Leonardo Valle

Tradição nas universidades e faculdades brasileiras, o trote é o momento de recepção dos calouros, conhecidos como bixos, pelos alunos veteranos. Em alguns casos, ele pode ser associado a brincadeiras humilhantes, desagradáveis ou sem consentimento dos participantes – como no caso do corte ou raspagem de cabelo.

Em seu primeiro ano como veterano de relações públicas pela Faculdade Paulus de Tecnologia e Comunicação (Fapcom), Rogério Ribeiro da Silva quis fazer algo diferente.

“Eu nunca concordei com o trote convencional, aquelas brincadeiras com tintas e pedir dinheiro em semáforo. Quando entrei na faculdade, não participei do meu e vi outro grupo fazendo um trote solidário, que achei uma alternativa interessante e bem mais a minha cara”, relata.

“Quando eu virei veterano, optei pela doação de sangue. Para a comunidade acadêmica, é um momento que integramos os bixos, podemos conversar com eles sobre a faculdade. E estamos contribuindo com a sociedade no geral”, acrescenta.

Reitora da UniNorte, Nilzete Teixeira Santiago conta que a instituição também optou pelo trote solidário. Lá, cada curso organiza suas ações, como a arrecadação de alimentos para iniciativas que estão em um raio de 2km.

“Também sugerimos doação de sangue, cadastramento para doação de medula óssea, captação de doações, ações para ‘adotar’ uma praça ou escola, ação cultural ou artística, doação de material de higiene pessoal para idosos, oficinas para a comunidade Quilombola, entre outros”, descreve.

Olhar social

Em São Paulo, a Fundação Armando Alvares Penteado (Faap) também conseguiu substituir o trote convencional pelo solidário. Para a coordenadora da Faap Social, Andrea Sendulsky, um dos segredos foi envolver os alunos veteranos, que ajudam na organização das atividades.

“Sem eles, a ação não teria graça e, provavelmente, aconteceria por meio de outras atividades na rua”, assinala.

Doação de sangue, de mechas de cabelo e de alimentos são opções para o trote solidário (crédito: divulgação Faap)

 

Entre as opções previstas para os calouros está a doação de livros e de mechas de cabelo para o Graacc, hospital que acolhe crianças com câncer, fazer perucas.

“Além disso, há uma festa de integração com o ingresso revertido para o Graacc e a apresentação de possibilidades de ações voluntárias em outras instituições ao longo do ano”, complementa.

De acordo com a coordenadora, o grande objetivo do projeto é sensibilizar o aluno para questões sociais e voluntariado. “Desde a chegada na faculdade eles passam a ter consciência social e contato direto com a comunidade”, ressalta.

Aluna de direito da Faap e ex-caloura do trote solidário, Mariana Coelho Prado hoje trabalha na organização desses eventos.

“Foi uma das coisas que me cativou, porque tinha receio com trote convencional”, diz. “Como veterana, decidi contribuir porque gostei do modelo. Ano passado, por exemplo, pude doar cabelo, que era algo que tinha vontade”, confessa.

Engajando os alunos

Para quem deseja organizar um trote solidário na sua faculdade, Santiago indica conhecer o entorno.

“Identifique como a instituição pode contribuir com o crescimento dele”, recomenda. “Faça parcerias com os líderes da comunidade, organize um calendário de ações e não realize iniciativas somente pontuais, mas continuadas”, diz.

Trote solidário é forma de instituição de ensino contribuir com a comunidade do entorno (crédito: divulgação UniNorte)

 

“Sempre tem algum lugar precisando de alguma coisa, como roupas ou brinquedos ou um banco de sangue na proximidade. Neste último caso, tem como fazer parcerias, conseguir transporte gratuito etc.”, orienta Silva.

Para a doação de sangue, ele lembra que é importante orientar os alunos sobre os pré-requisitos para participar. “Da primeira vez, muitos alunos que foram até o hemocentro não puderam doar porque não estavam aptos”, relembra.

Outra dica é associar as festas e momentos de interação dos estudantes ao trote solidário.

“Organizamos um evento chamado Engorda Bixo, um open de comidas para os alunos conversarem e também para incentivá-los a participar da atividade. A ideia do nome e do formato do evento é porque, para doar sangue, a pessoa precisa estar bem alimentada”, associa.

Veja mais:
Jogos cooperativos desafiam a exercitar a cidadania
Doação de sangue: o que explica a baixa adesão no Brasil?

Crédito da imagem principal: divulgação Faap

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