Iniciado em 2005 com o apoio de instituições públicas e privadas e, organizado pela Universidade Autônoma de Barcelona e o Banco do livro da Venezuela, o Máster em Livros e Literatura Infantil e Juvenil, dirigido pela pesquisadora Teresa Colomer, chegou em 2015 a sua 9ª edição. Com um sistema de estudo a distância, e alguns encontros presenciais, venho participando desse interessante processo de aprendizagem, junto com pesquisadores de diversos países.

Como professora de ensino fundamental I, escritora e amante dos livros, para mim tem sido uma experiência muito enriquecedora. E no final de setembro, tive a oportunidade de participar de uma fase presencial em Barcelona, na Espanha. Foi uma alegria ser selecionada para uma das vagas e poder participar da semana presencial do curso ao lado de 21 alunos de diversas partes do mundo como Estados Unidos, México, Colômbia, Chile, Japão, Taiwan, Brasil, Peru e da própria Catalunha. É esta experiência, com observações, aprendizagens e trocas feitas durante a semana, que partilho com os leitores do NET Educação.
 
O encontro, que ocorreu no campus Casa Convalescência, reuniu diversas palestras, cursos e atividades extraclasse com o objetivo de debater as formas de literatura infantil e juvenil atuais e apresentar um panorama dos estudos realizados nesse campo nos últimos anos. Grandes pesquisadores estavam presentes como Teresa Colomer, Teresa Duran, Miquel Desclot, Arnal Ballester, Sandra L. Beckett, Maria Cecilia Silva-Díaz, Ana Díaz-Plaja, entre outros.
 
Formas da literatura infantil e juvenil
 
Os principais cursos estavam focados no tema “As formas da Literatura Infantil e Juvenil”. Inicialmente, debatemos a crítica literária e sua relação com a literatura infantil e juvenil, que aqui chamarei de LIJ. Pude observar que os pontos levantados pela crítica espanhola a respeito da literatura para crianças e jovens são os mesmos observados no Brasil, a tríade “Quem escreve para as crianças”, “Quem são os mediadores de leitura” e o “Politicamente correto na Literatura Infantil e Juvenil”. Eles estão sempre presentes e não se pode analisar o que está sendo produzido nesse campo sem passar por essas questões. Porém, nossas ideias e pesquisas a respeito dessa literatura ainda são muito incipientes. No Brasil, temos três pesquisadoras de destaque na área: Regina Zilberman, Marisa Lajolo e Laura Sandroni, que assim como Ana Díaz-Plaza se debruçam sobre essas questões fundamentais para se compreender o processo de criação de livros de LIJ e a construção de sua crítica. 
 
Em um segundo momento, tendo Teresa Colomer como mediadora, debatemos em pequenos e, depois num amplo debate os tópicos em que a LIJ é lembrada pela crítica literária. Nesse ponto, percebi que tanto na Espanha quanto no Brasil existe um caminho a percorrer e um espaço a se conquistar, pois infelizmente, ainda se tem um olhar bastante superficial para esse tipo de literatura. Debates como: apresentar ou não os contos folclóricos para as crianças; os valores na LIJ; a relação tumultuada entre escola e literatura infantil e as novas tecnologias foram alguns dos temas definidos por estudiosos de diversos países como os principais entraves para a autonomia dessa produção nos dias atuais.
 
Além disso, aproveitamos para trocar experiências e opiniões a respeito das ilustrações nos livros destinados a esse público e sua importância para a continuidade da história. Analisamos, também, um novo jeito de se fazer literatura para crianças que são os denominados Livros Álbuns, em que a imagem e o texto têm total relação e os dois caminham juntos na construção de sentido. Percebi claramente como em diferentes partes do mundo a literatura para crianças e jovens ainda sofre de preconceitos por parte daqueles que a analisam, vendem, promovem e a escrevem.
 
A semana ainda teve outros pontos interessantes. O primeiro teve como foco a construção de poesia para crianças e a sua relação com a arte, em que o educador é visto como mediador da experiência entre a criança e a linguagem poética. A criança é o indivíduo em pleno processo de aprendizagem dessa experiência e o poeta/autor é o mestre das palavras que conduzirão o pequeno leitor a fruição estética. Na oficina, nos foi apresentada uma parcela de poemas criados para crianças por autores ingleses. Aqui senti falta de uma amostragem mais ampla de poetas de outras partes do mundo, que souberam acessar o universo infantil promovendo um jogo no nível mais alto entre o leitor e sua forma de se relacionar com o mundo e com o outro, por intermédio da poesia. No Brasil, temos excelentes autores que alcançaram esse patamar. Manoel de Barros e Cecília Meireles são bons exemplos disso.
 
Também nos debruçamos nos livros interativos, criados para aplicativos de celular e tablet e pudemos manusear alguns deles como Metamorphabet, Touché!, Lil’ Red e Spot. Como esse ainda é um campo de pesquisa novo no mundo todo, foi enriquecedor conhecer pesquisadores que na Espanha já se dedicam a compreender e analisar essa nova forma de literatura para crianças e jovens e enfrentar os preconceitos em relação à literatura digital, que é uma obra com aspectos literários relevantes, e se aproveita de possibilidades e contextos digitais para estabelecer uma interatividade e, consequentemente, uma relação com o leitor.
 
Todos os debates propostos na semana presencial do Máster foram riquíssimos e de muita troca e me fizeram ver que mesmo com toda a valorização da leitura na Europa ou em outras partes do mundo como nos Estados Unidos, por exemplo, a literatura infantil e juvenil ainda é vista como uma literatura menor e menos importante pela crítica ou por quem se esbarra nela. Por isso, os esforços de pesquisadores como os que estão no grupo Gretel são fonte de inspiração para brasileiros, que como eu, não encontraram no Brasil cursos tão completos e específicos sobre essa área. 
 
Observo que ainda estamos aqui em um processo de engatinhar nos estudos a respeito da LIJ e temos que recorrer aos estudos realizados em países da Europa para progredirmos juntos na valorização dessa literatura que é tão importante para a formação de leitores, independente do seu país de origem. Cabe ressaltar também um questionamento que fiz aos pesquisadores e livreiros de Barcelona, pois foi com pesar que só encontrei por lá cinco livros brasileiros “Flicts” do Ziraldo, “Menina bonita do laço de fita” da Ana Maria Machado, “Cena de rua” da Angela Lago, “Os invisíveis” de Tino Freitas e Renato Moriconi e “Bárbaro” também do Moriconi.
 
Indaguei por que conhecem tão pouco do que é produzido no Brasil, já que temos uma diversidade grande de livros de qualidade produzidos para esse público? Em todos os casos a resposta foi a mesma, é muito caro importar livros brasileiros. Precisamos com urgência aprofundar as pesquisas, refletir sobre esse quadro e procurar meios de mudá-lo. Afinal sabemos do que autores, ilustradores e professores brasileiros são capazes para fazer da literatura brasileira produzida para crianças e jovens um bem cultural com o espaço que ele merece.
 
* Amanda Alves do Amaral é educadora, mestranda em Livro e Literatura Infantil e Juvenil na Universidade Autônoma de Barcelona. Professora alfabetizadora e de oficina literária, atua também como formadora de professores e responsável pela empresa Encontro de Leitores, além de colaboradora do portal NET Educação 
 

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