O futurismo foi um movimento artístico de origem italiana que celebrou a velocidade, a energia mecânica, o dinamismo e o poder tecnológico. Surgiu em 1909 com a publicação do manifesto de Filippo Tommaso Marinetti no jornal Le Figaro.

“Diferente de outros movimentos que surgiram de um descontentamento com estilos artísticos, o futurismo nasceu de uma concepção de civilização e encontrou sua primeira expressão nas palavras e manifestos. Outro diferencial é o nome do movimento, nascido a partir de seu idealizador e não de adjetivos depreciativos vindos da crítica de artes”, relata a coordenadora dos cursos de licenciatura em Artes Visuais EAD da Unoeste Luli Hata.

Hata explica que os artistas futuristas achavam que o peso da tradição da Itália inibia o progresso, reagindo, assim, contra instituições “tradicionais”, como museus.

Já no contexto geopolítico, o momento era de tensão entre grandes potências às vésperas da Primeira Guerra Mundial. “Havia também rápido avanço tecno-científico, especialmente em transportes e comunicação, aliado ao entusiasmo com as invenções da Segunda Revolução Industrial”, complementa a professora.

Movimento e energia

Nas obras futuristas, características visuais ajudam a transmitir a ideia de movimento e energia.

“Os futuristas utilizaram o divisionismo cromático – pontilhismo – para criar vibração visual”, lembra a professora.

Aplicaram também o conceito de persistência das imagens na retina. A ideia é a de que, quando algo se move muito rápido, nossos olhos não registram apenas uma imagem nítida e isolada, criando uma sensação de sobreposição.

Hata explica que os artistas futuristas usaram esse efeito para representar movimento em imagens estáticas. Por exemplo, em vez de desenhar um cavalo com apenas quatro patas, repetiam as patas várias vezes em posições ligeiramente diferentes, dando a impressão de que o animal está correndo.

“Também apostaram nas ‘linhas de força’: elementos gráficos que, conforme o sentido e a disposição de suas linhas, promovem a expressão da energia física e mecânica”, acrescenta.

Entre os artistas futuristas de destaque, além de seu fundador, estão Umberto Boccioni, pintor e o principal escultor do grupo,e os pintores Luigi Russolo, Carlo Carrà, Giacomo Balla e Gino Severini. Também participou do movimento o arquiteto Antonio Sant’Elia, que projetou a chamada “Nova Cidade”, sem estilos históricos, focando em materiais modernos como concreto e ferro.

“Na escultura, Boccioni buscou fundir o objeto com o espaço circundante e a revelar energias estruturais internas, usando materiais como vidro e metal”, acrescenta Hata.

“Esteticamente, os artistas italianos foram impactados pelo cubismo de Picasso e Braque, que, por sua vez, também absorveram proposições dos futuristas”, aponta.

Além das artes, o futurismo esteve presente na literatura. “Exploraram a liberdade das palavras e a quebra da sintaxe tradicional”, conta Hata

Apoio ao fascismo

Apesar do discurso de inovação, a professora lembra que a prática artística do grupo se deu, em grande medida, sobre técnicas tradicionais, como a pintura a óleo e representações figurativas

Outro ponto polêmico foi o apoio ao fascismo. “Os futuristas glorificavam a guerra, desprezavam o sentimentalismo e o feminismo e rejeitavam a arte que fosse apenas contemplativa. Para completar, Marinetti utilizou o movimento futurista como meio de propaganda do fascismo”, contextualiza a professora.

Marinetti utilizou a publicidade de forma magistral, fazendo o movimento ser conhecido rapidamente em toda a Europa. “Lançava mão de conferências e aparições públicas provocativas”, relata.

Embora o movimento tenha declinado após a Primeira Guerra Mundial, suas ideias sobre o dinamismo e a negação da tradição serviram de base para muitos desdobramentos da arte moderna posterior, incluindo no Brasil, onde os artistas da Semana de Arte Moderna de 1922 incorporaram algumas dessas ideias.

“Muitos identificaram-se com o movimento, e a crítica de arte do período denominou os artistas brasileiros de futuristas. Porém, estes reavaliaram essa conexão a partir da relação de Marinetti com o fascismo”, conta a professora.

A seguir, conheça quatro atividades que ajudam a ensinar futurismo na escola.

1) Pintura com ideia de movimento (anos iniciais do ensino fundamental)

Nessa proposta de Hata, após a apreciação das pinturas “Dinamismo de um Cão na Coleira” (1912) e “Velocidade do Automóvel” (1912-13), de Giacomo Balla, os estudantes discutem as diferenças visuais entre as obras, identificando elementos figurativos e abstratos. A partir dessa análise, o professor apresenta os conceitos de figuração e abstração. Em seguida, os alunos realizam uma pintura inspirada em uma das obras apresentadas, buscando compreender as soluções visuais utilizadas pelo artista para representar dinamismo e velocidade.

2) Escultura com movimento usando argila e papel machê (anos finais do ensino fundamental)

Nessa sugestão de Hata, após apreciação da obra “Formas Únicas de Continuidade no Espaço” (1913), de Umberto Boccioni, os estudantes analisam suas características e materiais empregados. Em seguida, individualmente ou em duplas, realizam estudos preliminares por meio de croquis que representem um ser humano ou animal em movimento, considerando diferentes pontos de vista, como as vistas frontal, lateral e superior. Com base nesses esboços, desenvolvem uma escultura utilizando materiais de modelagem, como argila, papel machê ou biscuit, observando aspectos como equilíbrio, sustentação e tempo de secagem.

3) Pintura com ideia de movimento usando recortes de revistas (anos finais do ensino fundamental)

Atividade sugerida pela professora Camila Portes em seu canal no YouTube. Após a apreciação de obras futuristas que exploram a representação do movimento, os estudantes são convidados a criar uma composição visual em uma folha A4 inspirada na ideia de dinamismo e velocidade. Para isso, podem utilizar recortes de revistas com imagens de pessoas em movimento, posicionando-os como referência para o desenho. Eles contornam as figuras repetidamente na folha, sugerindo diferentes momentos da ação. Depois, os alunos preenchem as formas contornadas, explorando contrastes. O fundo pode ser pintado de preto ou de outra cor escolhida pelo estudante.

4) Escultura com movimento usando materiais recicláveis (ensino médio)

Atividade recomendada por Hata, consiste em apresentar e analisar a obra “Desenvolvimento de uma Garrafa no Espaço” (1912), de Umberto Boccioni, com os estudantes, que refletem sobre as estratégias utilizadas pelos artistas futuristas para representar movimento, velocidade e os avanços tecnológicos de seu tempo. Em seguida, em grupos, elaboram o projeto de uma escultura inspirada nesses conceitos. Antes da construção, cada equipe realiza estudos preliminares e esboços, definindo formas, materiais e soluções estruturais que garantam a estabilidade da obra. Os alunos devem utilizar materiais alternativos e recicláveis, como papelão, madeira, tecido, plástico etc., tomando os cuidados necessários no manuseio de vidro e metal.

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Crédito da imagem: FG Trade – Getty Images

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