Ocupamos o que é nosso. Essa frase escrita em uma faixa na porta de uma das escolas ocupadas em São Paulo nos traz muitos pontos para a reflexão de um movimento que já faz parte das mobilizações históricas do país.

Nós, estudantes secundaristas, protestamos contra a medida do governo Alckmin, conhecida como reorganização escolar, que fechará aproximadamente 100 escolas e implantará ciclos únicos. Essa medida autoritária nos foi imposta sem nenhuma construção com a comunidade escolar e, embora justifique melhorias pedagógicas possui um único objetivo: o corte de gastos na área da educação.
 
Desde o anúncio, ocupamos às ruas em protesto, reivindicando a revogação de tal medida e a construção coletiva de propostas efetivas para a melhoria educacional. Não fomos ouvidos. O governo insistia em tratar-nos como crianças que não possuíam voz para opinar sobre sua própria educação.
 
A ocupação foi a forma que encontramos para mostrar que somos sim sujeitos políticos. Nossa política é de ação direta e não nos sentimos representados por nenhuma organização estudantil ou partido político que negocie em nosso nome. Nos organizamos de maneira horizontal e foi desta forma que conseguimos, em menos de um mês, ocupar mais de 250 escolas. 
 
Durante o processo, é comum ouvir da boca dos ocupantes que “aprendemos mais aqui do que em um semestre letivo”. Com a auto-gestão das escolas, os alunos passaram a construir coletivamente um espaço educacional onde poderiam opinar sobre que tipo de atividade gostariam de participar. Desta forma, e com o apoio da comunidade escolar, as ocupações receberam oficinas de teatro e música, leituras conjuntas de clássicos da literatura, filosofia e sociologia, aulas alternativas de matemática e física, exibições de filmes seguidas de debates, rodas de conversa sobre feminismo, cultura indígena e política. Foram dezenas de peças de teatro, rodas de capoeira e samba, oficinas de artesanato, aulas de revisão para o vestibular e até mesmo uma Virada Cultural nas ocupações. Sob a gestão de alunos e da comunidade, a escola se mostrou ser um espaço de aprendizagem coletiva, um local aberto a todo tipo de manifestação cultural. 
 
Aprendemos a construí-lo de maneira democrática e horizontal, visto que todas as decisões – das comissões de segurança à alimentação, das atividades aos próximos passos da luta, do discurso midiático à limpeza – passavam pela assembleia. Outro aprendizado: como chegar em um consenso num grupo de mais de 30 pessoas? O que sempre nos foi pedido em trabalhos em grupo foi finalmente alcançado. 
 
Entramos em contato com diversas pessoas ligadas ao sistema judiciário: defensores públicos, conselho tutelar, oficiais de justiça, desembargadores e juízes. Lemos e relemos o ECA e partes da Constituição, dessa forma aprendendo tanto na teoria quanto na prática sobre nossos direitos.
 
Nestas últimas semanas, conseguimos colocar de novo à tona a questão da educação. Colocamos pais, alunos, professores, advogados, juízes, jornalistas e a comunidade em torno das escolas a refletir sobre o significado da educação que possuímos hoje. Reiteramos o que já estava claro: o método educacional vigente está falido. Mostramos a importância da participação da população na formação de um espaço de aprendizagem democrático e nos afirmamos enquanto sujeitos políticos.
 
Temos clareza que as ocupações das escolas foram somente o começo de um processo de luta que daremos continuidade com a mesma convicção que gritávamos nas ruas: Não tem arrego!
 
* Laura Segurado Frare, 17 anos, é integrante do Grupo Autônomo Secundarista (G.A.S), ocupante da E.E. Fernão Dias Paes

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