É cada vez mais acentuada a preocupação dos educadores (pais e professores) com o desinteresse dos jovens pelos livros e pela cultura letrada. Pesquisas mostram que a média de leitura espontânea, no Brasil, é de pouco mais de um livro por ano. No Brasil, assim como na maioria dos países da América Latina, fruto das desigualdades sociais e do analfabetismo, há uma forte tradição da cultura oral que, nos últimos anos, se ampliou para a cultura audiovisual. Mesmo na Europa, em que a cultura do livro é importante há gerações, vemos relatos de educadores queixando-se do mesmo problema, o abandono dos livros. A falta de concentração e de leitura é um fenômeno global.
É papel da escola a conservação da cultura letrada e da cultura construída pela humanidade. Privar nossas crianças e jovens do prazer de ler é privá-los de sua inserção como cidadãos na sociedade atual e distanciá-los de oportunidades no mercado de trabalho. Não podemos desistir, portanto, de buscar estratégias para que o encontro entre o educando e a leitura seja uma experiência feliz e permanente. É bom lembrar que, embora desprestigiada, somente a escola tem como função a sistematização da leitura.
Crianças e adolescentes sabem ler, isto é, decodificam o alfabeto, mas demonstram muita dificuldade na interpretação dos textos. Se esse quadro é comum no Ensino Fundamental, a falta de familiaridade com a cultura letrada se consolida e se estende para a fase de Ensino Médio e Ensino Superior e, ao final dos estudos, a leitura espontânea diminui ainda mais, especialmente quando não foi criado um laço afetivo com a prática de ler, nos primeiros anos da escolaridade. Para essa geração de leitores, vemos textos cada vez mais curtos, sem profundidade, publicados nos jornais e na internet. Sem falar dos resumos de textos e de livros.
A valorização do texto escrito está, há muito, presente na escola, tanto na escola religiosa, que privilegiou o estudo das escrituras como na escola influenciada pelo cientificismo e pelo enciclopedismo, que valorizou a ciência e as suas descobertas em detrimento do saberes populares, fruto da experiência, transmitidos oralmente de geração em geração. A vocação enciclopedista ainda existe, pois ainda há quem considere “forte” a escola que aborda muitos conteúdos e cobra sua assimilação nas provas e não necessariamente sua compreensão.
Em um contexto marcado pela cultura mediática, o texto escrito está articulado às novas linguagens. Jovens, cercados pelos sons imagens que dominam os tempos e os espaços, frequentam uma escola que é desafiada e rever a predominância do texto escrito sobre as demais linguagens. Sem minimizar a importância da leitura e da escrita, seria interessante considerarmos as outras linguagens que nos fornecem elementos para a leitura do mundo e podem ampliar nossa capacidade de expressão.
A linguagem audiovisual, justamente pela sua forte presença na vida das crianças e dos jovens, precisa ganhar mais espaço na educação formal. Ao invés de rivalizar com o audiovisual (televisão, internet, filmes), ou de considerá-lo apenas um momento relaxante da vida escolar, os educadores podem buscar uma articulação entre as linguagens, tornando-as complementares.
A cultura audiovisual que o aluno já traz, quando chega à escola, não é da mesma natureza que o saber escolar, não pode, portanto, ser avaliado a partir dos mesmos indicadores presentes na escola. Em função disso, não é muito simples inserir o audiovisual no contexto escolar. Mesmo que o filme esteja presente em sala de aula, na maioria das vezes ele é apresentado de forma ilustrativa, como apoio secundário da imagem para complementar o conteúdo trabalhado na aula expositiva e legitimado pelo livro didático, ou paradidático.
E se déssemos um outro status ao filme? E se o filme fosse o eixo da produção de conhecimento que se pretende alcançar? E se levarmos em conta a familiaridade que o aluno tem com o audiovisual, como ponto de partida para se tratar um tema?
Os filmes são muito relacionados ao entretenimento e às emoções. O próprio aluno não está acostumado a refletir sobre o filme que viu, muito menos a discutir sobre ele. É comum que, ao final de uma experiência audiovisual, os alunos não saibam dizer o que acharam; costumam classificar o filme a partir de sensações: “muito parado”, “emocionante”, “lindo”, “esquisito”, “não entendi” ou “maravilhoso”. Um debate bem conduzido – que pode ser realizado após a exibição ou na aula seguinte – pode levar do senso comum à uma apreciação mais elaborada, transformando a experiência em conhecimento. Aos poucos, após troca de impressões com colegas da classe, a identificação do aluno com a narrativa fílmica e sua relação com a vida cotidiana começa a aparecer.
É importante que o debate permita liberdade de expressão, que todos possam ser ouvidos e que as divergências emerjam e sejam acolhidas. O jogo e o humor também têm o seu espaço na apreciação dos filmes. Não se deve buscar consenso, apenas a sistematização das principais ideias surgidas. O professor-mediador precisa se preparar, assistir ao filme previamente, munir-se de informações sobre autor, contexto e obra. Ao final, sistematiza as ideias principais discutidas, evidenciando os vários olhares sobre o mesmo assunto.
A escolha do filme deve ter intencionalidade, articular-se ao conteúdo curricular, sabendo, no entanto que um filme traz mais do que um tema. Valorizar temáticas não previstas e, aparentemente, não vinculadas aos conteúdos curriculares, é uma forma de permitir que os alunos achem seu próprio caminho de aquisição daquele conhecimento. Especialmente os filmes ficcionais trazem à tona sentimentos que mobilizam crianças e jovens, o que é muito positivo, pois pode evidenciam dinâmicas do grupo. O debate deve, portanto, fazer a relação entre o filme e o conhecimento que se pretende atingir, tornando esse conhecimento mais pertinente à sua vida.
Ao invés de pedir com rapidez a produção de um texto, o professor pode sugerir pesquisas a partir dos temas levantados. Com o interesse aflorado, as pesquisas e leituras ocorrem com mais prazer. A produção de um texto pode ser solicitada ao final do processo, depois que o tema estiver enriquecido com o filme, o debate e as pesquisas.
A ideia, com essa prática, é incentivar a complementaridade das linguagens, de forma que a produção do conhecimento e a relação com a leitura seja prazerosa.
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