O início de ano é pródigo na criação de projetos. Momento de planejamento e organização, na vida escolar se inicia com a volta dos professores e alunos das férias e se consolida nas ‘semanas pedagógicas’, encontros voltados para programar o ano letivo. Esse é um momento rico para pensar estratégias educativas ligadas ao cinema.

Utilizarei a primeira coluna deste ano para pensar em opções para o cineclubismo na escola. Quais os formatos, os temas, as possibilidades interessantes para o ambiente escolar? Vamos a algumas:
1.     Cineclube temático
O cineclube pode ser útil como parte, ampliação ou ilustração de temas presentes no planejamento. A preparação das sessões deve ser antecipada com outros estímulos aos estudantes. Assim, por exemplo, um cineclube dedicado ao período homérico pode ser antecipado com um trecho escrito da Ilíada, seguido do filme “Troia” (2004) e finalizado com um bate-papo com um professor de história sobre as descobertas de Heinrich Schilemann – o estudioso alemão que encontrou as ruínas da cidade de Troia no século XIX.  Outra possibilidade é uma breve conversa sobre bioética com um professor de biologia ou filosofia, seguido do filme “Gattaca” (1997) e complementado com um artigo de jornal ou revista sobre a bioética atual. De toda forma, uma lista de temas pode ser feita no planejamento para utilizar o cineclube como atividade contínua, de acordo com o foco das várias matérias.
 
2.     Cineclube para o vestibular
Alguns vestibulares trazem listas de filmes (como o da faculdade Cásper Líbero ou o direito na GV, ambos de São Paulo), outros trazem listas de obras literárias que foram transformadas em filmes – caso de “Vidas Secas” (1963) e “Capitães da Areia” (2011), sempre presentes. Também, é possível selecionar uma lista de filmes auxiliares aos estudos, já que diversos sites organizam listas com obras que tratam de temas transversais e de cultura geral. Este tipo de cineclube é interessante, pois trabalha com a demanda da comunidade escolar (quando ela se volta para os exames vestibulares).
3.       Cineclube pedagogia e educação
Não somente para os alunos o cineclube pode ser interessante. Ele também pode mobilizar os professores para temas de seu cotidiano. Filmes que discutam a educação, seus desafios e dilemas serão úteis para a reflexão e a ressignificação do processo educativo. Há vários filmes inspiradores e outros mais ‘comerciais’. Todos podem ser objeto do olhar e do trabalho crítico da equipe. “Escritores da Liberdade” (2007), “Ao mestre com carinho” (1967) ou “Entre os muros da escola” (2008), são bons exemplos. Há, ainda, documentários ligados à educação como “Ser e Ter” (2002), sobre a educação infantil, e “Pro dia nascer feliz” (2006), sobre os desafios da educação no Brasil. Tal cineclube pode ser uma forma de estabelecer com o grupo de professores uma relação de colaboração e de crítica.
 
4.       Cineclube documentário ou curta-metragem
Os documentários e filmes de curta-metragem não têm grande espaço nas grades televisivas e acabam relegados a salas de cinema específicas. O cineclube pode ser o espaço para a divulgação de tais filmes e ponto de partida para análises interessantes, sobre temas diversificados. A possibilidade é ampla e rica e a lista pode ser alimentada por professores de diversas áreas. Outro benefício deste tipo de programação é decorrente da grande quantidade de documentários e curtas disponíveis na internet, nos sites de vídeos e nos programas de compartilhamento.
 
5.       Cineclube Brasil
Com o cinema brasileiro em expansão (ao menos em número de filmes), fica fácil fazer uma seleção nacional de obras de referência. Obviamente que os filmes que formaram o cinema brasileiro podem ser privilegiados, mas há também o cinema mais recente do Brasil, com boas obras de ótima qualidade e boa crítica. É possível pensar em filmes como “Que horas ela volta” (2015) como representante mais próximo de nós ou “São Paulo, Sociedade Anônima” (1965) como um cinema mais antigo. Também é possível abordar o Cinema Novo, a comédia de Oscarito ou obras como “O pagador de promessas” (1962) como responsáveis pela formação do cinema brasileiro.
 
6.       Cineclube arte
Talvez a forma mais desafiadora seja a atividade de cineclube que se dedica a filmes cuja fruição necessita de um pouco mais de maturidade. Nesse tipo de cineclube, somente filmes com uma proposta estética específica ou com uma discussão de fundo profunda é que teriam lugar. “A espuma dos dias” (2013), “Ela” (2013) ou “A árvore da vida” (2011) são exemplos de filmes novos que podem originar boas questões sobre estética e sentido existencial.
 
7.       Cineclube de vanguarda ou de autor
Neste tipo de cineclubismo a decisão é por certa completude ou pela abrangência do conjunto. Escolhe-se um autor ou uma escola específica de cinema e vários filmes são projetados a fim de proporcionar ao público um maior conhecimento sobre aquele autor ou sobre um movimento. Não é muito fácil trabalhar nas escolas com este formato, mas é possível fazer um formato mensal, por exemplo. Quatro filmes de um mesmo diretor ou quatro obras da Nouvelle Vague ou do neo-realismo, etc.. Assim intitula-se o mês Hitchcock, o mês Kubrick ou o mês do Novo Cinema Argentino e os alunos poderão desfrutar de alguns encontros focados em um mesmo espaço de tempo.
Clássicos? Filmes de épocas específicas? Temáticas? Listas de melhores? Não importa muito o formato a escolher ou mesmo se o cineclubismo escolar será menos rigoroso em termos de proposta. O que talvez seja o grande ponto desse planejamento é a importância que o cinema pode ter para a formação cultural e afetiva dos alunos e dos próprios professores. Uma boa programação, rica e diversificada, vai reatar o sentimento de pertencimento do estudante. A escola pode ser, também, um local de diversão e de encontro.
Se você está em alguma escola e tem tal possibilidade, por que não criar um projeto para 2017 ser mais rico cinematograficamente?
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