Dólar alto, bolsas de valores em queda, desemprego e até uma declaração do Fundo Monetário Internacional (FMI) comparando os impactos do novo coronavírus (covid-19) à depressão de 1929 mostram uma crise econômica global se consolidando.

A economia colaborativa pode impactar positivamente esse cenário. É o que apontam dois professores de administração: Samuel Façanha Câmara, da Universidade Estadual do Ceará (UECE), e Eduardo de Rezende Francisco, da Fundação Getulio Vargas (FGV).

“Muda-se o modelo de consumo baseado na posse de um bem material para o seu uso compartilhado. Ou seja, ela é o contrário da economia tradicional”, diferencia Francisco.

O movimento não é novidade e já havia transformado o mercado hoteleiro, a indústria musical e a mobilidade urbana antes da covid-19. “O isolamento social e a crise econômica ajudaram a expandi-lo mais”, avalia ele.

Segundo Câmara, o fortalecimento da economia colaborativa é comum em crises econômicas. “Ocorre pela carência de recursos, de acesso a bens e desemprego, o que aumenta a necessidade de cooperação e solidariedade entre as pessoas”, justifica.

“Em um contexto em que trabalhos formais reduzem e a informalidade garante a sobrevivência de algumas pessoas, a economia colaborativa ajuda”, diz Francisco.

O fenômeno, porém, acontece em ondas. “Às vezes aumenta, em outras, diminui. Ainda assim, sempre deixa ganhos permanentes na sociedade”, destaca Câmara.

Para Francisco, os aplicativos de delivery são um exemplo de serviço acelerado no isolamento social que continuará fortalecido. “Restaurantes que se opunham a esse sistema por presar pela experiência do cliente no local, tiveram que usá-lo para sobreviver. Viram que é uma opção que pode ser usada mesmo depois da crise”, exemplifica.

Modelos diversos

Câmara aponta duas formas diferentes de praticar a economia colaborativa. A primeira é baseada na solidariedade.

“Pessoas que se juntam, sem intermediários que lucram, para coproduzirem algo, compartilharem bens ou realizarem iniciativas em conjunto. É chamado de ‘ganha-ganha’, ou seja, todos se beneficiam”, descreve ele, que é doutor em economia. Bancos de tempo, por exemplo, podem se enquadrar na categoria.

Mas há projetos colaborativos que seguem a linha do mercado. Basicamente, são empresas que ajudam parceiros a disponibilizarem um serviço ao grande público, ganhando pela intermediação.

“A lógica capitalista prevalece. São grandes plataformas que devem oferecer valor para usuário e colaborador. Para que eles não queiram sair do aplicativo e fechar o negócio por fora”, exemplifica Francisco.

Aplicativos de mobilidade urbana são exemplos da modalidade. “São positivos por terem oferecido um serviço mais barato que o taxi, garantindo acessibilidade e melhora na locomoção pela cidade”, lista .

Contudo, Francisco lembra que tais empresas podem lucrar se apoiando em situações de trabalhos precarizadas. “Na pandemia, isso foi visto com os entregadores de comida, por exemplo. Tidos como ‘empreendedores’, eles são mal remunerados e se expuseram ao vírus para que a população pudesse ficar em casa. Mas, quando um deles adoece, quem garante a sobrevivência da sua família enquanto ele não puder trabalhar?”, questiona.

“As empresas devem continuar lucrando, claro, mas é preciso responsabilidade pela saúde e segurança social dessa pessoa em situação vulnerável. Cabe ao estado regularizar essas relações”, denuncia.

Tendências futuras

Trabalhadores informais excluídos digitalmente foram prejudicados durante a pandemia, algo que Francisco vê como tendência. “Em certos casos, a economia colaborativa pressupõe um letramento digital”, explica. “Trabalhar offline exige que os clientes se dirijam a um local físico. Se aglomerações são proibidas, o uso das tecnologias é essencial para ser visível e ter renda. Devemos agora pensar como incluir esses profissionais”, afirma.

Outro ponto negativo é que grandes corporações tendem a sair na frente dos trabalhadores comuns ao identificar demandas e oferecer soluções colaborativas. “Elas possuem mais estrutura e recursos para entender o mercado e implantar alternativas”, conta.

Já o modelo da economia tradicional, baseada na posse e no consumo exclusivo do bem, não deixará de existir, segundo ele. “Nem tudo será participativo”, garante Câmara.

Para praticar a economia colaborativa, ele sugere ao consumidor apoiar serviços produzidos e disponibilizados dentro da lógica solidária. “Qualquer pessoa pode praticar, seja emprestando um bem ou cooperando. Sugiro iniciar a execução da colaboração na família, expandir aos vizinhos de bairro até alcançar seus demais grupos de convivência”, ensina.

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Crédito da imagem: Aline Alcantara – iStock

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