O Dia do Cabelo Maluco é uma atividade que surgiu nos Estados Unidos nos anos 1990 e ganhou espaço nas escolas brasileiras na última década. Costuma ocorrer perto do Dia das Crianças, em 12 de outubro, e propõem que os alunos, com a participação das famílias, criem penteados com cores, objetos, brinquedos e formas inusitadas.
A atividade, porém, trouxe questionamentos dentro do campo da educação.
“Primeiro, como uma prática escolar de outro contexto entrou nas nossas escolas e passou a ser repetida quase automaticamente? Além disso, onde está a criança nessa atividade, uma vez que geralmente quem pesquisa a referência, compra os materiais e executa o penteado é o adulto? Ou seja, precisamos perguntar o que essa prática comunica e qual é, de fato, a experiência da criança”, ressalta a mestra em educação e consultora em educação e relações étnico-raciais Daniele Laurinda Caetano.
De acordo ainda com a educadora, outros pontos pouco debatidos são a desigualdade entre famílias que têm diferentes condições de tempo e dinheiro para executar os penteados, o consumo pouco sustentável de materiais, a exposição das crianças nas redes sociais e o uso da palavra ‘maluco’.
“Precisamos perguntar o que estamos classificando como ‘maluco’, qual é a referência do cabelo considerado ‘normal’ e o que as crianças aprendem com essa classificação. É justamente nesse ponto que uma brincadeira aparentemente simples passa a exigir reflexão pedagógica”, afirma a doutoranda em educação e coordenadora de promoção da igualdade racial nos espaços educacionais de Araruama (RJ), Aline Botelho.
Reprodução de racismo
A brincadeira também pode reproduzir racismo, ainda que não intencional. A preocupação é a de que penteados e características historicamente associados aos cabelos crespos e à estética negra – como black power, cornrows (tranças feitas próximas ao couro cabeludo) e bantu knots (coquinhos) – sejam apresentados como algo estranho ou engraçado.
“No Brasil, ao digitar o termo Cabelo Maluco em um famoso site de compras para festas, aparecerão justamente essas imagens como possibilidades de fantasia para a data. Além disso, a página de uma famosa marca europeia de produtos capilares publicou bantu knots, em 2019, como uma ideia para o Crazy Hair Day”, compartilha Caetano.
“Isso é muito significativo porque bantu knots e tranças são penteados que têm história, técnica e presença nas experiências estéticas negras. Então, o que exatamente estamos classificando como ‘maluco’?”, questiona.
Botelho lembra que, no Brasil, características fenotípicas negras foram historicamente submetidas a processos de inferiorização. Cabelos crespos, por exemplo, acabaram associados a palavras como “ruim”, “duro”, “armado”, “rebelde” e “desarrumado”.
“A principal problemática está na fronteira entre fantasia e uma característica de identidade. Colocar brinquedo, copo, flores e arames sobre o cabelo para criar uma fantasia é uma coisa. Considerar uma textura natural, trança, penteado afro ou estética cultural como ‘cabelo maluco’ é outra”, diferencia.
“Uma criança que não é negra pode usar por um dia cabelo volumoso, para cima, tranças ou penteados semelhantes a estéticas negras como fantasia e ser uma experiência temporária. Para outra criança, aquilo pode se parecer com seu cabelo, da mãe, irmã ou avó. Ou seja, para uma criança o cabelo é fantasia; para outra, identidade”, aponta Botelho.
Além disso, crianças negras estão em um processo de construção da autoestima e da sua própria identidade.
“Meninas negras – e também meninos negros – sofrem pressão para controlar o volume, prender, alisar ou raspar o cabelo’”, questiona Caetano.
“Ao final, não estamos falando simplesmente de cabelo, mas de identidade. Para uma criança negra, o cabelo carrega referências familiares, culturais, históricas e afetivas. Ele faz parte da maneira como essa criança se reconhece e como aprende a perceber como o mundo a enxerga. A escola precisa ter cuidado para que uma proposta de diversão não produza, ainda que involuntariamente, constrangimento”, resume Botelho.
“Por isso, educação antirracista não é apenas ensinar a criança negra a gostar de si, mas ensinar todas as crianças a reconhecer a diferença sem transformá-la em inferioridade, estranhamento ou piada”, acrescenta.
Transformando a data
Caetano sugere substituir Dia do Cabelo Maluco por Dia do Cabelo Criativo e que os educadores se questionem sobre o objetivo pedagógico da atividade antes de simplesmente replicá-la. “E a criança precisa estar no centro; querer participar, escolher ou criar seu adorno”, diz.
Para Botelho, a atividade pode se transformar em uma excelente oportunidade para desenvolver letramento racial.
“Podemos conversar sobre por que determinadas texturas de cabelo foram historicamente consideradas mais bonitas ou adequadas do que outras; sobre os apelidos atribuídos aos cabelos crespos; sobre como construímos nossos padrões de beleza; e, principalmente, sobre o direito de cada criança existir sem que suas características físicas sejam transformadas em motivo de estranhamento ou ridicularização”, explica.
Ela, por sua vez, sugere substituir a data por Dia do Cabelo Ancestral. “A proposta é que as crianças possam pesquisar e conhecer penteados, formas de cuidar e ornamentar os cabelos e referências estéticas relacionadas aos diferentes povos e grupos que participam da formação da sociedade brasileira”, propõe.
“Conhecer é diferente de caricaturar. Se desejamos apresentar tranças, penteados afro, bantu knots e outras expressões estéticas, podemos aproveitar essa oportunidade para contar suas histórias, apresentar referências africanas e afro-brasileiras e mostrar às crianças a enorme diversidade estética existente”, justifica.
Vale também explicar que nenhum tipo de cabelo é maluco. “Seja crespo, volumoso, trança, dreadlocks, bantu knots etc.”, afirma Botelho.
Como agir em caso de racismo?
Para saber identificar situações de racismo no Dia do Cabelo Maluco, Caetano lembra que é necessário que os educadores tenham repertório.
“Como uma professora vai reconhecer que birrotes, bantu knots, determinadas tranças ou adornos têm história e significado cultural se nunca aprendeu isso?”, questiona.
A escola também precisa estar preparada para perceber uma manifestação racista e intervir. Segundo Botelho, para isso é necessário um protocolo para casos de racismo.
“Isso significa identificar a ocorrência, acolher quem foi atingido, preservar a criança de exposição ou revitimização, registrar adequadamente o episódio e realizar os encaminhamentos previstos no protocolo e nas normas da própria rede de ensino. Também é necessário dialogar com as famílias e desenvolver as intervenções pedagógicas pertinentes”, orienta.
“Muitas vezes, nossa primeira preocupação é explicar à criança que praticou determinada ação por que aquilo estava errado, mas esquecemos de perguntar à criança atingida como ela se sentiu e quais consequências aquela experiência produziu”, alerta.
A legislação brasileira também avançou nesse aspecto: a Lei nº 14.532/2023 alterou a Lei nº 7.716/1989 e passou a tipificar a injúria racial como crime de racismo. “Naturalmente, não cabe ao professor realizar uma classificação jurídica do fato; cabe à instituição seguir os protocolos e realizar os encaminhamentos competentes quando necessários”, orienta Botelho.
Caetano lembra ainda que a discussão não é sobre acabar com alegria, brincadeira ou criatividade relacionadas à data. “É sobre lembrar que tudo na escola educa”.
“Que uma criança negra possa olhar para o seu cabelo e reconhecer beleza, história, ancestralidade e potência. E que uma criança não negra aprenda a olhar para esse mesmo cabelo e reconhecer a diferença sem transformá-la em exotização, inferioridade ou motivo de riso”, declara Botelho.
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Crédito da imagem: Blaise Hayward – Getty Images