O processo de urbanização das cidades brasileiras, em linhas gerais, não priorizou os rios. A partir da década de 30, dirigentes municipais e estaduais optaram por canalizar e cobrir de asfalto muitas das águas que cortavam os municípios para promoverem o desenvolvimento urbano. Achavam que, com isso, domariam as cheias.

“Além disso, a medida estava alinhada com um modelo de cidade que priorizava o carro e o transporte individual no lugar do coletivo. Cedia, também, aos interesses mobiliários”, contextualiza o arquiteto e urbanista José Bueno, fundador do projeto Rios e Ruas, ao lado do geógrafo Luiz de Campos Junior.

O riacho Água Podre em local próximo onde cruza com a avenida Rio Pequeno, no Butantã, em São Paulo (crédito: reprodução Facebook de Rios e Ruas)

 

Para completar, os poucos rios que sobraram passaram a receber esgoto e tiveram suas margens ocupadas com casas, o que também favoreceu as enchentes. “Quando o rio inunda, a várzea naturalmente alaga. Ou seja, não é o rio que transborda e atinge uma avenida. Ela é que foi construída dentro dele”, diferencia Junior. O resultado são casas alagadas por uma água contaminada por esgoto, assim como carros e imóveis destruídos.

Revitalização traz benefícios

Descanalizar e despoluir os rios urbanos trariam diversos benefícios para as cidades. As medidas, que já são realidade na Europa, mobilizam hoje os ativistas do Brasil. “A primeira vantagem seria em relação às enchentes. O asfalto é impermeável. Quando chove, a água corre para os dutos e acaba nos rios. Sem vazão, acontece a inundação”, destaca Junior. “Um bom exemplo é o Rio Ipiranga, palco da Proclamação da Independência. Ele era um córrego pequeno na época de Dom Pedro. Hoje, após sua canalização e com a cidade impermeável, tornou-se um rio robusto”, conta.

Um segundo aspecto é que esses cursos de água poderiam ser utilizados como recursos hídricos em épocas de crise, como aconteceu em 2015, no estado de São Paulo. Além disso, beneficiariam a saúde dos habitantes da cidade. “Os rios possuem predadores naturais de mosquitos, como peixes e sapos. Isso ajudaria no controle de doenças, como a dengue”, lembra o ativista ambiental e criador da página de Facebook “Existe água em SP”, Adriano Oliveira Sampaio. “O asfalto aquece e deixa o clima da cidade mais quente e seco. Os espelhos d’águas promoveriam a umidificação do ar”, lembra Junior.

Já para Bueno, os próprios habitantes seriam os mais beneficiados. “Os rios permitiriam a criação de parques nas suas várzeas. Assim como acontece na Europa, poderiam ser locais de encontro, de descanso e de passeios. Uma forma do cidadão se apropriar da cidade novamente e torná-la mais humana”, completa.

Conscientização

O que seria necessário para despoluir e descanalizar os rios da cidade? Para Bueno, a primeira medida é a conscientização dos moradores, que ainda entendem os rios como meros dutos de esgoto e como mais vias para carros. Com isso, não enxergam vantagens em sua abertura.

“Muitos acham que a contaminação das águas vem de favelas, quando é o próprio poder público que joga e incentiva, por meio das suas políticas, o esgoto nos rios”, lembra. “Enquanto as pessoas acharem que a rede fluvial é sinônimo de local para jogar resíduos, dificilmente se mobilizarão para defender suas reaberturas”, conta.

Para ele, a mobilização popular é necessária porque a descanalização de rios atinge o interesse econômico de grandes setores. “Essas áreas são utilizadas pelas construtoras para erguerem empreendimentos, que por sua vez pagam IPTU ao município. Ou são utilizadas como via para carros, o que remete ao interesse das montadoras, do setor petroleiro, entre outros. Por isso, digo que o único que se beneficia com os rios é o ser humano, que ganha qualidade de vida”, lembra. Segundo Jr., tecnologia e infraestrutura não seriam um problema. “Fizemos grandes obras para canalizar e desviar cursos dos rios há 80 anos. O problema, mesmo, é cultural”, defende.

Para promover a conscientização dos habitantes das cidades, o projeto Rios e Ruas busca aproximá-los dos rios por meio de exposições, passeios ciclísticos, materiais informativos, entre outros. Além disso, a dupla de pesquisadores mapeia os rios canalizados de São Paulo, que ultrapassam 200.

Passeios auxiliam população a mudar a percepção que tem sobre os rios das cidades (crédito: reprodução Facebook de Rios e Ruas)

 

“A ideia não é começar despoluindo o rio Tietê, mas os córregos pequenos, de 100 ou 200 metros. Assim, as pessoas irão olhá-los e pensar: ‘se é possível fazer nesse rio, podemos fazer naquele outro’ e assim por diante. É um trabalho de formiguinha”, revela.

Já Sampaio criou a página “Existe água em SP” para relatar suas buscas pelas nascentes dos rios em São Paulo. “Eu estudo as bacias hidrográficas, vou à campo e ando de 10 a 20 km, onde converso com moradores sobre sua relação com os rios. Quando finalmente encontro a nascente, faço vídeos e posto fotos”, descreve. “O objetivo é mostrar que esses cursos de água fazem parte do cotidiano das pessoas”.

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