Uma discussão interdisciplinar permeia a sociologia, a história e o cinema. Ela é guiada a partir da seguinte questão central: um filme ficcional pode ser considerado um documento histórico? Não se trata somente de reconhecer a sua temática ou a imagem tomada de uma externa como fonte iconográfica; trata-se de compreender uma obra cinematográfica como um olhar histórico e capaz de representar ou apontar para a realidade de um tempo. A questão é rica e pode ser amplamente discutida.
Durante as aulas é comum utilizarmos filmes como representações históricas ou sociais. Em termos de aprendizado, é um exercício muito rico. E a escola tem o papel de orientar o repertório dos alunos (como uma curadoria do saber). O próprio filme utilizado traz uma visão acerca do tema, que foi roteirizado, encenado, filmado, editado, cortado e produzido. Será que estamos realmente ensinando algo próximo de uma realidade quando utilizamos tais filmes?
Tome-se, como exemplo, somente a obra de ficção do diretor e roteirista Oliver Stone. Ele filmou a história estadunidense a partir de um olhar político e crítico. Sua análise-biografia sobre os governos de Nixon (Nixon, 1995), George W. Bush (W., 2008) e o assassinato de Kennedy (JFK – A pergunta que não quer calar, 1991) traz um conjunto de informações e um corte histórico tão significativo que é impossível ignorar sua possibilidade de ilustração histórica. Todavia, estamos apresentando filmes biográficos encenados e não documentários. Isso dá uma enorme margem para relativizarmos a sua leitura.
O mesmo ocorre com a vida de Jim Morrison (The Doors, 1991) personagem cuja importância, em termos culturais, transcende a própria trama do filme. Em The Doors, o mito que foi Morrison para a cultura é ainda mais extremado pela delícia que é ver o filme juntamente com o impacto da trilha sonora. Para os que gostam do psicodelismo hipnótico das músicas é um verdadeiro transe cinematográfico conhecer o intenso Morrison personificado por Val Kilmer. Mas afinal, estamos compreendendo o homem ou engrandecendo ainda mais o mito? Vemos Morrison ou a visão do diretor sobre Morrison?
De Stone também é possível conhecer a história a partir de sua crítica às guerras. Ele, inclusive, participou e foi condecorado na Guerra do Vietnã. Os filmes Platoon (1986), Nascido em 4 de Julho (1989), Entre o céu e a Terra (1993) e Salvador (1986), trazem um clima de desespero misturado a um lirismo heroico, o que vai nos entretendo, aterrorizando e alertando para os efeitos dos conflitos bélicos. Durante os filmes, um mal-estar nos toma a alma: as guerras geram tantas dores que é necessário pensá-las no tribunal da história. Mas será que as cenas realmente representam a crueza de uma guerra, sem trilha musical tão dramática?
Do outro lado, podemos compor filmes que testam nossa razão histórica e que contando-nos uma “outra história”, nos permitem um aprofundamento na crítica da história real. O exemplo que salta aos olhos é Bastardos Inglórios, de Quentin Tarantino (2009). Se de um lado ele inventa uma narrativa sobre o fim do nazismo, mas apoiado em personagens reais (estão lá representados Himmler, Goebbels e Hitler), de outro é difícil não pensar em como o nazismo passou a ser traduzido como o ódio, o mal e a loucura, quando julgado a partir dos anos 1950, com o crescimento dos veículos de comunicação em massa e chegada da cultura POP. Em outras palavras, associar o nazismo ao lado diabólico das sociedades modernas é também uma clara indicação de como tal fato histórico foi julgado pelo ocidente atual.
Assim o cinema ficcional acaba por se aproximar, borrar as bordas do documentário, mesmo quando não respeita os documentos e a formalidade da pesquisa historiográfica. Pode-se discutir se são mais o menos fieis, mas serão sempre representações da compreensão e dos signos de um período. Serão sempre um olhar datado sobre um tempo, tanto pelo foco do diretor como pelo foco daqueles que os assistem. E aí temos uma ‘história da história’. De outro lado, vale indagar se a narrativa construída e dramatizada, mesmo que baseada em fato reais, pode ser objetiva e fidedigna.
Visões interessantíssimas podem ser conhecidas a partir dos artigos editados no livro “Cinematógrafo: um olhar sobre a história”, organizado por Jorge Nóvoa, Soleni Biscouto Fressato e Kristian Feigelson (2009, Eds. EDFBA e UNESP). Indico fortemente aos professores que se interessam por tais reflexões. Seria possível pensar com os alunos diversas temáticas a partir de tais discussões.
O Instituto Claro abre espaço para seus colunistas expressarem livremente suas opiniões. O conteúdo de seus artigos não necessariamente reflete o posicionamento do Instituto Claro sobre os assuntos tratados.