O fim da escravidão no Brasil ocorreu em 13 de maio de 1888, com a assinatura da Lei Áurea. Durante as quatro décadas que antecederam esse marco, porém, a classe teatral se mobilizou em prol da campanha abolicionista.

“Formada por artistas, dramaturgos, críticos e empresários teatrais, ela organizou espetáculos com renda revertida para a libertação de escravizados. Os edifícios teatrais foram cedidos para conferências de líderes políticos abolicionistas, sempre bastante concorridas. E os dramaturgos escreveram peças de forte teor crítico, reivindicando o fim da escravidão, tanto em falas de personagens quanto na própria ação dramática posta em cena”, relata o livre-docente em Literatura Brasileira e docente da Universidade de São Paulo (USP) João Roberto Faria. Ele é autor do livro “Teatro e Escravidão no Brasil” (2022).

“Já no final da década de 1850 e nas duas seguintes, com o avanço do pensamento liberal, multiplicam-se as peças que fazem a crítica da escravidão. Enfatizam-se a condenação da violência física contra o escravizado e os crimes de natureza sexual”, aponta.

A imprensa também teve um papel decisivo ao comentar as peças e expor os enredos que comoviam os espectadores.

“É possível também avaliar a repercussão de determinados espetáculos pelo número de artigos publicados nos jornais, cartas de leitores e pedidos de espectadores para reapresentações. Caso de “A Cabana do Pai Tomás”, em 1876, que emocionou o público do Rio de Janeiro e, depois, o Brasil inteiro”, acrescenta o pesquisador.

Instituto Claro: Qual foi o papel do teatro brasileiro na luta abolicionista no século XIX?

João Roberto Faria: A campanha abolicionista, durante o decênio de 1880, envolveu praticamente toda a sociedade brasileira. Exceto os grandes fazendeiros, ninguém mais apoiava a nefasta instituição do cativeiro, motivo de vergonha para o país, o único na América do Sul que ainda a mantinha. A classe teatral – formada por artistas, dramaturgos, críticos e empresários teatrais – organizou espetáculos com renda revertida para a libertação de escravizados. Os edifícios teatrais foram cedidos para conferências de líderes políticos abolicionistas, sempre bastante concorridas. E os dramaturgos escreveram peças de forte teor crítico, reivindicando o fim da escravidão, tanto em falas de personagens quanto na própria ação dramática posta em cena.

Como as peças se posicionavam contra a escravidão?

Faria: De um modo geral, artistas, dramaturgos e até mesmo empresários teatrais se posicionaram contra a escravidão desde o final da década de 1830. Mas nessa altura pouco puderam fazer os escritores. Uma forte censura impedia que críticas muito contundentes fossem levadas à cena. Martins Pena conseguiu com suas comédias expor e condenar o tráfico ilícito de africanos escravizados, bem como o abuso do castigo físico dos proprietários. Mas não conseguiu mudar o entendimento da grande maioria da população, para quem a escravidão era uma instituição natural e necessária. O panorama muda com o fim do tráfico, em 1850. Já no final dessa década e nas duas seguintes, com o avanço do pensamento liberal, multiplicam-se as peças que fazem a crítica da escravidão, abordando situações e temas variados. Enfatiza-se a condenação da violência física contra o escravizado e dos crimes de natureza sexual. A imprensa tem papel decisivo ao comentar as peças e expor os enredos que comoviam os espectadores.

Qual era o impacto do teatro na sociedade naquele período?

Faria: Em uma sociedade em que o teatro era assunto de primeira página dos jornais, só podemos imaginar que o impacto não era pequeno. Os espetáculos eram comentados pelos críticos teatrais, que em geral faziam o resumo da peça e em seguida comentavam o trabalho dos intérpretes. Machado de Assis, quando jovem, foi crítico teatral e deu muita atenção às peças que faziam a crítica da escravidão. É possível também avaliar a repercussão de determinados espetáculos pelo número de artigos publicados nos jornais, cartas de leitores e pedidos de espectadores para reapresentações. Um bom exemplo de sucesso e de peça que impactou a sociedade se deu com “A Cabana do Pai Tomás”, em 1876, que emocionou o público do Rio de Janeiro e, depois, o Brasil inteiro, tendo sido vista por dezenas de milhares de pessoas.

João Roberto Faria, autor do livro “Teatro e Escravidão no Brasil” (Foto: arquivo pessoal)

Quais peças você destacaria que tinham conteúdos abolicionistas?

Faria: Antes de 1879, quando de fato começa a campanha abolicionista, algumas peças já defendiam o fim da escravidão. A primeira delas, de Castro Alves, “Gonzaga ou a Revolução de Minas” (1867) é um verdadeiro libelo, graças ao estilo grandiloquente do autor, que faz do poeta Gonzaga seu porta-voz.

Também defende o fim imediato da escravidão a peça “O Escravo Educado” (1870), de Brício Cardoso, publicada na Bahia.

Já a partir de 1880 foram escritas cerca de 50 peças teatrais em que há algum conteúdo abolicionista. A maior parte foi representada, mas não publicada. Não é fácil escolher algumas poucas para destacar. Mas eu começaria por três peças de Artur Azevedo: “O Liberato” (1881), “O Escravocrata” (1884) – esta escrita em parceria com Urbano Duarte – e “O Carioca” (1886). A primeira é uma comédia amarga que mostra uma família dividida entre dar ou não a liberdade a um velho escravo que está gravemente doente. A segunda é um drama pungente, que aborda as consequências de um antigo relacionamento de um escravizado com sua senhora, uma mulher casada. A terceira é uma revista de ano, cujo ponto de partida foi o crime cometido por uma senhora da sociedade, que açoitou duas escravizadas, uma delas vindo a falecer. Também merece destaque, pelo sucesso que obteve em todo o Brasil, com a atriz-mirim Julieta dos Santos, o drama “A Filha da Escrava”, de Artur Rocha, autor gaúcho afrodescendente. É comovente a história da menina criada pelos avós, que descobre ser filha da escrava da casa. Do mesmo autor pode-se ler “O Filho Bastardo” e “Uma Cena do Futuro”.

Quais autores você destacaria?

Faria: Em primeiro lugar, Martins Pena, em cujas comédias de costumes podemos ver o homem escravizado na roça e na cidade. A peça que melhor revela sua crítica à escravidão é “Os Dois ou o Inglês Maquinista” (1845).

Os demais: José de Alencar, com a comédia “O Demônio Familiar” (1857) e o drama “Mãe” (1860); Agrário de Menezes, com o drama “Calabar” (1858); Paulo Eiró, com o drama “Sangue Limpo” (1861); Maria Ribeiro, com o drama “Cancros Sociais” (1865); Castro Alves, com o drama “Gonzaga ou a Revolução de Minas” (1867); Brício Cardoso, com o drama “O Escravo Educado” (1870); João José de Brito, com o drama “Rogério” (1873); Artur Rocha, com os dramas “O Filho Bastardo” (1876), “José” (1878), “A Filha da Escrava” (1883) e “Uma Cena do Futuro” (1884); Artur Azevedo, com a comédia “O Liberato” (1881), o drama “O Escravocrata” (1884) e a revista de ano “O Carioca” (1886); Joaquim Nunes, com o drama “Corja Opulenta” (1884). Todas essas peças podem ser lidas no site “Raros e Inéditos”.

O que a imprensa dizia na época sobre essas peças?

Faria: A imprensa em geral foi simpática às peças que faziam a crítica à escravidão e a defesa da abolição. Centenas de artigos foram publicados nos jornais das nossas principais cidades, nos quais eram frequentes os elogios ao posicionamento político dos dramaturgos. O autor de um artigo podia até fazer restrições a aspectos formais ou ‘conteudísticos’ de uma determinada peça, mas sempre havia algumas linhas para destacar a validade da mensagem humanitária. Machado de Assis fez vários comentários com essa característica em seus textos jornalísticos.

Quais foram as fontes da sua pesquisa para escrever o livro “Teatro e Escravidão no Brasil”?

Faria: Minha principal fonte de pesquisa foram os jornais e as peças representadas entre 1838 e 1888. Graças à hemeroteca da Biblioteca Nacional, tive acesso a jornais de todo o Brasil. Pude estudar a recepção crítica que as peças e os espetáculos tiveram e avaliar o quanto contribuíram para formação de uma mentalidade antiescravista e depois abolicionista entre os brasileiros. Tive alguma dificuldade para localizar algumas das peças que só foram editadas no século XIX. Outras só foram representadas e permaneceram inéditas. Mas aos poucos fui reunindo material suficiente para estudar o envolvimento do teatro brasileiro com a escravidão e a abolição. Servi-me, claro de vasta bibliografia sobre a história do Brasil e do teatro brasileiro, estudos críticos e teóricos.

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Crédito da imagem: arquivo pessoal

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