“Sem educação não conseguiremos alterar a realidade de discriminação de comunidades”, ressalta a Coordenadora do Laboratório de Estudos da Etnicidade, Racismo e Discriminação (Leer) da Universidade de São Paulo (USP), Maria Luiza Tucci Carneiro, em entrevista ao portal NET Educação. Baseado nisso, uma parceria entre o Leer e a entidade judaica B’nai B’rith do Brasil — existente em outros 53 países — possibilitou a criação do Instituto Shoah de Direitos Humanos (ISDH).

A instituição, que surge como um departamento da entidade judaica, vai administrar um acervo inicial com cerca de 12 mil documentos sobre o Holocausto. São papeis oficiais, testemunhos de sobreviventes e objetos como fotografias, passaportes e diários, doados por aqueles que buscaram abrigo no Brasil fugindo do nazismo.

Uma parte da documentação reunida já está disponível online. Até junho, deverá ser inaugurado um espaço físico para consulta e pesquisa. A ideia é oferecer subsídios para o tema ser levado para dentro do ensino, e atender diversas áreas do conhecimento.

Durante a conversa, Maria Luiza comenta sobre o recente caso que alunos da Faculdade de Direito da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) tiraram foto fazendo a saudação nazista, durante trote universitário. Em outra imagem, uma jovem aparece pintada de preto, segurando uma placa com os dizeres “Caloura Chica da Silva”, em referência a escrava que viveu em Minas, no século 18. “Vivemos situações cotidianas de discriminação até hoje. Devemos pensar no estudo do passado para compreender o presente”, completa. Acompanhe abaixo a entrevista completa.

NET Educação – Por que documentar a história é importante?

Maria Luiza Tucci Carneiro – Porque por meio da história temos um registro dos fatos do passado, não só dos acertos, mas também dos erros. A partir dos documentos históricos é garantida uma memória. Sem documentos, não se pode reescrever. A história muitas vezes é desvirtuada e manipulada por aqueles que querem negar fatos como genocidas, no caso do Holocausto. Acho que esse momento atual na história do Brasil é importante, porque têm crescido movimentos que exigem direito à memória e a verdade. Culmina com a abertura de arquivos da ditadura militar, entre eles o do Dops [Departamento de Ordem Política e Social, que foi um órgão criado para reprimir movimentos políticos e sociais contrários ao regime militar].

NET Educação – Um trote realizado por alunos da Faculdade de Direito da UFMG, em meados de março, levou a acusações de racismo e sexismo na internet depois que fotos passaram a circular nas redes sociais. O que achou?

Maria Luiza – As fotos são a expressão de uma mentalidade que persiste entre nossos jovens. Mostra a proliferação que exalta a figura de [Adolf] Hitler e idealiza movimentos neonazistas existentes principalmente em São Paulo, Porto Alegre, Rio de Janeiro e soube também que na região Nordeste. A postura irreverente da foto nos diz que temos que ter grande preocupação para a educação desses jovens, que muitas vezes, por meio de “brincadeira”, não percebem que é um ato que pode incentivar outros jovens. Representa ignorância sobre o tema.


Veteranos – um deles com um bigode semelhante
ao usado por Adolf Hitler – fazem saudação
nazista enquanto um “bixo” é atado a um pilar
(Crédito: Divulgação/Facebook)

NET Educação – A educação tem papel de prevenir esse tipo de ato, então?

Maria Luiza – Nesse caso, tivemos um estudante de uma universidade. Há falta de um programa que informe, eduque, na luta contra o racismo. Se conseguirmos isso em espaços educacionais, seria ótimo. Estaremos ganhando etapas, do que depois fazer reciclagem de um cidadão “mal formado”. Por meio do Leer, ocorrem na USP colóquios do tema direcionados a estudantes em nível de graduação e pós-graduação. Seria interessante agir em duas frentes: atingir o educador formado e aquele que ainda está em formação.

NET Educação – Em um contexto atual de xenofobia e segregacionismo, essa educação tende a fazer mais sentido?
 
Maria Luiza – Acho que nossa grande preocupação é a realidade brasileira. A vivência não apenas de grupos discriminados que têm ligação direta com o Holocausto, mas também educar sobre perigos do racismo, xenofobia, que tem proliferado em várias partes do mundo, inclusive no Brasil. Informar, pesquisar e educar são os três pilares do novo instituto que criamos. Sensibilizar estudantes, professores, educadores, formadores de opinião para o perigo da proliferação de um pensamento racista na atualidade.

NET Educação – Quando o espaço físico do Instituto Shoah disponibilizará material?

Maria Luiza – Vários documentos ainda estão com seus proprietários, ainda não recebemos. Estamos na montagem de uma sala no quarto andar da sede da B’nai B’rith e entre maio e junho, devemos abrir para visitação pública e consulta. Estão previstas grandes exposições itinerantes a partir de 2014. Uma das parcerias é com o Arquivo Nacional do Rio de Janeiro que vai disponibilizar cópias do processo de naturalização de judeus que vieram para o Brasil, inclusive personalidades que trouxeram contribuição para o país culturalmente. Por meio de fichas, poderemos saber quando pessoas vieram para o Brasil fugindo do nazismo.


Cartão de identificação de Johanna Priester Schwarz como sobrevivente do campo de Bergen-Belsen
(Crédito: Acervo do Instituto Shoah)

NET Educação – Quantas pessoas entraram no Brasil nessa condição?

Maria Luiza – O número oficial de quem entrou aqui como apátrida ou judeus refugiados não existe até hoje. Só entre minhas pesquisas, contabilizei 20 mil. Algumas palavras chaves são sintomáticas nas fichas dos que buscavam ajuda. Se entre o nome e o sobrenome, tivesse escrito Sarah ou Israel denota ser um judeu, já que fazer isso era uma obrigatoriedade imposta pelos nazistas. Mas no campo “religião” da ficha, aparece escrito católico, porque foi a maneira de ele entrar no Brasil.

NET Educação – O instituto vai administrar um acervo inicial com cerca de 12 mil documentos sobre o Holocausto. O que podemos encontrar?

Maria Luiza – Uma parte da documentação reunida que já está disponível online diz respeito à posição dos diplomatas brasileiros. Perceber a trajetória de judeus que optaram pelo Brasil enquanto país de acolhimento, tendo em vista que de 1933 a 1945 era muito difícil conseguir visto nos Estados Unidos e reuni 26 circulares, de 1937 a 1948 antissemitas, o que deixa claro que não interessava a entrada desses judeus em nosso país. Essa é uma parte do acervo que formamos.

NET Educação – Além disso, o que mais ressaltaria?

Maria Luiza – Acabou alcançando dimensão maior quando passamos a entrevistar sobreviventes no Brasil, que passaram a doar documentos pessoais e registramos as conversas. Implica na identificação de documentos importantes que permitem reescrever a história do Brasil contemporâneo e do nazismo para além da Alemanha. Criamos uma base de dados, cerca de dez mil documentos foram pesquisados no Arquivo Histórico do Itamaraty e fora do país. No levantamento que fiz, incluindo até o segundo governo [de Getúlio] Vargas, achei vários diplomatas brasileiros que se identificavam com relação de repressão e extermínio principalmente dos judeus. E alguns poucos diplomatas que se dedicaram ao salvamento de judeus.


Desenho de Federico Freudenheim do trajeto percorrido por sua família de Berlim até Montevidéo, em 1938
(Crédito: Acervo do Instituto Shoah)

NET Educação – Poderia exemplificar quem se dedicou ao salvamento?

Maria Luiza – A posição de diplomata Luís Martins de Souza Dantas, que emitiu vários vistos e salvou mais de 500 pessoas perseguidas na época. Isso era um desvio das normas do governo brasileiro. Essa documentação mostra que ele foi considerado culpado por essas ações, que a meu ver são de solidariedade. Encaminhei esse processo para Israel que depois de dois anos, foi reconhecido como justo entre as nações. Colocou em risco sua vida para salvar pessoas em estado de tragédia.

Veja também:
– Plano de aula: Diário de Anne Frank

NET Educação – Como acredita que professores e educadores poderiam utilizar o material do Instituto Shoah?

Maria Luiza – Em primeiro lugar, para ter plena consciência da realidade brasileira: marcada pelo racismo, intolerância e xenofobia. Vivemos situações cotidianas de discriminação até hoje. Pensar no estudo do passado para compreender o presente. Sem educação não conseguiremos alterar a realidade de discriminação de comunidades. Sair da posição de só educador. Não é só informar e o aluno fica sem saber o que fazer com isso, criar então novas posturas para uma cidadania plena.

Interessados em doar material sobre o Holocausto e recursos (Lei Rouanet) devem entrar em contato pelos e-mails malutucci@gmail.com, com a professora Maria Luiza Tucci Carneiro ou agoldstein51@gmail.com, com Abraham Goldstein.

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