Leonardo Valle

Em janeiro de 2020, Deltiane Pereira comemora o primeiro ano do transplante de medula óssea de seu filho Enzo, hoje com 10 anos. O menino, que sofria de uma leucemia, encontrou um doador 100% compatível com ele após o hospital buscar no Registro Nacional de Doadores de Medula Óssea (Redome) e em bancos internacionais de doações.

“Sabemos apenas que esse homem é brasileiro, tem 38 anos, e, provavelmente, mora no exterior, porque não constava primeiramente no banco nacional”, relata Pereira. “Ele foi a única pessoa no mundo 100% compatível com o Enzo. Caso ele não existisse, haveria um doador 70% compatível e outro 40%”, relembra.

O sinal verde para a doação trouxe esperança para a família, que chegou a mudar de cidade para acompanhar o tratamento da criança. “Foi uma sensação de alegria indescritível quando recebemos a notícia. Se esse doador tiver interesse e permitir, em seis meses, poderemos encontrá-lo e saber a sua identidade”, ressalta a mãe.

Assim como o garoto, milhares de pessoas no Brasil dependem de uma doação de medula óssea para sobreviver. “A medula óssea se encontra no interior dos ossos e possui as células-tronco que produzem os componentes do sangue”, explica a coordenadora de Terapia Celular do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (USP), Lívia Caroline.

O procedimento é indicado para pacientes com doenças que comprometem a produção normal de células sanguíneas, como as leucemias, além de portadores de aplasia, quando a medula “para” de funcionar, ou síndromes de imunodeficiência.

Ao contrário da doação de sangue, encontrar um doador de medula óssea compatível com um paciente é uma tarefa complexa. Para isso, é preciso que ambos tenham a mesma tipificação do sistema do antígeno leucocitário humano ou HLA (sigla em inglês de human leukocyte antigen). Este código genético é que orienta o sistema imunológico da pessoa para identificar possíveis ameaças.

“A herança HLA depende da origem dos avós e pais do paciente no mundo. Por exemplo, o japonês tem um HLA da sua região, assim como o europeu e o brasileiro. Além disso, há sub-ramificações a partir desses”, descreve a médica e diretora da Associação da Medula Óssea do Estado de São Paulo (Ameo), Adriana Seber.

Salvando vidas

A chance de encontrar um irmão com HLA compatível é de 25%. Quando isso não acontece, os hospitais buscam os perfis de doadores em bancos como o Redome – motivo pelo qual o cadastramento contínuo de novos doadores é importante.

“Para doar, o primeiro passo é se apresentar em um centro de coleta de sangue. O material coletado é tipificado e cadastrado para o Redome”, resume Caroline.

Para ser um doador, é necessário preencher alguns pré-requisitos, como ter entre 18 e 55 anos de idade, não apresentar doença infecciosa transmissível pelo sangue, histórico de câncer ou doença autoimune. As orientações completas podem ser acessadas no site do Redome.

Atualmente, o Brasil possui o terceiro maior banco de doadores do mundo, com aproximadamente 5 milhões de pessoas cadastradas, ficando atrás apenas de Estados Unidos e Alemanha.

“Contudo, faltam doadores homens, jovens e que não sejam brancos. Os negros possuem uma variabilidade de HLA maior e há menos pessoas cadastradas nos bancos. Quanto mais pessoas com esse perfil se cadastrarem, melhor”, estimula Seber.

O cadastro do doador permanece ativo no Redome até ele completar 60 anos de idade. Por esse motivo, também é necessário que a pessoa atualize seus dados telefônicos e endereço regularmente, pelo site ou aplicativo.

“Infelizmente, acontece do doador ser compatível com o paciente e o Redome não o encontrar, pois seu cadastro está desatualizado”, lamenta Seber.

Mitos da doação 

Quando se encontra um possível doador de medula óssea no Redome, ele e o paciente são avaliados por equipes médicas diferentes, para não influenciar no resultado. “Caso haja qualquer dúvida ou risco, a doação não é autorizada”, destaca Caroline.

O paciente que receberá a medula precisa ser submetido a uma medicação para suprimir seu sistema imunológico e evitar que o corpo rejeite a substância.

“Hoje, por conta dessas medicações, podemos trabalhar com compatibilidade de até 90% nos transplantes”, diz Caroline.

A doação, geralmente, é realizada em centro cirúrgico com o doador anestesiado, para que não sinta dor. Uma agulha retira o líquido do interior do osso da bacia.

Além disso, também é possível coletar a medula óssea por meio de um procedimento que lembra a hemodiálise. Uma medicação estimula essas células a caírem no sangue do doador, e uma máquina filtra a substância.

Um dos possíveis motivos que afasta as pessoas da doação é a confusão entre a medula óssea (que se encontra no interior dos ossos) com a medula espinhal. “Como elas têm o mesmo nome, é comum a população achar que pode ficar paraplégica se doar medula óssea, mas são coisas diferentes”, tranquiliza Caroline.

Veja mais:
Doação de sangue: o que explica a baixa adesão no Brasil?

Crédito da imagem: Miikam – iStock

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