Você já deve ter se deparado com reportagens online ou posts de redes sociais com chamadas e fotos sensacionalistas. Essa estratégia tem nome: clickbait, ou isca de clique, em tradução livre.

Basicamente, a intenção de fisgar o usuário e direcioná-lo para um site é financeira. As páginas podem hospedar anúncios de empresas e ganhar patrocínio baseado na quantidade de visitações. Mesmo veículos jornalísticos e com fins informativos podem se valer da prática, assim como influencers de redes sociais, que costumam divulgar produtos e serviços.

“O caça cliques utiliza chamadas emocionais, de forte comoção, fofoca ou apelo moral e à violência para despertar a curiosidade do internauta e garantir o acesso”, resume a diretora de projetos especiais da SaferNet Brasil, Juliana Cunha.

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Por apostar em assuntos morais, o clickbait não raro se vale da exploração da imagem de uma pessoa ou grupo, ou mesmo de linchamento virtual, como matéria-prima para a sua manchete. Pode ser falar da atriz famosa que traiu o parceiro ou, como ocorreu recentemente, o humorista que utilizou a imagem de uma modelo plus size e do namorado dela, um homem transgênero, sem autorização para divulgar uma apresentação de stand-up. Sua publicação veio seguida de posts e comentários gordofóbicos e transfóbicos.

“Se houver a incitação da violência contra determinados grupos historicamente discriminados, como pessoas negras, LGBTI+ ou de característica física e religiões específicas, um determinado conteúdo pode ser considerado discurso de ódio”, alerta Cunha.

Seu clique é valioso

Dar uma espiadinha na fofoca ou naquele post de conteúdo sensível pode parecer algo inofensivo, mas não é, como explica o desenvolvedor de código e especialista do Ceweb.br (Nic.br), Diogo Cortiz.

“O interesse em qualquer conteúdo é indicador de engajamento. Abrir o post, clicar e permanecer na página pode levar o algorítimo de uma determinada plataforma a entender aquele conteúdo como relevante e passar a indicá-lo a mais pessoas”, alerta o profissional.

Algorítimo é um termo utilizado na programação para uma sequência de instruções que leva a uma decisão. “Toda a computação é feita por algorítimos”, esclarece Cortiz.  Quando você pesquisa para comprar uma calça na internet e passa a ser bombardeado por anúncios de lojas de roupa, é o algorítimo do site de buscas funcionando.

No caso do fenômeno clickbait, quanto maior a interação, maior a relevância. “Como trabalha com questões de comoção social, muitas pessoas podem se indignar e compartilhar o conteúdo, comentá-lo com críticas ou mesmo dar ‘deslike’, o ‘não gostei’. Contudo, não sabem que isso incentiva a publicação”, revela Cortiz.

No caso das redes sociais, os algorítimo são tidos como caixas-pretas. “A forma como funcionam não é explicada pelas empresas”, lamenta o especialista.

Em contrapartida, pode haver algorítimos que, ao entender que a informação postada pratica discurso de ódio ou divulga informações sensíveis, tentam inibi-lo.

“Tiram automaticamente o patrocínio (desmonetização) ou impedem a oferta a outros usuários”, afirma Cunha.

Pausa antes de clicar

Escolher aquilo que se clica ajuda a criar uma cultura mais pacífica na internet. “Não clicar em posts de ódio pode representar uma mudança de comportamento e resultar em melhorias. Caso contrário, seremos vítimas dos algorítimos”, sintetiza a professora da pós-graduação em comunicação da Universidade Federal de Goiás (UFG), Luciene de Oliveira Dias.

“Há um temor em estarmos alimentando um sistema sem volta de cultura de ódio”, aponta ela, que pesquisa mídia e cultura.

Dias indica refletir por dois minutos antes de decidir acessar ou não um conteúdo. “Julgamos rápido e isso é o oposto da empatia. Talvez entender que a pessoa exposta na chamada teve um comportamento errado, mas que eu também erro. E que comentar de forma violenta pode levar ao adoecimento e até a morte de quem é alvo”, conscientiza.

“O clickbait é um desafio para o usuário por ser feito para ter uma resposta emocional, rápida e quase que involuntária”, complementa Cunha.

Clicar em um conteúdo que indigna também deve ser evitado. “Além de dar mais visibilidade, posso estar revitimizando a pessoa-alvo”, analisa a coordenadora da Safernet.

A especialista também lembra a responsabilidade das plataformas e sites em garantir algorítimos e layout mais positivos, e da grande imprensa em repensar sua linha editorial. Ao usuário, vale refletir se os conteúdos que acessa na internet podem fazer mal para si ou para o outro, seja uma pessoa ou grupo social.

“Em outras palavras, somos aquilo em que clicamos”, finaliza.

Crédito da imagem: Urupong – iStock

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