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O Brasil tem números alarmantes de violência infantil. Como a maior parte dos casos é cometida por familiares, o problema se agrava durante o isolamento social das famílias, ocasionado pela pandemia do novo coronavírus (covid-19). É o que pontua a psicóloga e fundadora do Instituto É Possível Sonhar, que acolhe crianças que sofrem agressões físicas, emocionais e sexuais, Daniela Generoso.

Segundo dados do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), divulgados em setembro de 2019, o país tem o maior número de mortes de crianças e adolescentes do mundo.

“Além dos índices, também posso falar do Instituto, porque estamos recebendo denúncias diretamente. E, em um único dia, foram 74 relatos. De crianças e adolescentes mandando mensagem pra gente.”

Um relatório da organização não governamental (ONG) World Vision, divulgado em maio de 2020, também reforça os números. Ele estima que até 85 milhões de crianças e adolescentes, entre 2 e 17 anos, poderão se somar às vítimas de violência física, emocional e sexual até agosto, em todo o planeta, por causa da quarentena. No caso do Brasil, a projeção é de um aumento de 18% no volume de denúncias de violência doméstica.

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Entrevistada neste podcast, Generoso – que foi vítima desse tipo de agressão quando pequena, chegou a fugir de casa e morar na rua, até encontrar apoio e superar o trauma – comenta que, agora, a criança está mais tempo com o agressor e não tem ninguém para protegê-la. “Quem eram as pessoas que nos ajudavam muito nesse processo? As tias da escola, as professoras. Uma vez que a gente não tem mais esse contato, fica muito difícil para a criança pedir ajuda.”

Daniela Generoso criou o Instituto É Preciso Sonhar para resgatar autoestima de crianças vítimas de violência (crédito: divulgação)

No áudio, ela conta quais são os tipos de agressão mais comuns, o que pode revelar o comportamento perigoso de um adulto e como a criança pode ser protegida dessa situação.

Além de atender esse público por indicação dos conselhos tutelares e do Ministério Público, o Instituto É Possível Sonhar também oferece auxílio gratuito online. O contato pode ser feito nas redes sociais ou via e-mail.

Vítimas ou testemunhas de violações de direitos infantis, como violência física ou sexual, podem denunciar anonimamente pelo Disque 100.

Crédito da imagem principal: stevanovicigor – iStock

Ver transcrição do áudio

Trilha “Fortress Europe”, de Dan Bodan, de fundo:

Daniela Generoso:
Quando você grita com alguém é porque o coração desse alguém está muito longe de você. Você não resolve mais as coisas no diálogo, expondo aquilo que você sente. Você educa batendo, gritando, impondo que as coisas sejam do seu jeito, na sua hora, do seu modo… a gente não respeita a criança como um ser humano. A gente acha que a criança é uma extensão nossa, por isso que a gente age com ela como se fosse propriedade nossa, quando não é.

Meu nome é Daniela Generoso. Eu sou psicóloga e fundadora do Instituto É Possível Sonhar.

Vinheta: “Instituto Claro – Cidadania”

Música instrumental, de Reynaldo Bessa, de fundo

Marcelo Abud:
O isolamento social potencializa casos de violência contra crianças e adolescentes. É o que atesta a fundadora do Instituto É Possível Sonhar, que acolhe crianças que sofrem agressões físicas, emocionais e sexuais. Daniela Generoso comenta que o fórum nacional de segurança pública e o ministério da mulher, da família e dos direitos humanos comprovam esse aumento. Ela também traz outros dados que demonstram a exposição de crianças a diferentes tipos de abuso.

Daniela Generoso:
Inclusive, no Instituto Liberta, o Brasil está em segundo lugar em violência contra a criança, atrás apenas da Tailândia. Também posso falar do Instituto É Possível Sonhar, porque a gente está recebendo a denúncia diretamente e em um único dia foram 74 relatos de denúncia… de criança mandando mensagem pra gente, de adolescente. Eles estão pedindo socorro, nem que seja de forma online. É muito sério!

Só que tem sido uma epidemia silenciosa. Ninguém tem falado sobre o assunto, não está nos grandes cenários jornalísticos.

Marcelo Abud:
Estudos apontam que casos são subnotificados e que, na quase totalidade, o abuso é praticado por parentes da vítima.

Daniela Generoso:
A criança está mais tempo agora com o agressor e não tem ninguém para assisti-la. Quais eram as pessoas que nos ajudavam muito? São as tias de escola, as professoras. E aí uma vez que a gente não tem mais esse contato fica muito difícil para a criança poder verbalizar e qual é o papel desse agressor? Como ele não corre risco, a agressão passa a ser mais frequente.

Música: “A Notícia” (Celso Viáfora / Vicente Barreto), com Nilson Chaves
“Era um menino loiro de olho azul / Que tinha sido abandonado nu / Numa avenida”

Daniela Generoso:
Esse agressor, é importante também a gente enfatizar, que ele não é um monstro. Porque a gente criou essa cultura de dizer que o agressor é um monstro e a criança não vê aquele tio, o pai, o padrasto com um monstro, é a pessoa que ela conhece. Então mistura muito o monstro com a fantasia. O agressor, não vem escrito na testa, não tem ordem social, não é rico nem é pobre, não tem idade. A gente tem desde agressor adolescente, lá pelos seus 16, 17 anos, até homens idosos.

Marcelo Abud:
A psicóloga cita os tipos de agressão mais comuns dos quais as crianças são vítimas.

Daniela Generoso:
Violência psicológica é a top, a gente está sempre torturando as nossas crianças psicologicamente. Em segundo lugar, vem a violência física e em terceiro lugar a violência sexual. Então a gente está falando aí de todos os relatos de violência, 20% se dá violência sexual. Mas a violência sexual cresceu muito nessa pandemia. Os dados têm assustado a gente.

Marcelo Abud:
Daniela Generoso aponta alguns indícios que podem ajudar a identificar um pedófilo.

Daniela Generoso:
A gente precisa perceber alguns comportamentos que são um pouquinho estranhos. A gente vê o perfil social de uma pessoa que só tem menina novinha, só tem criança, é estranho, né? Geralmente nosso perfil social são as pessoas que a gente se relaciona a gente tem que ficar atento a isso.

O tio está colocando muito no colo, é um tio querido e ninguém imagina, é pessoa acima de qualquer suspeita.

Marcelo Abud:
E como evitar que um adulto sujeite a criança à violência?

Daniela Generoso:
Não deixe sozinho seu filho com ninguém. Não há necessidade disso. Na maioria das vezes o pedófilo precisa do isolamento. Então se você deixa o seu filho isolado com alguém, você corre um sério risco.  E aí a gente também não pode esquecer de falar do virtual. Eu estou aqui, por exemplo, na minha casa e meu filho está lá no computador. E aí quem é que está lá com ele? Pode ser uma pessoa se passando por uma menina da idade dele, pedi para ele tirar fotos do corpo dele e ele acabar passando. A vulnerabilidade da criança, do adolescente pode estar em qualquer lugar, por isso que a gente tem que estar bem atento com o que está acontecendo.

Música: “É preciso” (Jota Quest)
“É preciso falar / É preciso falar”

Daniela Generoso:
A melhor forma de você fazer a prevenção é ter conhecimento. É você exercer o diálogo. De acordo com cada idade você vai explicando. Mas acho que assim, a principal, a pessoa começou a tomar consciência do seu corpo, você vai deixar seu filho já na escolinha? Vai ensinando as partes do corpo que ninguém pode tocar: ‘olha, só a mamãe pode te tocar, só fulano pode te tocar, se alguém disser que não é pra você contar pra mim, é mentira. Principalmente as ameaças. ‘Se te ameaçar, dizer que vai fazer isso com a mamãe ou aquilo, não se preocupa que não vai acontecer nada, conta tudo’. Aí quando você estabelece um diálogo com seu filho constante, é uma coisa do dia a dia, você estabelece confiança, então fica mais fácil para ele te contar tudo o que acontece.

Agora se você não sabe como falar, eu indico que tem alguns vídeos no YouTube que ensinam a forma de você falar de acordo com que faixa etária. Na dúvida, procura uma profissional de psicologia, procura um pediatra, que ele vai dar uma instrução de como falar com a criança sobre isso.

Marcelo Abud:
Vítima de violência na infância e adolescência, Daniela chegou a morar na rua, mas encontrou apoio para reconstruir sua vida. Hoje ela é responsável pelo Instituto É Possível Sonhar e reúne voluntários para oferecer atendimento multiprofissional e sem custo a crianças que sofrem agressões.

Daniela Generoso:
Nosso principal apoio é a psicologia pra que a gente possa reestruturar a criança vítima de violência, mas a gente tem todo um apoio multiprofissional: psiquiatra, fono, nutricionista, porque uma criança vítima de violência pode desenvolver algum problema gastrointestinal, então o que que ela vai precisar? De uma nutricionista.  Tem crianças que vão desenvolver gagueira, então a gente tem fono. Tem orientação jurídica para a mãe, a gente acompanha até a delegacia, faz o acompanhamento pós denúncia também. Tem reforço escolar, porque as crianças caem no rendimento escolar, tem curso para a mulher – geralmente na área de estética – para a mulher sair do ciclo de violência, porque algumas vezes que a criança passa por violência, pode ter certeza que essa mulher também está passando por violência. O nosso trabalho é dizer para a criança que, mesmo ela passando por aquela dor, ela pode sonhar.

Música: “A vida é desafio” (Pedro Paulo Soares Pereira), com Racionais MC’s
“É isso aí você não pode parar / Esperar o tempo ruim vir te abraçar / Acreditar que sonhar sempre é preciso / Acreditar e sonhar”

Daniela Generoso:
Não nos preocupamos em dar alta enquanto a criança não conseguir equilíbrio emocional. Temos 15% que abandonam os tratamentos por diversos motivos. O mais comum é a mãe voltar para o agressor; os responsáveis acharem desnecessário a continuação do atendimento; arrumarem um novo emprego ou por falta de dinheiro para pagar a passagem para irem para o instituto.

Marcelo Abud:
As crianças chegam ao Instituto É Possível Sonhar por indicação dos conselhos tutelares e ministério público. O grupo de profissionais também auxilia e presta atendimento online pelas redes sociais.

Com apoio de produção de Daniel Grecco, Marcelo Abud para o Instituto Claro.

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