A Copa do Mundo de 2026 chega com duas novidades: é a primeira vez na história do torneio que a organização será dividida entre três países, Canadá, Estados Unidos e México; e o número de países participantes foi expandido de 32 para 48.
Segundo a diretora da Faculdade de Artes, Ciências, Letras e Educação de Presidente Prudente (Faclepp), Maria Helena Pereira, o evento e suas particularidades em 2026 são uma oportunidade de trabalhar conceitos de geografia com alunos do ensino fundamental e médio.
“A geografia dedica-se ao estudo do espaço geográfico e das dinâmicas humanas que o transformam, e a Copa do Mundo atua como um cenário real para observar esses processos”, justifica.
“A realização da Copa do Mundo de 2026 de forma compartilhada entre Estados Unidos, Canadá e México oferece um cenário privilegiado para o estudo das dinâmicas contemporâneas da geografia política e das relações internacionais, especificamente, para aprofundar o conhecimento sobre os blocos econômicos de poder”, complementa.
Adaptação por etapa de ensino
É possível usar o maior torneio mundial de futebol para ensinar conceitos de geografia em diferentes etapas de ensino. “No ensino fundamental, o foco recai sobre o domínio de ferramentas cartográficas, o entendimento dos fusos horários e o reconhecimento da diversidade cultural”, resume Pereira.
“Já no ensino médio, o tema possibilita o estudo das relações geopolíticas, dos fluxos financeiros internacionais e dos efeitos ambientais e urbanos decorrentes de grandes projetos de construção, além do papel do esporte na reafirmação das identidades nacionais”.
Pereira também reforça o potencial do evento em ser trabalhado de forma interdisciplinar, especialmente com educação física, matemática, língua portuguesa, artes e história.
“A Copa do Mundo promove o encontro entre nações com diferentes trajetórias históricas, incluindo países que foram metrópoles e outros que foram colônias, o que permite analisar como essas relações do passado influenciaram a formação de seus territórios atuais. Um confronto entre uma seleção europeia e uma africana, por exemplo, pode ser o ponto de partida para o estudo dos processos de ocupação e independência, incentivando o aluno a observar como esses eventos históricos deixaram marcas na organização social e política de cada região”, opina.
A seguir, professores de geografia apontam sete possibilidades de levar o tema para as aulas das disciplinas.
1) Explore o álbum de figurinhas para discutir diferentes aspectos culturais e geográficos
“Para muitas crianças e jovens, embora hoje esteja menos acessível, o álbum de figurinhas foi o primeiro ‘livro’ de geopolítica. Por meio dele, aprendemos lições básicas, como a localização dos países, suas bandeiras, cores e aspectos culturais, sobretudo do país-sede, o que pode ser trabalhado com os estudantes”, aponta o professor do Departamento de Geografia da Universidade Federal de São Carlos (Ufscar-Sorocaba) Mateus de Almeida Prado Sampaio.
“Crie um álbum de figurinhas geográfico, indo além de colar fotos. Os estudantes podem elaborar fichas técnicas sobre a economia, Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) e clima de cada país”, acrescenta Pereira.
2) Escala geográfica
Doutorando em Geografia pela Universidade Estadual Paulista (Unesp), Igor Breno Barbosa de Sousa recomenda trabalhar o conceito de escala geográfica por meio da Copa do Mundo, analisando um fenômeno no espaço que pode ir do local ao global.
“Pode-se articular o nível local, que são as cidades-sede; o regional, que é a integração entre Estados Unidos, Canadá e México, historicamente vinculados ao Acordo de Livre Comércio da América do Norte (Nafta, na sigla em inglês); e o global, que é a atuação da Federação Internacional de Futebol (Fifa) e os fluxos internacionais de pessoas, capitais e informações.
3) Fluxos migratórios
A presença de atletas naturalizados ou descendentes de imigrantes nas seleções de diferentes países pode fornecer dados para o estudo dos movimentos populacionais. Os professores Mateus de Almeida Prado Sampaio, Igor Breno Barbosa de Sousa e Elvis Simões Pitoco da Silva são autores do artigo “Geografia dos campeões: migração, força de trabalho e nacionalidade de argentinos e franceses”, que propõe analisar com estudantes do ensino fundamental e médio os fluxos imigratórios dos dois países que venceram as últimas edições do torneio e se enfrentaram na final de 2022.
Sobre a Argentina, o grupo abordou a influência dos fluxos migratórios ocorridos entre 1880 e 1930, provenientes principalmente da Itália e da Espanha, assim como o deslocamento geográfico de profissionais para o exterior, com foco na concentração de atletas argentinos em clubes de países da Europa Ocidental como Espanha, Inglaterra e Itália.
“No contexto do futebol, o esporte na Argentina nasceu com a chegada dos imigrantes, sobretudo europeus, originando-se da cultura britânica de forma similar à história do Brasil. Os ingleses que vinham trabalhar nas construções de infraestrutura e ferrovias criavam campos de futebol para sua prática, sendo o esporte adaptado à cultura local (criollizado) junto com outras culturas europeias de italianos e espanhóis nos potreros (terrenos baldios) de Buenos Aires e Rosário”, apresenta o doutorando em Geografia pela Unesp Elvis Simões Pitoco da Silva.
Já sobre a França, foi analisado o país como sociedade multicultural, refletida em uma seleção composta por atletas com múltiplas origens e ascendências. Foram destacadas as relações do país com suas ex-colônias na África (como Senegal, República Democrática do Congo, Camarões, Mali e Argélia) e seus territórios ultramarinos no Caribe (Guadalupe e Martinica).
“Por exemplo, já na Copa do Mundo de 2026, haverá França e Senegal, em uma reedição do confronto de 2002, quando os senegaleses venceram por 1 a 0. Nesse contexto, não se trata apenas de uma simples partida da fase de grupos, mas de um confronto que coloca em destaque vínculos históricos e geográficos entre o antigo colonizador e a ex-colônia”, aponta o mestrando em Geografia pela Unesp Arthur Massagardi.
“No caso do mapeamento da origem dos jogadores, usa-se um mapa-múndi no qual os alunos podem ligar os atletas de uma determinada seleção aos seus países ou cidades de nascimento, visualizando os fluxos migratórios”, propõe Pereira.
4) Geopolítica dos países participantes
Na Copa do Mundo de 2026, alguns confrontos chamam atenção não apenas pelo esporte, mas pelo contexto geopolítico.
“A seleção do Irã enfrentará a Bélgica, membro da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), a Nova Zelândia, aliada dos Estados Unidos e do Reino Unido, e o Egito, de maioria árabe sunita, permitindo discutir alianças, tensões e diferenças históricas no Oriente Médio”, indica Sampaio.
Outro ponto relevante são as dinâmicas contemporâneas da geopolítica, especialmente em relação às migrações e políticas de controle de fronteiras.
“O contexto dos Estados Unidos, marcado por debates sobre imigração e episódios de xenofobia, pode impactar diretamente o evento, mostrando como decisões políticas nacionais influenciam fenômenos globais”, diz Sousa.
Segundo Silva, também pode ser problematizado por que a Europa possui mais representantes do que a África, sendo que ambos os continentes possuem número semelhante de países. “Essa diferença revela desigualdades históricas, institucionais e econômicas que também se manifestam no futebol global”, reforça.
“Por fim, a Copa de 2026 evidencia o esporte como instrumento de projeção internacional e disputa simbólica entre nações. Trata-se de um fenômeno que articula diferentes agentes: Estados, organizações internacionais e capital privado em múltiplas escalas, revelando tensões, interesses e estratégias que caracterizam a geopolítica contemporânea”, lembra Massagardi.
5) Debate sobre as vantagens e desvantagens de sediar o evento
Os estudantes, mediados pelo professor, podem discutir como a realização de grandes competições mobiliza investimentos em infraestrutura e impacta a economia, o meio ambiente e as diferentes populações dos países-sede.
“Para isso, é preciso levar em conta o contexto político daquele momento, as manifestações, a utilização do dinheiro público, os simbolismos e o patriotismo”, recomenda Silva.
Pereira indica uma simulação de conferência de imprensa como proposta de atividade. “Os estudantes assumem papéis de representantes de países para discutir impactos socioambientais e econômicos da construção de estádios”, sugere.
6) Cartografia e fusos
A Copa do mundo permite analisar mapas para localizar os países-sede, identificar continentes, distâncias e deslocamentos das seleções, além de compreender como os fusos horários influenciam os horários dos jogos e transmissões em diferentes partes do mundo, tornando o conteúdo mais concreto e conectado ao cotidiano dos alunos.
“Pode-se relembrar a Copa do Mundo de 2002, ocorrida no Japão e na Coreia do Sul, na qual os jogos ocorriam por lá durante o dia, mas no Brasil víamos à noite ou de madrugada”, recomenda Silva.
7) Globalização
Outro conceito que pode ser ensinado aos alunos por meio do torneio é a globalização, ao evidenciar a circulação internacional de pessoas, capitais, informações e culturas, visível na presença de torcedores de diferentes origens e na atuação de empresas e marcas globais.
“O simples fato de as partidas serem transmitidas em tempo real para todo o planeta são reflexos da globalização cultural e econômica, apresentando um mundo cada vez mais conectado”, lembra Sampaio.
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Crédito da imagem: Lighthouse Films – Getty Images