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A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) está desenvolvendo um estudo para avaliar as condições de trabalho e saúde de pessoas cuidadoras de idosos, diante do novo coronavírus (covid-19). Os dados auxiliam a criação de materiais informativos e educativos para pessoas cuidadoras, com ênfase no enfrentamento da pandemia.

O levantamento faz parte do projeto “Cuidando de quem cuida”. Em etapa anterior, juntamente com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a Fiocruz realizou a Pesquisa Nacional de Saúde, que coletou dados entre agosto de 2019 e fevereiro deste ano. Cerca de 1,5 mil agentes visitaram 108 mil domicílios em mais de 2 mil municípios de todo o país.

Os apontamentos preliminares – o consolidado será divulgado em 2021 – indicam que cerca de 8% dos idosos precisam de ajuda para atividades da vida diária como alimentação, higiene pessoal, medicação de rotina, acompanhamento aos serviços de saúde, bancos ou farmácias.

Também o levantamento aponta que se levando em conta que 33% dos domicílios têm ao menos um idoso, são aproximadamente 2 milhões deles que precisam desses cuidados, sendo que em 20% dos casos a função é exercida por cuidadoras contratadas, e em 80% por familiares.

No Brasil, quase a totalidade de pessoas cuidadoras são mulheres e tem entre 30 e 50 anos, revela o estudo (crédito: Pixabay)

Para antecipar outras informações sobre o perfil sociodemográfico e o impacto da pandemia para as condições de trabalho e saúde dessa população, o Instituto Claro ouve o coordenador do estudo, professor e pesquisador da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV/Fiocruz), Daniel Groisman.

“Temos dois fenômenos que foram identificados: um é o aumento do desemprego entre as cuidadoras contratadas; e o outro é o aumento da sobrecarga entre as cuidadoras familiares”, constata Groisman.

A coordenadora do Grupo de Informação em Saúde e Envelhecimento da Fiocruz, Dalia Romero, também ouvida no podcast, avalia que, pelo fato de grande parte das pessoas que auxiliam os idosos serem da família, normalmente não se reconhecem como cuidadoras.

“É muito difícil que o familiar que dedica sua vida a cuidar da sua mãe, do seu pai; aquele marido, aquela esposa que cuida do familiar, reconheça que ele é cuidador. Você tem que falar muito com aquela pessoa para que ela reconheça que está cumprindo um papel fundamental”, afirma.

Crédito: Pixibay

O estudo aponta ainda outros dados alarmantes, como o fato de que mais de 90% das pessoas cuidadoras são mulheres, entre 30 e 50 anos, e sem curso superior; também que metade delas declara sentir tristeza ou algum sintoma de depressão, além de revelarem impactos físicos: 60% manifestam dores na coluna.

Os pesquisadores indicam que as pessoas cuidadoras se encontram em situação de grande responsabilidade, maior sobrecarga e com necessidades de apoio e maior acesso à informação, em função da pandemia do novo coronavírus. Nesse sentido, os resultados do levantamento são úteis para a criação de políticas públicas nessa área.

O material do projeto “Cuidando de quem cuida” pode ser acessado no portal criado especialmente para o tema.

 

Transcrição do Áudio

Música “Hovering Thoughts”, de Spence, de fundo

 

Daniel Groisman:

As gerações mais jovens estão envelhecendo, estão encolhendo e o fato de que muitas famílias ainda cuidam dos seus idosos não significa que esse cuidado ocorra sem sacrifícios ou sem dificuldades. O desafio que a gente tem tanto para os idosos de hoje quanto para as gerações que vão envelhecendo é também de pensar de formas de apoiar esses cuidados: uma corresponsabilização da coletividade, da sociedade, junto com o Estado para que as pessoas não fiquem sozinhas nessa função.

Daniel Groisman, professor e pesquisador da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio, da Fundação Oswaldo Cruz, no Rio de Janeiro.

 

Vinheta “Instituto Claro – Cidadania”

 

Música “Hovering Thoughts”, de Spence, permanece de fundo

 

Marcelo Abud:

A pandemia provocada pelo novo Coronavírus no Brasil alterou a vida de muitas pessoas, inclusive daquelas que cuidam de idosos. Para dar visibilidade e propor políticas públicas, a Fundação Oswaldo Cruz está mapeando o impacto da dessas mudanças, a partir da pesquisa e do projeto “cuidando de quem cuida”. Nesta edição, você acompanha alguns dados preliminares do estudo.

 

Daniel Groisman:

A gente se propôs a desenvolver um projeto destinado a ver quais são as condições de saúde de trabalho das pessoas que cuidam desses idosos. Cuidar de quem cuida é uma forma também de beneficiar as pessoas que precisam e dependem desses cuidados. No nosso site a gente também está disponibilizando uma série de materiais informativos e educativos, como vídeos, cartilhas, orientações para o cuidado de idosos nesse contexto.

 

Música: “Mãezinha querida” (Getúlio Macedo e Lourival Faissal), com Ângela Maria

Minha mãezinha querida
Mãezinha do coração
te adorarei toda a vida
Com grande devoção

 

Marcelo Abud:

A coordenadora do grupo de informação, saúde e envelhecimento da Fiocruz, Dalia Romero, dá uma dimensão do número de pessoas cuidadoras no Brasil.

 

Dalia Romero:

8% dos idosos precisam de algum cuidador, porque têm alguma limitação da atividade da vida diária como comer, sair de casa, tomar banho; e ao redor de 33% dos domicílios têm pelo menos algum idoso. Fazendo uma conta por alto, nós temos quase dois milhões de pessoas que estão tomando conta de algum idoso em casa.

 

Marcelo Abud:

Considerando o atual estágio da pesquisa, Daniel Groisman traz um perfil mais detalhado dessa pessoa cuidadora.

 

Daniel Groisman:

O que a gente já tem como alguns dos resultados preliminares da nossa pesquisa nacional que abrange as trabalhadoras do cuidado, tanto familiares como contratadas ou pagas, é que mais de 90% são mulheres, entre 30 e 50 anos e com uma escolarização em torno do ensino médio, ensino fundamental. E o trabalho de cuidado no Brasil, historicamente, ele é invisibilizado, desvalorizado; se confunde com o emprego doméstico. Então ele também é marcado por condições de informalidade, condições precárias de trabalho; baixo acesso à escolarização.

 

Dalia Romero:

80%, no Brasil, são cuidadores familiares. É muito difícil também que o cuidador familiar, que dedica a vida a cuidar da sua mãe, do seu pai, aquele marido, aquela esposa que cuida do familiar, reconheça que ele é cuidador.  Por quê? Porque fica no campo da invisibilidade. Ele diz ‘eu sou filha, eu não sou cuidadora’. Você tem que falar muito com aquela pessoa para que ela reconheça que ela está cumprindo um papel fundamental e que esse papel de cuidador tem que ser respeitado, tem que a sociedade reconhecer, não apenas a família. Então é um trabalho que o Brasil tem que fazer com muita delicadeza, né?

 

Daniel Groisman:

No Brasil a gente tem uma naturalização histórica e já arraigada dos papéis de gênero e é como se realizar o trabalho de cuidado fosse uma função natural das mulheres da família e daí a dificuldade de se mostrar que isso é um trabalho, ainda que não remunerado, e que merece ser reconhecido. Essas pessoas precisam, inclusive, se identificar enquanto cuidadoras pra terem visibilidade perante as políticas públicas e a sociedade em geral.

 

Marcelo Abud:

As pessoas cuidadoras de idosos estão se dedicando à população mais vulnerável e ainda precisam se preocupar em evitar riscos para sua própria saúde e de outros familiares. Tudo isso gera a necessidade de um cuidado ainda maior com essa população.

 

Dalia Romero:

Também temos um impacto seríssimo no bem estar, no estado de ânimo. Vimos já na pesquisa nossa que 50% das cuidadoras de idoso declaram ter muita tristeza e sintomas, inclusive, de depressão. Claro que isso poderia ser esperado, mas é fundamental dar essa visibilidade. Isso está vinculado com o total desamparo social que tem, né?

 

Música: “Estou triste” (Caetano Veloso)

Estou triste tão triste

Estou muito triste

 

Dalia Romero:

A população mais pobre tem uma proporção similar de idoso que tem a necessidade de cuidado, entretanto elas não podem contratar ninguém para cuidar. Então eles cuidam de seus familiares e ainda precisam sair de casa e no meio de uma pandemia para manter seu emprego.

 

Marcelo Abud:

Groisman aponta outros problemas que a pandemia trouxe para as pessoas cuidadoras.

 

Daniel Groisman:

Um é o aumento do desemprego entre as cuidadoras contratadas; e o outro é o aumento da sobrecarga entre as cuidadoras familiares. Então se você conhece alguém que é cuidadora, volte o seu olhar pra essa pessoa; pergunte como ela está, veja se ela está sobrecarregada, se ela precisa de alguma ajuda, se ela está tendo que trabalhar por muitas horas seguidas. Porque a reponsabilidade de cuidar de uma pessoa idosa – e as pessoas idosas são o principal grupo de risco na pandemia – ela é enorme.

As pessoas podem achar que a pandemia já acabou, retomaram a sua vida normal, mas para as pessoas idosas frágeis, dependentes de cuidados, isso não é uma realidade. Elas estão com restrição de visitas, muitas estão em suas casas e é uma situação muito difícil tanto pra elas quanto para as pessoas que cuidam delas.

 

Dalia Romero:

Ao redor de 60% da pessoa cuidadora tem algum problema de coluna. Então a gente tem que fazer um chamado de atenção e propor, especialmente, articulado com o Sistema Único de Saúde, com o Sistema Único de Assistência Social, algum tipo de intervenção para ajudar as pessoas cuidadoras de idoso.

 

Música “Hovering Thoughts”, de Spence, de fundo

 

Áudio de vídeo da campanha “Cuidando de quem cuida”:

(Cuidadora) Seu Nelson,  devagar, tá?

(Idoso) Tá.

(Cuidadora) Vamos no banheiro escovar os dentes? Vam’bora!

 

Marcelo Abud:

No site do projeto “cuidando de quem cuida”, você encontra a pesquisa que continua mapeando a situação das pessoas cuidadoras, além de material informativo sobre como p revenir o contágio, como lidar com o isolamento social, direitos trabalhistas e políticas de saúde. O endereço está no texto que acompanha esse podcast.

Com apoio de produção de Daniel Grecco, Marcelo Abud para o Instituto Claro.

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