Abordar as músicas indígenas em sala de aula contribui para descentralizar modelos tradicionais da educação musical e ajuda a reconhecer a diversidade cultural brasileira. Segundo a musicista mestre em Antropologia e doutora em Pesquisa Artística Magda Pucci, estudar o assunto também permite entender as diferentes funções da música.

“Quando dizemos que cantar e tocar não constituem apenas expressões artísticas, significa que a música pode ter funções sociais, cosmológicas e espirituais. Há cantos ligados à cura, à proteção, aos rituais de passagem, à relação com os encantados, aos ciclos agrícolas e às narrativas ancestrais”, explica a pesquisadora.

Um segundo aspecto que pode ser abordado com crianças e jovens é que, em muitos povos indígenas, não existe uma separação rígida entre artista e comunidade.

“Cantar e tocar frequentemente são práticas coletivas, ligadas à participação social e espiritual do grupo. Assim, ajudam a questionar a lógica individualista de autoria tão presente na sociedade contemporânea”, complementa Pucci, que é diretora e fundadora do Mawaca, que pesquisa e performa músicas em mais de 20 línguas.

Para completar, trazer as músicas indígenas para a aula ajuda a contemplar a Lei nº 11.645/08, qie tornou obrigatório o ensino de história e culturas indígenas nas escolas brasileiras.

Confira, a seguir, a entrevista completa com a pesquisadora.

Instituto Claro:  Como podemos definir a música indígena com os alunos?

Magda Pucci: Gosto de falar “músicas indígenas” no plural, porque existem mais de 300 povos indígenas no Brasil, com línguas, cosmologias e práticas musicais muito distintas entre si.  As músicas indígenas ampliam nossa compreensão sobre as diferentes formas de se fazer música e de existir no mundo. Em muitos contextos indígenas, a música não aparece separada da vida cotidiana, como entretenimento ou espetáculo, mas ligada aos rituais, ciclos da natureza, cura, narrativas ancestrais e à transmissão de conhecimentos, embora haja, hoje, muitos jovens artistas indígenas participando de festivais, fazendo shows etc.

A escuta dessas musicalidades pode ser uma prática pedagógica?

Pucci: Sim. Não se trata de apreciar sonoridades “exóticas”, mas de exercitar outras formas de percepção e sensibilidade. As músicas indígenas são portas para escutar o coletivo, a repetição, o silêncio, os sons da floresta, os cantos ligados aos animais, aos rios e aos espíritos. Ajudam a questionar uma escuta acelerada e fragmentada típica da vida urbana contemporânea. Assim, proporcionam outras concepções de escuta, coletividade e de relação com a natureza, território, espiritualidade e memória.

Quais diferenciais podem ser abordados com a turma?

Pucci: Em muitos povos indígenas, não existe uma separação rígida entre artista e comunidade. Cantar e tocar frequentemente são práticas coletivas, ligadas à participação social e espiritual do grupo. A música pode ser entendida como uma forma de comunicação entre humanos, natureza e entidades espirituais. Isso permite trabalhar com os alunos reflexões sobre pertencimento, coletividade e outras formas de relação com o conhecimento e com a arte.

Dizer que cantar e tocar não constituem apenas expressões artísticas significa que a música pode ter funções sociais, cosmológicas e espirituais. Há cantos ligados à cura, à proteção, aos rituais de passagem, à relação com os encantados, aos ciclos agrícolas e às narrativas ancestrais. Em muitos contextos indígenas, música, dança, corpo e espiritualidade aparecem integrados.

Trazer músicas indígenas para a escola também contribui para descentralizar modelos tradicionais da educação musical que historicamente privilegiam a música erudita europeia?

Pucci: Sim. Isso não significa substituir uma tradição por outra, mas ampliar repertórios e reconhecer a diversidade cultural brasileira. O benefício é enorme: os alunos passam a compreender que existem muitos modos legítimos de fazer música, organizar sons, cantar, aprender e transmitir saberes.

Quais reflexões elas ajudam a promover com os estudantes?

Pucci: Sobre diversidade cultural, direitos dos povos originários, preservação ambiental, oralidade, ancestralidade e modos coletivos de criação. Também permitem discutir estereótipos presentes como a ideia de que os povos indígenas pertencem apenas ao passado ou formam uma cultura única e homogênea. Ainda ajudam a questionar a lógica individualista de autoria tão presente na sociedade contemporânea. Embora haja alguns gêneros musicais que têm autoria própria (como é o caso dos nambeko dos Paiter Surui), na grande maioria, os cantos pertencem à coletividade, aos ancestrais, ou foram recebidos em sonhos e experiências espirituais.

Quais atividades podem ser realizadas para trabalhar essa temática?

Pucci: Escutas comentadas, rodas de conversa, criação de mapas sonoros, pesquisa sobre diferentes povos indígenas, análise das relações entre música e território, experimentações vocais e corporais, além do contato com artistas indígenas contemporâneos.

Quais os cuidados ao abordar as músicas indígenas na escola?

Pucci: Evitar tratá-las como algo folclórico, homogêneo ou pertencente ao passado. É importante contextualizar os cantos, compreender que alguns possuem caráter ritual e não devem ser reproduzidos fora de contexto e evitar apropriações superficiais. Sempre que possível, é fundamental trazer vozes indígenas para o centro da discussão, levá-las para as salas de aula para conversar, contar sobre suas vidas, cantar. Evite reproduções caricatas ou fantasiosas de “danças indígenas” genéricas, ainda comuns nas escolas. Já está na hora de os professores pararem de fazer cocares de papel e penas artificiais coloridas, tendas de indígenas norte-americanos, de gritar ‘uh uh uh’ batendo na boca, imitando um indígena imaginário, além das famigeradas pinturas com tinta guache. Sabemos que muitos professores ainda o fazem por falta de formação ou desconhecimento sobre novos contextos da pedagogia decolonial, que desconstrói o mito do indígena genérico.

As músicas indígenas podem ser abordadas de forma interdisciplinar?

Pucci: Sim, elas dialogam diretamente com outras disciplinas além das artes, como história, geografia, literatura, sociologia e ciências ambientais. Permitem abordar temas como território, biodiversidade, oralidade, línguas indígenas, cosmologias e direitos culturais.

Quais materiais você indica para o professor?

Pucci: Há materiais produzidos pelos próprios indígenas, com narrativas sob outras perspectivas. Existem registros de cantos tradicionais realizados em parceria com comunidades indígenas e pesquisadores. O ideal é buscar fontes confiáveis e, quando possível, produções realizadas pelos próprios povos indígenas. No site do meu livro (www.cantosdafloresta.com.br), na parte pedagógica, sugiro atividades de contextualização

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