O rótulo de “fracasso escolar” frequentemente recai sobre estudantes com “tempos ou modos de aprendizagem singulares, projetando sobre eles a premissa de um futuro insucesso profissional”. A afirmação é da doutora em Educação e professora da Faculdade de Educação da Unicamp Lílian Cristine Ribeiro Nascimento, que descontrói essa ideia a partir da biografia de escritores consagrados que relataram dificuldades na escola durante a infância.

“Eles nos fazem questionar a afirmação de que o sucesso escolar seja o fator determinante na vida profissional futura ou que determine a própria relação do sujeito com a linguagem escrita. Poderíamos supor que, se fracassaram em seus primeiros contatos com a escrita, não fariam dela sua função laboral”, diz a especialista.

Nascimento recomenda a professores e alunos os relatos de quatro autores: Gabriel Garcia Márquez (“Viver para contar”), Graciliano Ramos (“Infância”) e Rubem Alves e Gilberto Dimenstein (autores de “Fomos maus alunos”).

“É possível refletir que dificuldades podem ser superadas pelo acolhimento e valorização das diferenças e dos diversos modos de aprender”, relata a professora, que escreveu sobre o assunto em sua tese de doutorado, “Memórias da escola: ressignificações do fracasso escolar”.

Em entrevista, ela relata um pouco mais sobre a trajetória desses escritores.

Instituto Claro: O que é o fracasso escolar?

Lilian Nascimento: É uma condição observada em crianças e jovens cujo desempenho diverge das expectativas pedagógicas para sua idade e nível de escolaridade. Tal fenômeno é uma construção social e política; ou seja, a percepção de suas causas e características muda conforme o contexto histórico. Atualmente, o estigma do fracasso recai sobre alunos que possuem tempos ou modos de aprendizagem singulares, projetando sobre eles a premissa de um futuro insucesso profissional. Essa dinâmica reflete a submissão da escola à lógica neoliberal, que prioriza a formação de indivíduos voltados à produtividade e ao lucro, em detrimento da valorização da diversidade de saberes e das diferentes formas de existir no mundo.

Em sua análise, quais são os principais fatores que levam um aluno a ser rotulado como “fracassado” no ambiente escolar?

Nascimento: Usarei uma explicação baseada nas ideias da psicanalista francesa Anny Cordié, no livro “Os atrasados não existem”, no qual descreve quatro causas para essa condição. A primeira é a inconformidade da escola à realidade cultural dos alunos de um meio sociocultural desfavorecido. Essa criança chega à escola e se depara com uma série de exigências que diferem do meio social em que vive. Um segundo ponto é a vergonha desencadeada por essa inadequação inicial, que pode ser superada dependendo do acolhimento que receber. Caso a vergonha se perpetue, a criança pode se defender rejeitando a aprendizagem ou desenvolvendo comportamentos agressivos. O terceiro aspecto são eventos traumatizantes que ela possa estar vivendo fora da escola, como: negligência, abandono, violência, adoecimento, morte ou prisão de um dos genitores, separação dos pais e até nascimento de um irmão. Por não saber como simbolizar essa angústia, pode fracassar na escola como um sintoma do seu sofrimento. Para completar, crianças com deficiência sensorial e intelectual podem ter modos de aprender diferentes e precisam de uma educação com profissionais especializados. Mas, atualmente, buscam-se na criança outros fatores orgânicos que expliquem o fracasso. Cada vez mais, elas são diagnosticadas com transtornos e medicalizadas para que se adequem aos ideais da escola e da sociedade. As causas são atribuídas a distúrbios e déficits ocasionados por perturbações biológicas. No entanto, esses fatores são também construções sociais e podem mascarar as verdadeiras causas do fracasso, de um sofrimento psíquico, como os descritos nos itens anteriores.

A experiência de escritores consagrados na escola pode ajudar professores e alunos a repensar o conceito de sucesso escolar?

Nascimento: Com certeza. Casos de alguns escritores ilustres fazem-nos questionar a afirmação de que o sucesso escolar seja o fator determinante na vida profissional futura, ou que determine a própria relação do sujeito com a linguagem escrita. Poderíamos supor que, se fracassaram em seus primeiros contatos com a escrita, não fariam da escrita sua função laboral. Contudo, a realidade de muitos escritores contraria essa suposição. Na minha tese, analisei a biografia de quatro que relatam terem vivenciado o “fracasso escolar” em seus anos iniciais na escola: Gabriel Garcia Márquez (prêmio Nobel de literatura), Graciliano Ramos, Rubem Alves e Gilberto Dimenstein.

As trajetórias desses autores podem ajudar a conscientizar professores sobre o tema?

Nascimento: Sim. Ao ler as biografias de Gabriel Garcia Márquez (“Viver para contar’), Graciliano Ramos (“Infância”), Rubem Alves e Gilberto Dimenstein (“Fomos maus alunos”), os professores podem refletir que dificuldades podem ser superadas pelo acolhimento e valorização das diferenças e dos diversos modos de aprender.

Quais pontos você destacaria sobre Gabriel García Márquez?

Nascimento: No livro “Viver para contar”, ele diz que demorou a aprender a ler e só quando foi para um colégio montessoriano conseguiu entender o código da escrita. Depois, tornou-se um leitor voraz, lendo tudo o que aparecia à sua frente. Na adolescência, seus professores foram seus aliados e, com sua benevolência, apoiaram o escritor, que lia outros livros escondido embaixo da carteira, ao invés daqueles propostos pela escola.

Quais pontos você destacaria sobre Graciliano Ramos?

Nascimento: Em seu livro “Infância”, ele conta que aprendeu a ler aos nove anos. Seu pai tentou ensiná-lo, usando a palmatória, assim como os professores também eram muito rígidos. Nenhum deles conseguiu ensiná-lo. O que despertou o interesse foi sua prima que lhe contava histórias que lia; por curiosidade, Graciliano se esforçou para ler. E conseguiu. Aos 12 anos, tornou-se diretor de um jornal da escola, no qual publicou sua primeira história: “O pequeno mendigo”, definindo de vez qual seria seu relacionamento com a escrita, bem diferente do que lhe impunham na escola.

Quais pontos você destacaria sobre Rubem Alves e Dimenstein?

Nascimento: Rubem Alves, no livro “Fomos maus alunos”, conta que era ridicularizado na escola por ser migrante: era mineiro e sua família se mudou para o Rio de Janeiro. Tinha um desinteresse pelos assuntos escolares que foi crescente, mas superou sua vergonha e se tornou escritor. No mesmo livro, Gilberto Dimenstein diz que não conseguia prestar atenção e não ficava parado na sala de aula.

Veja mais:

Como se sentem os alunos disléxicos na escola pública?

Dividir classes por nível de aprendizagem dos alunos é eficiente?

5 livros para entender a medicalização da educação

Saiba como identificar e ajudar um aluno com dislexia em sala de aula

Crédito da imagem: arquivo pessoal/divulgação

Talvez Você Também Goste

Veja 5 filmes para ensinar colonização das Américas

A partir das obras é possível debater estereótipos raciais e invisibilização de resistências indígenas e africanas

O que antigos jornais estudantis revelam sobre a escola e o Brasil

Publicações registram como estudantes vivenciaram momentos históricos e transformações sociais

Dividir classes por nível de aprendizagem dos alunos é eficiente?

Pesquisadores da educação pública debatem riscos e alternativas a essa prática

Receba NossasNovidades

Captcha obrigatório
Seu e-mail foi cadastrado com sucesso!

Receba NossasNovidades

Assine gratuitamente a nossa newsletter e receba todas as novidades sobre os projetos e ações do Instituto Claro.