Pacientes com Síndrome de Down – também conhecida como trissomia do cromossomo 21 (T21) – possuem características que exigem cuidados e adaptações no atendimento odontológico.

“Uma característica marcante dessa população é a diminuição do tônus muscular (hipotonia muscular), que afeta todo o corpo, incluindo rosto, face e boca. Muitos bebês apresentam protrusão da língua e mantêm a boca entreaberta. Se esse hábito se mantém ao longo da vida, o paciente pode respirar pela boca, causando problemas respiratórios e na qualidade do sono”, explica a especialista em odontologia para pacientes com necessidades especiais Laís David Amaral.

Contra o problema, usa-se a chamada placa palatina de memória a partir dos três meses de idade. “Ela não tem função ortopédica corretiva, mas estimula o bebê a fechar os lábios, posicionar a língua e respirar pela boca, sendo usada 20 minutos por vez”, relata.

Outro aspecto anatômico é a instabilidade na região cervical. “Assim, eles não devem permanecer muito tempo na cadeira odontológica com a boca aberta. O atendimento deve ser mais curto e com a região do pescoço protegida por almofada”.

Além disso, a dentista explica que a doença periodontal é mais frequente em pessoas com T21 porque elas podem apresentar um sistema imunológico mais frágil e dificuldades motores que atrapalham a higiene bucal.

“A presença de restos alimentares, associada a uma resposta inflamatória mais intensa do organismo, favorece o desenvolvimento da doença periodontal”.

“Outro fator de atenção são as cardiopatias congênitas, o que exige a administração de antibióticos durante procedimentos com sangramento para reduzir o risco de infecção bacteriana que pode atingir o coração”, completa a dentista.

Filme e conversa

No plano comportamental, também são necessárias estratégias de preparo do ambiente para que seja acolhedor e menos rígido que um consultório tradicional.

“É importante conversar, cantar, explicar cada etapa do procedimento e oferecer recompensas simbólicas ao final do atendimento, assim como utilizar uma comunicação lúdica, com mais afeto, escuta e paciência”, orienta.

Mãe de João, 19 anos, Mara Almeida conta que a adaptação do filho ao dentista foi gradual. “Sempre respeitando seu tempo de tolerância ao procedimento, que é em média de 20 minutos. Geralmente, toda situação nova gera ansiedade e desconforto. Por isso, é preciso ir acostumando aos poucos”, comenta.

Segundo ela, as estratégias para deixar o atendimento confortável ao paciente têm início dias antes, com uma explicação detalhada do que será realizado durante a consulta.

“A abordagem inicial do profissional e da família, sempre com bom humor e carinho e mostrando o lado bom das situações novas que despertam ansiedade, ajuda a estabelecer um elo de confiança para que o paciente consiga enfrentá-las”, destaca Almeida.

Joana Paula Siqueira Cardoso Marçal é mãe de Caio, três anos, que frequenta um dentista especializado em T21 desde os sete meses de vida.  Para ela, o acolhimento já na recepção, e elementos de entretenimento como filmes, livros e tapete magico, são fundamentais para proporcionar conforto e possibilitar que o atendimento aconteça.

“O Caio, algumas vezes, é resistente a deitar na cadeira, mas colocamos um filme e conversamos até a doutora conseguir fazer o atendimento”, revela.

Quando essas abordagens são insuficientes ou quando há dor intensa e necessidade de procedimentos longos, pode entrar em cena a sedação.

“Optamos pela sedação em caso de fratura e em uma situação na qual meu filho estava com vários ‘dentes de leite’ que não caíam, apesar de os dentes permanentes já terem nascido”, compartilha Almeida.

Já a comunicação lúdica ajuda a driblar a resistência à escovação em casa. “Fazemos sempre após as refeições, com ajuda do irmão, e brincamos que estamos buscando a formiguinha na boquinha, interagindo, cantando e muitas vezes escovando junto com ele”, descreve Marçal.

Estrutura do SUS

Ainda são poucos os dentistas especializados em pacientes com necessidades especiais, nome dado pelo Conselho Federal de Odontologia (CFO) aos profissionais que atuam com pessoas com Síndrome de Down, autistas, vivendo com HIV, com diabetes, entre outras populações. Segundo a organização, apenas 1046 estão cadastrados em todo o país. “Ainda são poucas as faculdades que oferecem formação em odontologia para atender esse público”, explica Amaral.

Outro problema é que esses profissionais estão concentrados na atenção secundária do Sistema Único de Saúde (SUS), nos Centros de Especialidades Odontológicas (CEOs),

“Muitos pacientes poderiam ser atendidos tranquilamente na atenção básica, como em postos de saúde, mas acabam sendo encaminhados para a atenção especializada secundária sem necessidade, somente por serem T21. Isso sobrecarrega o sistema e atrasa o atendimento deles”, analisa a dentista.

“Além disso, outro desafio é ampliar o acesso ao atendimento em nível terciário, que acontece em hospitais e envolve procedimentos com sedação e anestesia geral. A fila de espera é grande”, explica Amaral.

“Também é importante que o paciente continue sendo acompanhado pela atenção primária após tratamentos mais complexos, garantindo manutenção e prevenção ao longo da vida”, finaliza.

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Crédito da imagem: Luis Alvarez – Getty Images

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