que comumente se sente seguro com fatos comprovados e resumos dos livros didáticos, poderá perceber que o fato histórico é uma constante construção. O que é certo e o que é errado na ‘história’ do 11 de setembro? O que deverá constar nos livros de história e de geografia? Será que há um lado certo e outro errado? Seria possível projetar com os alunos como um jovem deverá aprender, daqui a 50 anos, os fatos atualmente tão presentes no cotidiano? Explorar opiniões e versões nada mais é do que colocar o estudante no centro do processo de geração de conhecimento.
Este contínuo aprender a interpretar também permite outra importante consideração: a discussão acerca de valores e cidadania. Por conta das complexidades das guerras e dos atos terroristas e de suas diversas interligações ideológicas, culturais, econômicas e religiosas que desfiam a cada análise, o 11 de setembro permite exercitar a construção cultural de identidades, o papel social do cidadão e do Estado em suas competências e limites. Pode-se exemplificar isso por meio da consideração acerca do islamismo e suas peculiaridades culturais e políticas frente às religiões que são predominantes no ocidente (e, principalmente, no Brasil). Contrapor, contextualizar e compreender culturas e crenças em um ambiente escolar fomenta o debate e reduz preconceitos.
Este fluxo de informações pode servir também para o processo de ensino-aprendizagem de diversas habilidades e competências. Na verdade, por se tratar de fato transdisciplinar e que comporta uma multiplicidade enorme de abordagens, pode-se arriscar dizer que quase todas as habilidades e competências propostas para área de ciências humanas podem ser exercitadas. Entre elas, destacam-se as seguintes competências (em negrito) e suas respectivas habilidades (entre parênteses), para as quais formulamos questões temáticas que podem servir para a reflexão do educador:
1. Compreender elementos culturais que constituem identidades (interpretando fontes histórico-geográficas, analisando produções de memórias, associando manifestações culturais, comparando pontos de vista e o patrimônio cultural daí decorrentes). O que seria, por exemplo, entender o papel do Ocidente frente ao Oriente quando se deflagra uma “Guerra ao terror” e instiga a condenação do islamismo? Quais os diversos pontos de vista que podem ser identificados e quais os seus reflexos? Até que ponto construímos nossa própria identidade ao negarmos a identidade alheia?
2. Compreender transformações dos espaços geográficos como produto das relações sócio-econômicas e culturais de poder (interpretando gráficos e mapas, compreendendo relações de poder, analisando o papel dos Estados frente a problemas de ordem econômico-sociais e comparando organizações políticas). As invasões não configuram atos contrários à soberania? Que razões ou reflexos econômicos podem ser compreendidos a partir da destruição de cidades em guerra? Por que o WTC fora alvo dos ataques e o que diferencia Nova York de Cabul ou Bagdá?
3. Compreender a produção e o papel histórico das instituições sociais, políticas e econômicas, associando-as aos diversos grupos, conflitos e movimentos sociais (identificando grupos sociais em seu tempo e espaço, analisando a justiça como instituição social, analisando movimentos sociais que geram disputas por poder, cmparando pontso de vista, avaliando criticamente conflitos). Não seriam as atitudes de terrorismo e de contra-ataque ao terrorismo fundadas também em interesses político-institucionais? Quais as motivações do povo, dos governantes e das lideranças populares em cada parte do cenário internacional? Quais são as raízes históricas, geopolíticas e econômicas dos conflitos?
4. Utilizar os conhecimentos históricos para compreender e valorizar os fundamentos da cidadania e da democracia, favorecendo uma atuação consciente do indívido na sociedade (identificando o papel dos meios de comunicação na vida social, analisando lutas e conquistas sociais e seus reflexos, analisando a ética das sociedades). Não seriam os fatos do 11 de setembro passíveis de uma análise moral? O que aprendemos acerca da importância da diplomacia, da participação política, da democracia e do respeito à opinião alheia quando nos deparamos com tais fatos históricos?
Estas, todavia, são somente algumas idéias para o trabalho do educador. Entendemos que o 11 de setembro importa para a escola pois ele importa para o mundo e a escola deve participar deste grande debate.
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