A arte contemporânea é aquela produzida desde a segunda metade do século passado – a partir de 1960 – até hoje. “Constitui a arte de agora, a arte do nosso tempo”, explica a coordenadora do serviço de educação do Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo (MAC USP), Andrea Amaral Biella.
“Ela é tão diversa quanto o mundo atual. Não há restrições de suportes, materiais ou abordagens, o que faz dela um grande espaço de experimentação e possibilidades, diferentemente das artes visuais produzidas em outros períodos históricos”, resume a gerente de ação educativa da Pinacoteca de São Paulo, Gabriela Aidar.
Segundo Aidar, um potencial educativo da arte contemporânea está nas possibilidades de experimentação e na capacidade de provocar reflexões sobre questões do tempo presente. “Muitas obras dialogam diretamente com o contexto em que são produzidas e com os debates da sociedade”, lembra.
Para a educadora do MAC USP Maria Angela Cerri Francoio, as obras contemporâneas provocam o espectador a assumir uma postura ativa e crítica e estimulam a revisão da história tradicional da arte”, destaca.
“Geralmente, as manifestações não são óbvias e exigem uma entrega para essa experiência”, adiciona a diretora técnica do Instituto de Arte Contemporânea (IAC), Marilúcia Bottallo.
Apresentação na escola
Segundo Francoio, abordar a arte contemporânea na escola exige que os estudantes acessam diferentes linguagens da arte; não somente visuais, mas também música, literatura, cinema, teatro. “Também é indicado apresentar arte produzida pelos artistas e grupos indígenas, afro-brasileiros, coletivos artísticos, artistas regionais, dentre outros”, acrescenta.
“É importante que os alunos saibam, por meio da experiência, que a arte é um modo de ver o mundo; e que, por isso, há tantas manifestações diferentes. Talvez, tão diferentes quanto as pessoas são entre si”, lembra Bottallo.
E, como a arte contemporânea fala sobre diversidade, um cuidado é deixar as crianças expressarem suas opiniões. “Deve-se conversar sobre a diversidade de comentários e a exploração deles de forma inclusiva, amorosa”, reforça Biella.
Para ela, a arte contemporânea ajuda a perceber criticamente o mundo e a se ver. “Possibilita formar cidadãos com mais autonomia de pensamento”.
“Isso poderá ajudá-los na sua autoexpressão, na formação de identidade e na compreensão de que o mundo é diverso e que isso é bom. A arte permite que entremos em contato com traços de humanidade viscerais e complexos, sendo uma experiência transformadora”, enfatiza Bottallo.
Importância das atividades práticas
Para os anos iniciais do ensino fundamental, Francoio recomenda expor obras nas paredes da classe, apenas como estímulo visual. “As crianças naturalmente vão conversar sobre o que estão vendo”. Pode incluir rodas de conversa para ampliar os olhares sobre as imagens e o vocabulário, além de visitas a museus, institutos e centros culturais.
“Com alunos mais jovens, em vez de priorizar questões temáticas complexas, é possível trabalhar aspectos mais formais, como formas, cores e combinações entre elementos visuais”, orienta Aidar.
Já nos anos finais e ensino médio, Aidar recomenda criar vínculos entre as obras apresentadas com a vida cotidiana dos jovens. “Ou seja, perguntar o que eles veem nelas, como interpretam, de que maneira elas se relacionam com suas experiências”.
“Na arte contemporânea, é comum a mistura de linguagens e referências de diferentes períodos históricos. Assim, também é indicada a leitura de imagem: observar atentamente uma obra e discutir seus aspectos formais e interpretativos”, diz Aidar.
Biella destaca a importância de os alunos colocarem a mão na massa em atividades práticas. “A experiência é fundamental para a compreensão das produções artísticas”, afirma.
“As atividades práticas são fundamentais porque a arte contemporânea abre muitas possibilidades de experimentação com diferentes materiais e técnicas. Essa liberdade criativa permite que os alunos explorem ideias próprias e desenvolvam novas formas de expressão”, complementa Aidar.
Como apoio, o professor pode utilizar os materiais educativos disponíveis em site de museus e instituições culturais. O site da Pinacoteca, por exemplo, oferece uma seção com conteúdos voltados a educadores, com reproduções de obras e sugestões de uso pedagógico em sala de aula.
A seguir, confira sete atividades que ajudam a apresentar arte contemporânea na educação básica.
1) Retratos simbólicos
A atividade do educativo da Pinacoteca de São Paulo propõe um jogo de criação de símbolos inspirado na obra do artista Leonilson, que utilizava imagens simbólicas para expressar sentimentos e ideias, especialmente ligados ao amor e à identidade. Em grupos, os alunos respondem a perguntas pessoais enquanto os colegas criam um único desenho-símbolo que represente sua personalidade. A proposta estimula sociabilização, pensamento abstrato e a relação entre arte, símbolos
2) Coleta de narrativas
A atividade, proposta em diálogo com obras de Adriana Varejão, como “Ruína Brasilis” (2021) e “Proposta para uma catequese” (2014), é sugerida em material educativo da Pinacoteca de São Paulo e consiste em uma gincana de entrevistas. Divididos em grupos, os alunos sorteiam perguntas e entrevistam colegas e funcionários da escola sobre temas ligados à formação da cultura brasileira. As questões abordam como europeus, povos indígenas e africanos escravizados contribuíram para a sociedade, além de discutir ideias de direitos, deveres, privilégios, preconceitos, dominação e resistência ao longo da história do país. As respostas são reunidas e compartilhadas com a turma, estimulando reflexões sobre colonização, identidade e diferentes visões sobre o Brasil. A atividade pode ainda resultar em produções artísticas, como colagens, desenhos ou pinturas coletivas inspiradas nas discussões.
3) Jogo Corpo-Bicho
Proposta da Pinacoteca de São Paulo, inspirada na série “Bichos”, da artista Lygia Clark, busca aproximar os alunos da ideia de arte participativa e da experiência com o corpo. Em roda, um participante inicia um movimento corporal — como dobrar o braço, agachar ou girar o corpo — explorando articulações, direções e ritmos. Esse gesto é repetido até ser “passado” a outro colega apenas por meio do olhar. A pessoa escolhida reproduz o movimento e, sem interromper a dinâmica, o transforma em um novo gesto, que será novamente transmitido a outro participante.
4) Criar obra a partir de um acontecimento na comunidade
Como a arte contemporânea tem como característica dialogar com questões do tempo presente, os alunos podem criar uma obra após a discussão sobre um acontecimento ou problema que afeta o bairro e a comunidade escolar. “Pode ser um córrego poluído ou um acontecimento que afetou a vida das pessoas”, afirma Francoio.
“É preciso reunir o grupo para discutir sobre essas questões e apresentar propostas de soluções. Além disso, podem-se pesquisar artistas como Frans Krajcberg e Guto Lacaz durante esse processo, apresentando produções contemporâneas brasileiras pertinentes ao contexto”, acrescenta.
5) Horta e arte
Outra possibilidade de trabalho é criar uma horta com os alunos e vincular o processo à apresentação das obras de artistas brasileiros. “Fernando Limberger pode ser estudado durante esse processo de cultivo na escola”, recomenda Biella.
“Registros do desenvolvimento da horta, dos brotos, por meio de desenhos, podem ser propostos, com o uso do lápis grafite. Ainda podem ser feitos registros fotográficos e um mapa da evolução das sementes e mudas”, indica Biella.
6) O artista mora ao lado
A atividade proposta no guia “Arte contemporânea – Uma introdução para sala de aula”, da Casa Fiat de Cultura, sugere que os alunos mapeiem artistas e artesãos que vivem ou trabalham no entorno da escola. O objetivo é estimular o reconhecimento e a valorização da produção cultural da própria comunidade. Eles podem realizar uma entrevista sobre sua história de vida, inspirações, técnicas e materiais utilizados.
7) Criar uma obra inspirada em outra
“Após a análise de uma obra contemporânea por parte dos alunos, o professor pode propor uma atividade prática inspirada nela. A experimentação pode ser realizada com materiais diversos, incentivando os alunos a explorar diferentes técnicas e suportes. Essas experiências ajudam a ampliar o repertório cultural deles”, recomenda Aidar.
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Crédito da imagem: FG Trade – Getty Images